terça-feira, março 18, 2008

Um epitáfio para dois funerais

É muito difícil enfrentar a dor da morte. A morte é sempre mudança, é transformação. E sempre dói. Quando chegamos perto dela, nunca voltamos a ser o que éramos antes. E isso não tem a ver com amargura ou tristeza. Tem a ver com a forma de ver o mundo. E com a forma de sentir os outros. E de se entregar para os outros, de se abrir ao novo a partir do desaparecimento de algo que fazia parte de você.

Eu quis enganar a dor da morte. Quis ser mais dura do que ela, superá-la, mostrar a ela o quanto eu podia ser forte. A desculpa era proteger. Como se com minha proteção aquela perda não atingisse mais ninguém. Não me dei o direito de chorar, não me dei o direito de gritar. Fiquei lá, recatada, correta, admirada. Curtindo a dor nas madrugadas, mas amanhecendo com um sorriso no lábios. A imagem que me vem hoje é de algo despedaçado por um tsunami, mas em pé. É admirável mesmo.

Por que fiz aquilo? Era o melhor, eu achava. Mas não era e teve um preço.

Agora, a dor da morte que enfrento vem e puxa a outra, aquela que tentava ficar lá, escondida no fundo do meu coração. Dores iguais por motivos diferentes.

Preciso fazer dois funerais. Mas só consigo escrever um epitáfio.

"Nunca vou esquecer os teus olhos
Grandes
Negros e
brilhantes

Cílios longos, longos cílios
me fixando, sem
piscar
Me dizendo amor
me dizendo calma
me trazendo paz no meio do
turbilhão

Nunca vou esquecer teu hálito acre
Tua pele macia
Teu corpo contorcido de dor

Queria fazer minha a tua dor

Seu brilho,
seu
brilho
Às vezes morro de saudades
Hoje sei que está aqui porque te
chamo
Porque te que quero perto

Você foi luz na minha vida
Na minha casa
No meu caminho

Nasceu de mim
Me atravessou e
partiu

Teu rastro, tua paciência, linha de emoção
que eu persigo
Hoje sei que tenho que te deixar partir"

................

Talvez com isto meu coração fique mais leve e eu consiga parar de chorar.




4 comentários:

Anônimo disse...

isto parece que foi pra mim.
engraçado que só agora penso que é a morte mesmo. antes só me enganei. como vc diz, quis mostrar que era forte. pra quê, me diga? Mas agora também sinto raiva muita raiva. preciso me livrar de tudo isto. Acordar, andar e viver esta nova vida sem olhar pra trás

Anônimo disse...

que a Ana faça uma boa viagem,
volte bem, e nós também! - rs-

um poema sobre o mar
que é materialidade e
símbolo da imaginação:


pongo estos seis versos en mi botella al mar/
con el secreto designio/ de que
algún día/
llegue a una playa casi desierta/
y un niño la encuentre/ y la destape/
y en lugar de versos extraiga piedritas/
y socorros y alertas y caracoles...


besos/
bom plantão ;)
Sandra

Anônimo disse...

esse jeito de vc se expor me comove... são esses textos que me fazem ver vc, não as risadas em casa. é por isso que gosto de vc, mesmo estando longe.

Vivi disse...

Naná é sempre bom saber que você passa por aqui de vez em quando. Acho que os textos saem pq eles não são pretenciosos. Não estão aí pra impressionar ninguém. Só servem mesmo como um tipo remédio.. Me fazem colocar pra fora algo que eu mesma preciso ouvir.
Naná, agora que eu percebi. Seu apelido é igual ao nome do meu bombom preferido... E dá pra comprar aí do ladinho da sua casa... rs
bjs