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segunda-feira, agosto 13, 2007

Frio interminável

Primeiro, foi o frio absurdo do Sul por opção.
Minuanos no rosto, a pele doendo, vermelha, trincada, prestes a sangrar.
Mas, por recompensa, as cores de gorros, luvas, cachecóis e sobretudos, as emoções de trenós e cavalos no meio de matas e a noite regada a vinho seco e bom e fondue, a cama aquecida de carinho e edredon. O calor do merecido e caro descanso.

Pouco tempo e vem o frio da terra, cinza, úmido e fedido. Mas, enfim, é este o chão que lhe pertence.
A chuva fina que deprime, o desânimo do não ter e nem saber o que fazer e a coragem de ficar apenas sob o velho cobertor xadrez, vendo filmes infantis durante a tarde, curtindo um ócio merecido e uma espera interminável. Vinho só o doce e barato. Sopa, só congelada. Calor? Só o de dentro, formado por fantasias inconfensáveis.

E agora, é este frio interminável de manhãs escuras que nunca clareiam naquela sala, as mãos e os pés como gelo que não derrete, no peito o ar rasga e dói: ele falta e te desrespeita.
A fricção é inútil e mesmo as blusas se amontoam em seu corpo sem nenhum resultado.
À noite, a água do chuveiro deve ferver, o aquecedor deve estar no seu limite máximo e o pijama deve se parecer com roupa de palhaço. É o único aconchego, o melhor. O calor vem da raiva, mas há consolo no abraço.

E, em tudo, também há a lágrima que, se cair, virá fria, ácida ou amarga, como o seu tempo.

quinta-feira, março 15, 2007

Reconciliação

A dor me leva de volta à água. Me reconcilio com ela, e a aceito de novo, com sua maciez e seu silêncio. O meu silêncio.
Entro devagar. Odeio respingos pra todos os lados, divisão de problemas com os outros, forma de demonstrar autoconfiança, mas é só autoafirmação.
Respiração profunda, olhos abertos, me estico e sigo.
Num susto, me surpreendo ao ver no fundo minha sombra. Ela me segue livre, como que desprendida de mim. Sua aura é própria. Ela está lá, refletida no azulejo escuro, fazendo cada movimento melhor do que eu mesma.
Apuro a visão e sinto cada onda que se forma com nossos toques. Mudo de posição, olho pra cima, a luz do sol fraco passa através do teto translúcido.
Percebo meus braços, mãos e dedos. Eles vem e vão, surgem e desaparecem e me empurram para a parede.
A água morna me envolve toda, com se fosse um corpo masculino, e eu vou imaginando que ela é. Um corpo bom, grande, que me cobre inteira, me toma e me proteje. Sem ele, na saída, é só frio.
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8. Viro e sigo de novo.
O sol se vai, agora só há refletores ofuscando meus olhos.
- Senhora, é hora de sair.
Acabou o meu prazer.