segunda-feira, fevereiro 27, 2006

E acabou o Carnaval...

Pelo menos pra mim.
O que sobra desse período é só um cansaço que parece não ter fim. O corpo dolorido muito mais pela tensão do que pela curtição. Aliás, curtição é tudo o que não tenho tido nos carnavais dos últimos 10 anos. Na avenida, sou a pessoa errada no lugar certo.
Fica algo de bom? Sempre fica. Mas dá pra contar nos dedos de uma só mão do Lula: o whiskey com energético tomado ao lado do carro junto com os fotógrafos, com muito gelo e gargalhada; o encontro com os coleguinhos que há meses e até anos não via... Que mais???
Difícil saber que mais é bom nesse Carnaval interminável que eu sou obrigada a me envolver...

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Desejos

"Nem seu marido ou o seu despertador vão me tirar de sua cama..."

Hoje foi o último dia de aula... Um ano e meio e é o fim da pós. Agora, só falta o mais difícil, o TCC. Nada de despedidas. A turma se sente unida, mesmo que fiquemos anos sem nos ver. A internet ajuda....

Na aula falamos sobre desejos... Os caminhos que o desejo segue... Nada mais a calhar nesse período em que quase todos aparentemente desejam tudo, mas que de verdade, para boa parte, lá no fundo, desejar mais do que se tem parece até ofensa pessoal, pecado mortal.

Desejar é mesmo ambivalente. Algo que pode ir em direção à vida, mas também em direção à morte. Não, isso não tem a ver com tendência suicida. Tem a ver com como se quer levar a vida. O fato é que o desejo é algo sem controle. É mesmo onipotente e impotente e, como diz a professora, "atravessa" a gente. Gosto de dizer que o desejo faz o corpo da gente doer.

Em outra aula, outro texto, saquei uma coisa que me deixou aterrorizada em princípio. Depois passou, mas perceber que o desejo perturba a felicidade pode fazer qualquer um ficar pensativo. Mas a explicação é tão simples e clara (para quem quer ver) que o susto não dura muito: o desejo é uma força que leva as pessoas a avançar. E nem sempre é fácil enfrentar as conseqüências de andar pra frente. Às vezes é mais cômodo ficar parado onde se está, na vidinha habitual, sem pensar muito no que acontece em sua volta. Se está tudo encaixadinho, se estamos ganhando o jogo, pra que desejar mais, pra que mudar o time, arriscar? E pergunto: por que não desejar mais??

Pra mim há tanta coisa a se avançar: novas amizades e relações, transformar as velhas relações, um novo trabalho, desafios, desvendar códigos.... Mas, sempre, avançar... Mesmo se for pra dizer não para o que parece quase óbvio dizer sim. Fico a me perguntar até onde o meu desejo vai me levar, o que eu sou capaz de fazer, e até onde eu vou suportar a ameaça de ver minha felicidade ruir. É um risco porque a gente pode sonhar com algo que, de verdade, não quer. O bom é pensar que a ameaça do mundo cair na sua cabeça também pode não virar. A vida é tão imponderável.... Por que evitar o que nos atrai? E quando lembro do que já fiz pra correr atrás do desejo percebo que foi tão bom... Nada ruiu. Só construiu.

Mas, na aula de hoje, falávamos que muitas vezes desejamos algo que não existe. Ou desejamos do Outro algo que ele não tem, ou que imaginamos que ele tem, ou queremos que ele tenha. Isso me parece mais perigoso. Mas, será que nunca dá certo? É quebrar a cara na certa ter expectativas em relação aos outros? Será que não dá mesmo pra cantar como o Ira! "Eu quero sempre maaaais"?

Não, não pode ser bem isso. É só que não dá pra buscar no Outro aquilo que a gente não tem, concluimos. Buscar amor, companheirismo, atenção, paixão, compreensão em alguém quando lá dentro se é seco. Bem, pelo menos uma coisa eu sei: seca eu não sou. Tenho tudo isso e mais um pouco.

Ah, alguém deve me perguntar o que a frase no começo tem a ver com tudo isso: nada e tudo, acho? É só para lembrar da tradução livre que o velho e bom Ciro fez de uma música espanhola que ele adora e cujo autor eu já esqueci. Ficou cantarolando no carro enquanto levava ele pra casa. Última carona da pós. Aquelas coisas que você tem que registrar na hora, senão esquece.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Neurônio Manco

Aquela pequena tinha um neurônio manco.

Era incapaz de pronunciar palavra, mas tinha um olhar que atravessava a gente.

Ouvidos sempre atentos, a impressão que nos dava é que não sentia dor.

Mas sentia... e como sentia...

A gente percebia em suas crises quando seu rosto se contorcia, ela se desfigurava, se transformava, mas mesmo assim não reclamava. Ela nunca chorava.

Aquela pequena era uma luz no meu coração.

O dia que chorou foi para dizer adeus. Se foi, sumiu, desapareceu deste mundo e se transformou em uma memória.

Aquela pequena ainda me faz chorar. Mas choro envergonhada quando lembro dela, forte, nem ligando da brincadeira do neurônio manco, explicação simples para um problema incompreensível.

Aquela pequena... que saudades

(Heloisa faria hoje 9 anos)

domingo, fevereiro 19, 2006

Entrelinhas e excessos

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma."

A frase não é minha (é do Fernando Pessoa), mas expressa bem meu estado de espírito nesta semana raivosa, de frases colocadas com precisão mas interpretadas por quem não quer entender nada.

O exercício de escrever tem dessas coisas: a gente não consegue só ler o que está escrito simplesmente, e acaba por tentar enxergar nas entrelinhas o que nem sempre está na intenção do autor. Se a leitura for pro bem, muito que bem. Caso contrário, o mundo pode cair nas suas costas. E é isso que aconteceu esta semana. Duas vezes.

"Vou apagar o que você escreveu e desconsiderar", ouvi como resposta. Ela não entendeu que aquilo era tudo o que ela não conseguiria fazer: desconsiderar. Não viu bem a minha palavra, não entendeu a minha alma. Perdeu a oportunidade de me conhecer melhor e de me ter ao seu lado.

Mas deixa pra lá. Isso já me deixou por demais depressiva e a semana que começa é de Carnaval. E até que não é má idéia terminar uma semana como essa com um almoço de excessos gastronômicos no Vegetariano. O lugar que devia ser o melhor para o regime, mas que na verdade é o ícone da massa, da fritura e do bolo com sorvete.

Tem dias que não são fáceis. Há semanas que são intermináveis. Há períodos em que o melhor é correr para não ser atropelado. Estou em um desses. Me obrigo a escrever porque isso alivia meu coração, já que meu cérebro grita sem parar. Mas, de verdade, queria ficar bem quietinha... encolhida no canto do meu sofá... sem ouvir nem um pio do meu pensamento.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

O bambu chinês

Ontem foi minha primeira aula de ioga. Deliciosa, mas
pra mim tudo só é bom se tem algo meio engraçado. Diz
o professor que tenho que virar um bambu chinês!!! Eu
dou gargalhadas lá dentro!! Mas até que tem algum
sentido: pés firmes no chão como a raiz e corpo
flexível como o caule ao vento... Que imagem!!! Ele
devia acrescentar: e largura de bambu, fininho
fininho... Ia ser uma inspiração e tanto pra voltar
aos meus 54 quilos...

Há muito queria fazer ioga, para desenferrujar,
meditar. É o tipo de exercício que tem bem a ver com
gente na minha fase. Público alvo: mulheres, a maioria
tentanto ser simpática, quase todas com mais de 30,
procurando mexer o corpo com algo alternativo. Só um
homem na turma. Alongamentos, atenção à respiração,
música calma, no fundo o burburinho da chuva e da
criançada no clube. E vamos nos transformar em um
bambu chinês.

Outro exercício bacana: o da língua. Eu que a uso
muito, no trabalho, no lazer, no amor... E também para
envenenar a conversar (he, he). Devemos colar a língua
inteira no céu da boca e depois colocá-la inteira pra
fora. No meio, um AH!!, como um desabafo. Sabia que a
língua é um músculo que está como que ligado ao
coração?? Eu não sabia. Mas faz todo sentido.



domingo, janeiro 29, 2006

Palavra Escrita

Acredito que a palavra escrita tem um valor incalculável.

Eu sempre me senti muito mais à vontade com elas, as palavras escritas. Nunca fui ao confessionário, pois prefiro os papéis em branco, sempre atraindo os meus segredos. Escrevendo, colocando o preto no branco como diz o ditado, o pensamento não foge, a idéia fica mais clara, o esquecimento não é desculpa e o sentimento se perpetua. Quando era mais jovem, adorava escrever cartas. Tive um amigo com o qual me correspondia todo dia. O engraçado é que a gente se via todo dia também. Só ele me conhecia de fato.

Para outro uma vez escrevi uma longa carta, de uma só vez, num papel de rascunho. A inspiração pintou, eu lembro bem, e não consegui conter meus dedos. A carta eu nunca passei a limpo e nem enviei, e me perdi desse amigo durante anos. A carta ficou guardada e recentemente o reencontrei. Resolvi que era a hora de entregar a carta e sua reação foi fantástica. Disse algo mais ou menos assim: “Olha só, naquela época você já sabia das coisas e eu demorei tanto para perceber”. Foi uma prova de que devo ouvir mais a minha intuição, coisa que muitas vezes esqueço.

Emocionada eu sempre fico quando lembro de uma carta, que recebi de um namoradinho. Adolescente, ele tinha se mudado para a Bahia com a família e ficamos amigos de cartão de Natal. Um dia, chegou uma carta sem data comemorativa. Ele contava que estava com problemas, havia sido roubado, não tinha grana, e foi chorar as mágoas com o pai. O conselho paterno foi simples, como uma palavra solta: “Lembre de algo que já te fez muito feliz que isso passa”. O menino, então, pegou a caneta e o papel: “Foi por isso que resolvi escrever pra você”, ele me disse. Foi o melhor elogio que já recebi na vida.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Sol, piscina e o enterro do titio

O dia começou cedo demais naquele domingo. Pouco antes das cinco o telefone já tocou. É lógico que não podia ser coisa boa. Era a Sonia: ‘Vi, o tio Candinho morreu. Passou mal, a Cris chamou o resgate e ele morreu no caminho do hospital’... Tio Candinho... Sabe aquele vovozinho franzino, que fala baixo e manso e que todo mundo gosta? Fazia mais de cinco anos que não o via. A última vez foi num dia de festa, em Londrina, quando ele e tia Dirce fizeram bodas de ouro. E eu estava grávida da Bia. ‘Dorme Vi, que seu dia vai ser longo’. Esse foi o decreto do Mauro.

Oito horas da manhã e o telefone toca de novo. Dessa vez meu pai, querendo saber se eu sabia mais da morte, do velório, do enterro e tudo mais. E eu com sono voltei pra cama. Mas a Bia não me deixou dormir. A cabecinha da menina de 5 anos já tinha planejado todo meu domingo de folga. ‘Vamos pra piscina do ‘cube’, mãe; aquela que tem um escorregador.’ Não dava pra escapar. Que dia seria esse...

Sol escaldante, canga, protetor solar, cerveja, piscina... Ah!!! Piscina!!! Minha família chorando a morte do meu tio e eu brincando de trenzinho na piscina!!! Lá pelas tantas, decidimos enfrentar a hidroginástica a três: eu, Mauro e Bia. A cena era surreal. Uma gorda mostrando exercícios. De repente, o inimaginável no clube da famíla: Atoladinha... Atoladinha.... O que que era aquilo??!! Eu já estava enlouquecendo de tanto rir e aí a qualidade do repertório piorou: É som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado... E dá-lhe ver aquele monte de jovem senhora dançando Tati Quebra-Barraco... No fim, Só love, só love...

Mas o dia não tinha acabado... Eu tinha um velório e um enterro pela frente. E o que era pior: em São Vicente. Deixamos a Bia na sogra, pegamos o Ric e a Landinha e lá fomos nós, Serra abaixo. A emoção é inevitável nessas situações. Você nem chora pelo morto, que, no caso, coitadinho, tinha 80 e se recuperava do segundo atropelamento. Ele era um herói. Mas você chora pelos outros. Pela tiazinha que ficou viúva, pelas irmãs do tio, tão velhinhas quanto ele, que com a morte vêem sua vida inteira passar na memória como um filme... Fiquei lá, tentando amparar tia Landa e tia Lylia. E você chora pelas primas e primos, filhos órfãos, pelos netos que admiravam aquele avô... Essas coisas.

Mas velório que se preze tem também aquele delicioso falatório do reencontro com o povo que há anos você não vê, com a molecada que cresceu e virou moça, com as belas mulheres que continuam belas e outras que envelheceram demais. ‘Vi, prima, você está linda’... Uau, que elogio do primo gato, hoje senhor, que me mimava e pegava no colo quando eu tinha cinco... ‘Vi, você sempre alegre de bem com a vida’.. E dá-lhe abraços, beijos, elogios recíprocos.

E o dia não acabaria ainda. Duas horas de subida de Serra, e um lanche na casa do Ric, com direito a panqueca e tudo. A tristeza do velório e do enterro ficou na Baixada. Na mesa da cozinha, só alegria. Chorando de rir de piadas caseiras e corujices maternas.

domingo, janeiro 22, 2006

Só uma firula


E assim a gente vai e vem e rola e beija e aperta, e acerta a mão, sem pijama, e se embola e embola e vai indo sem parar... Sem parar... Aí! que pena que temos que parar...

Vamos começar

A vontade de escrever toma conta de mim. Escrevo todos os dias coisas do dia-a-dia, mas isso só não me basta mais. Quero falar da vida minha, da vida dos outros, da vida da vida. Com quase 40, hoje me sinto com 20 e acho que esse gás deve ser solto pela ponta dos meus dedos, alimentado pela minha cabeça que não pára e pelas minhas paixões cada vez mais intensas. Que seja!