quinta-feira, outubro 18, 2007

Anjos que voam

"E os anjos voam porque não se preocupam com nada", você leu em um pedaço de papel.
Está admirada? Digo que é por isso que a gente pode se abraçar e se beijar - voar de felicidade - sem se preocupar com o que a multidão pensará de nós...
Somos anjos, darling.
Estamos anjos.
Você que diz o que pensa pra depois se arrepender
...eu que deixo o sentir me tomar sem me censurar
.......ela que permite ao estranho lhe sacudir sem fugir

Nós somos anjos.
Vislumbramos nosso espaço e poucos nos entendem.
Mas quem nos acompanha não se arrepende.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Espanto

Mais de 15 anos neste ramo e eu ainda me espanto com o valor que uma nota tem para as pessoas, simples ou não.
O manobrista veio hoje me agradecer: "A senhora não sabe como eu fiquei contente. E a minha mãe, então. Ficou muito satisfeita! Ficou melhor do que eu esperava!"
Ele ganhou o dia dele, quiçá a semana...
Pra mim, são 10 centímetros apenas, ou nem isso. Uma nota falando que um cara lá na Zona Norte resolveu distribuir milhares de doces pra criançada em homenagem a Cosme e Damião. Pra mim, o que esse cara faz é muito mais importante do que o texto impresso num papel que ao meio-dia já estará embrulhando peixe.
Mas pra'quela comunidade, aquela rua, aquela vizinhança, a nota quase no pé da página é a glorificação e o reconhecimento de um trabalho que já vem há alguns anos. "Até saiu no jornal!", alguém lá deve ter dito, com orgulho.
Mal sabem eles que só entrou porque não tinha nada melhor, que era a primeira na lista das que poderiam "cair" e que, pra nós lá, publicar ou não, não teve a menor importância. Ninguém se sentiu melhor ou pior por isso.
Pra gente, ele é um cara em 100 mil, que teve só a sorte de ter um vizinho que é manobrista da garagem onde os funcionários do jornal guardam seus carros. O rapaz é boa praça, perguntou se era possível noticiar, me deu o telefone do dono do feito num papel amassado e eu, por uma lembrança repentina durante uma crise de desespero por causa da falta de notícias, pedi pro estagiário ver o que era.
Isso é o que chamamos de dia-a-dia. E, mesmo sabendo de tudo isso, ainda me espanto.
Talvez não devesse, mas ainda bem que me espanto. Me sinto mais viva e feliz com o espanto.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Na claridade

E as luzes, enfim, foram acesas.

Falta, agora, as janelas serem abertas

E o vento bater, fresco, em nossos rostos.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Por cinco minutos

A moça nem respira ao volante. O trânsito quase parado ajuda na sua observação assustada, em princípio muito indignada. Depois até emocionada. E, no final, resignada.
O olhar fixo está naquele grupo de pessoas que acorda na manhã cinzenta da cidade. O chuvisco de São Paulo gela o ambiente.
Um a um, vão saindo de barracas feitas de lona meninas e meninos de pele dourada, meio manchada, despenteados, de roupas largas, amassadas e rasgadas, rostinhos sujos.
Mulheres esguias e grosseiras, que um dia foram bonitas, também estão por lá com suas saias rodadas. Uma delas que está um pouco mais longe fica de cócoras e usa uma caneca de alumínio brilhando, cheia de água fria, para lavar um bebê de pouco mais de um ano. É um pequeno andante, que ela solta em seguida para vê-lo cambalear até cair desajeitado no meio da grama batida.
Os homens morenos usam botas, calça jeans envelhecida, camisa meio aberta mostrando parte do peito e na cintura um facão. Estão reunidos numa rodinha, conversando baixo, mascando fumo, ameaçadores.
Uma fogueira aquece o café perto da barraca maior. Uma senhora velha, de cabelos cinza, toma conta do fogo. A fumaça desenha mais fantasias no ar, deixa todo o ambiente mais misterioso.
O menino maior se aproxima da calçada, da avenida, e olha os carros passando devagar, praticamente parados no congestionamento. Entre os carros de vidros fechados está o de Alba. "É impossível imaginar o que ele pensa", fala sozinha a moça ao volante. O menino se volta de repente e joga longe um pedaço de madeira que tem na mão, numa brincadeira. Mas Alba se assusta. "Ele quer nos atacar!", grita, sem que ninguém a ouça.
É que a imagem destoa do resto da cidade, Alba pensa.
"Essas crianças precisam de cuidado!", ela imagina com lágrimas no olhos. Teve ímpetos de parar o carro para enfrentar toda aquela gente estranha só para tirar os pequenos do meio da bagunça. Mas, de repente, Alba percebe outra coisa.
"Parecem crianças felizes...", se assusta, após olhar de novo para a cena com outros olhos e enxegar todos juntos, compartilhando o café, sorrindo e brincando ao lado dos parentes mais velhos.
Uma curva e o pescoço dela se esforça para não perder outros detalhes do grupo. Até que não é possível ver mais nada. Os prédios já escondem os ciganos. E a cena toda não durou mais do que cinco minutos.
E só então Alba volta para o trânsito e para si.
Olha o espelho retrovisor, o ajeita para ver o reflexo do seu rosto, retoca o batom, ajeita a franja lisa e loira, respira fundo, acelera e esquece completamente de tudo o que sentiu.

quarta-feira, setembro 12, 2007

A chave e o estranho

Você se foi
e deixou a chave da casa
com um estranho
para que ele entrasse e nos visse nuas

Pouco importa quem ele seja!
Pouco importa que você o conheça!

Esse homem-criatura
entrou aqui com seus olhos transparentes
pele lívida e sorriso cínico!

E eu vou arrancar dele a chave e, assim,
nem ele e nem você poderão entrar aqui de novo.

Nunca mais.

quinta-feira, setembro 06, 2007

De alto a baixo

E então os dois estavam no meio de um ataque e se encolhiam pra se proteger. Alguém ou um grupo (ela não sabe dizer) os perseguia e mais - o ameaçava de morte. Até que os alcançaram. Com uma faca, abriram seu peito para arrancar seu coração. E, em parte, conseguiram: o órgão ficou pra fora do corpo, mas intacto e ligado a ele por veias e artérias. Nela não encostaram a mão.
E, desesperada, ela pensou: você não vai morrer. Com cuidado, pegou aquele imenso órgão ensanguentado e o colocou de volta no peito aberto. E ele a olhou com gratidão e alívio. Do lado de fora, ficou apenas o corte, ainda aberto, é certo, mas o pior já tinha passado. Os dois se levantaram e seguiram em busca de socorro. Faltava ainda a sutura. Iria ficar uma imensa cicatriz cruzando o peito dele de alto a baixo. Mas isto não tinha a menor importância.

domingo, setembro 02, 2007

Quatro

Desejo
Amor
Admiração
Orgulho...

terça-feira, agosto 28, 2007

Horóscopo do dia

Porrada

Para que a preocupação, se tudo segue em seu curso? O problema que sua alma
enxerga nesse curso é não tê-lo decidido por si mesma. Porém, pense bem: como
você poderia decidir o curso das coisa ainda permanecendo na indecisão?

terça-feira, agosto 14, 2007

Sem errar a mão

Ela desliza sobre rodinhas e vem pra mim.
Primeiro, era um arrepio na espinha a cada falta de equilíbrio, mas agora é difícil esconder o orgulho da performance perfeita. Volteios e freadas precisas...
Ela ainda chora porque não consegue alcançar o armário mais alto, e reclama porque não sabe escrever direito. Mas descobre a cada dia que as calças estão mais curtas e festeja porque a 'prô' avisou que vai ter aulas de letra de mão!
Ela me abusa, me 'explora', preenche todos os meus espaços, marca meus compromissos, faz a minha agenda, define o meu roteiro diário. Muitas vezes eu, impaciente, transbordo, me revolto, grito e esperneio, tentando encontrar no meio de tudo um espaço só meu.
Mas ela é o meu espaço, meu empurrão, meu esteio, meu sorriso, meu choro, meus momentos de reflexão. E, como ela depende do que sou, me seguro pra não cair na vida, não mudar de vez o rumo e não errar pra sempre a mão.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Frio interminável

Primeiro, foi o frio absurdo do Sul por opção.
Minuanos no rosto, a pele doendo, vermelha, trincada, prestes a sangrar.
Mas, por recompensa, as cores de gorros, luvas, cachecóis e sobretudos, as emoções de trenós e cavalos no meio de matas e a noite regada a vinho seco e bom e fondue, a cama aquecida de carinho e edredon. O calor do merecido e caro descanso.

Pouco tempo e vem o frio da terra, cinza, úmido e fedido. Mas, enfim, é este o chão que lhe pertence.
A chuva fina que deprime, o desânimo do não ter e nem saber o que fazer e a coragem de ficar apenas sob o velho cobertor xadrez, vendo filmes infantis durante a tarde, curtindo um ócio merecido e uma espera interminável. Vinho só o doce e barato. Sopa, só congelada. Calor? Só o de dentro, formado por fantasias inconfensáveis.

E agora, é este frio interminável de manhãs escuras que nunca clareiam naquela sala, as mãos e os pés como gelo que não derrete, no peito o ar rasga e dói: ele falta e te desrespeita.
A fricção é inútil e mesmo as blusas se amontoam em seu corpo sem nenhum resultado.
À noite, a água do chuveiro deve ferver, o aquecedor deve estar no seu limite máximo e o pijama deve se parecer com roupa de palhaço. É o único aconchego, o melhor. O calor vem da raiva, mas há consolo no abraço.

E, em tudo, também há a lágrima que, se cair, virá fria, ácida ou amarga, como o seu tempo.

domingo, agosto 12, 2007

Exame médico

Como dói o silêncio!

Sem palavras eu não existo, ou sou invisível.

Sabe quando você vai ao médico, ele te olha, te mede, escuta o teu coração, faz anotações numa ficha, assina uma guia, uma receita e demora pra te olhar e dirigir a palavra? E quando abre a boca é pra ser tão frio e técnico que só te paralisa?

É esse silêncio "ético" e "profissional" que eu odeio.
E outros tantos também:
o silêncio para não se comprometer,
o silêncio pra não apoiar,
o silêncio pra te deixar na dúvida,
o silêncio pra te derrubar,
o silêncio apenas pra concordar e não ter trabalho de discutir.... há uma lista deles.

Prefiro quando me xingam.
Grite comigo! Diga que estou errada! Se defenda!
Mas não me deixe sem ouvir sua voz, ler sua palavra.

E não permita que eu fique em silêncio!
O meu silêncio nunca é opção.
É medo, é dúvida, é dor.

Ele voltou

Não sei explicar, mas deve ter um motivo bem técnico pra este blog sumir da minha tela durante alguns dias. Deve também ter um motivo bem irracional pra eu não me importar muito com isto, ou seja, não arrancar os cabelos e querer quebrar o computador.

Às vezes, a gente cala por dentro, e ando meio assim nos últimos tempos. Não ter onde escrever (pelo menos não ter o lugar onde gosto de escrever) veio até bem a calhar...

O fato é que hoje ele voltou num susto sem eu fazer muito esforço, ou melhor, nenhum esforço. A vida é assim mesmo... As situações se colocam sem a gente entender direito e muitas vezes se resolvem sozinhas, quando a gente menos espera.

segunda-feira, junho 18, 2007

Tardes de Outono

Um toque e eu enlouqueço
Um sinal e eu não me controlo
Uma palavra que se transforma em lágrima
Um olhar que me enfurece
Outro que me derrete

É assim que a vida tem me tocado
E é isso que talvez você não aproveite...
Não percebe que isso é bom em mim!

Adoro as tardes de Outono...
Tardes como as de ontem que me fazem lembrar...
Caminhadas pelas ruas da cidade
"Cabelo ao vento, gente jovem reunida..."

Tenho saudades das sensações
E fico feliz por senti-las de novo
Desta vez sozinha, no carro,
O vento bate no rosto, o sol vermelho me acalma
Respiro fundo, fecho os olhos...
E chego feliz ao anoitecer!

quinta-feira, maio 24, 2007

Nosso novo movimento

Esta noite
vou tomar a sopa com o seu tempero,
falar sobre os seus sonhos
brilhantes e verdes e,
no final,
antes de dormir,
vou tentar ardentemente traduzir
as idéias e promessas que
surgiram nos cantos
de nossas imaginações em contos singelos,
sempre pretensiosamente sinceros...
e eternos!

quinta-feira, maio 17, 2007

Vamos celebrar as canções

Canções podem sim me levantar ou acabar de me enterrar.
Ainda bem!

Must Be Talkin' To An Angel, by Eurythmics, me dá cócegas nos pés e uma vontade louca de dançar.
Me vejo dançando na sala, janelas abertar pro sol entrar, a Bia rodando no meu colo, na rua as pessoas passando e olhando, o som no último, mas estou só no meu próprio carro, de cara pra luminosidade do céu azul... E é o que basta!

"La da di da-da da-da da
Da-da da-da
La da di da-da da-da da
Da-da da-da, yeah"

Parece bobagem isso, mas não é! Depois de dias de trabalho intenso, o cansaço, as dores e o mal estar me deixam tão frágil, tão triste, que perco a noção do que sou eu ou do que sinto falta. Ou de quem sinto falta. Aí, um convite à celebração é um bom sinal:

"No one on earth could feel like this
I'm thrown and overblown with bliss
There must be an angel
Playin' with my heart, yeah
I walk in to an empty room
And suddenly my heart goes BOOM
It's an orchestra of angels
And they're playin' with my heart, yeah"

domingo, maio 13, 2007

Registro - Mapa Astral

Olha só o meu mapa astral de mãe... Interessante...

"De acordo com o cálculo do Mapa Natal, no exato momento do nascimento
de Viviane, a lua encontrava-se no signo de Áries. A posição da lua no Mapa
Natal fala sobre a nossa vida emocional e a forma como vivemos e expressamos
os nossos sentimentos. O signo lunar revela ainda características sobre a
maternidade, apontando como a mulher lida com este lado importante e
marcante de sua vida. A mãe com o signo lunar em Áries é toda sinceridade.
Apressada, às vezes impaciente, mas quase uma criança na manifestação
espontânea de seu amor. O melhor lado que ela tem a oferecer ao mundo é a
fé: a crença de que as coisas podem e devem ser melhores do que são. A mãe
com a lua em Áries também é, demasiadamente, voltada para o imediato, para o
'curto prazo'. Sua vida é uma sucessão de momentos vivos e intensos como os
de alguém que deseja sorver a vida até sua última gota. Para ela, tudo é à
flor da pele. É uma criatura aventureira, mas sabe se dedicar muito bem à
tarefa de ser mãe."

Ele não tem mãe

A Bia estava inconformada desde o início da semana.
- Mãe, por que você tem de trabalhar no Dia das Mães?

E eu já não aguentava mais responder:
- Porque o papa está aqui, filha. E eu tenho de trabalhar. Todo mundo lá no jornal tem de trabalhar.

Juro, ela já tinha feito a pergunta umas duzentas vezes. Aí, hoje de manhã, eu não aguentei mais:
- Bia, pára de me perguntar isso. Eu já te respondi. O papa está aí. Não quero mais ouvir esta pergunta!

A garotinha calou alguns segundos. E, então, disparou:
- Tá bom, mãe, vou perguntar outra coisa, então:
Por que o papa tinha que vir para cá justo no Dia das Mães???

- (rs, rs, rs)... é porque ele não tem mãe, Bia. Ele com certeza não tem mãe.

O reverso

com atraso de uma semana

E eu tive de encará-la de novo!
E eu te achei tão linda, tão linda....
Te invejei por inteiro
Teu porte, tua segurança, tua voz
E me entreguei em tuas mãos
sem te conhecer...
mal sabendo teu nome.
Fui obrigada a confiar...
Esquecer o meu medo
e, no final, te admirar
E agradecer

quarta-feira, maio 02, 2007

Sob os holofotes

Por que vergonha de mostrar a minha fragilidade?
E daí se essas pessoas me vêem chorar e percebem que não sou tão forte?

"Isso é uma bobagem, não tem nada demais, mas a gente respeita você!", ela diz...

Respeito... pouca gente sabe o que essa palavra significa...

Vergonha...
Vergonha por cada lágrima minha que você vê!
Inda bem que não verei mais nenhum de vocês!...
(Mas vocês talvez me vejam, e me reconheçam!)

E você, senhor charmoso, de barbas e cabelos longos, você eu com certeza verei e lembrarei que falou comigo como se eu fosse uma criança.
E talvez fosse isso mesmo o que eu aparentava... uma criança assustada, nua, com uma touca ridícula na cabeça, meias nos pés e holofotes na cara.

"Qual é o seu nome? Você sabe?"
"E a sua profissão?"
"Sabe onde mora?"
"Quem está com você?

Eu estou só! A minha companhia é só um empréstimo!
Porque no fundo, estou sempre só!
E acabou!

quinta-feira, abril 26, 2007

Pretinho básico

Me aprumo pra ir trabalhar. Saco do guarda-roupas um vestidinho tubinho preto, com uma estampa de galhinhos de flores miúdas, brancas, bem básico e discreto, herança de um tia querida.

Sentada no sofá, vendo desenho animado, a Bia olha, avalia e dispara:

- Mãe, você parece uma velha com esse vestido... Não combina.

A garotinha de 6 anos me pegou no fígado! Há meses eu já estava com a sensação de que aquele vestido de crepe tinha mais cara de senhora-senhora do que de jovem-senhora-que-não-gosta-de-se-vestir-na-modinha-mas-que-também-odeia-cafonices. Mas mantinha por teimosia o vestido pendurado no armário. E, nesta fase dos 40, qualquer menção à velhice me deixa louca de raiva.

E explodo:

- Pô, Bia, eu já desconfiava que esse vestido me envelhecia, faz tempo que não uso, mas você tinha que falar assim na lata??!! Me arrasou!!

A garotinha se desculpa:

- Não, não, mãe! Tá bom, tá bonito, vai com ele!

- Não vou. Quer saber? Vou tirar ele agora e dar pra alguém. Ó, vou tirar e dar pra Val (é a babá) levar pra mãe dela! Vai servir direitinho na dona Maria!

E a menina sussurra baixinho:

- Na minha avó também ia ficar bom...

Explodi de novo, mas desta vez de tanto dar risada...