sábado, abril 12, 2008

A estranha na foto

Tirei a tarde hoje para organizar as minhas fotos. Tenho centenas delas ainda fora de álbuns, tudo bagunçado, sem saber de qual data são. Assim como quase 90% da humanidade, eu imagino. Consegui organizar um pouco, mas ainda continuo atrasada em dois anos. Preciso comprar mais álbuns e espero ter isso pronto até a mudança.

Mas o barato de organizar as fotos é mesmo revê-las. Como ainda sou antiguinha, não tenho a tal da máquina digital, nada do que registro é apagado. Hoje, encontrei fotos que simplesmente já tinha esquecido. Velhos amigos e amigos velhos. Situações felizes, outras estranhas e até constrangedoras.

Mas fiquei assustada mesmo ao encontrar uma minha, de uns cinco ou seis anos atrás. Não porque me achei diferente ou mais nova. Mas fiquei assustada simplesmente porque não me reconheci nela. É como se aquela não fosse eu. Nada nela se parecia comigo.

Voltando ainda mais no tempo, o coerente seria continuar a não me reconhecer nas imagens. Mas não. Nas fotos de 15, 20 anos atrás, lá estou de novo, brilhando. E de novo estou lá, nas mais recentes. E resplandescente, eu diria. Só naquela, ou naquelas, de um determinado período que não me achei.

Isso parece loucura, talvez. "É fruto do seu amadurecimento", devem dizer os terapeutas de plantão, que colocam tudo na conta do tempo. Mas não sei se é isso. Como diz uma amiga minha, tem gente que só consegue amadurecer em um aspecto da vida, o profissional por exemplo, mas continua um adolescente bobo em outro, como no emocional. Quem não conhece alguém assim?E ainda não sei se é esse o meu caso. Tento porque tento que não, mas vai saber, né? É muito difícil reconhecer a própria imaturidade.

Mas o fato é que eu fiquei pensando durante o resto da tarde e também à noite sobre o porquê desse estranhamento. E, pensando nela, naquela que não reconheci, acho que, sem muita consciência, ela tentava ir contra a sua própria natureza. Ou contra os seus próprios sentimentos e vontades e instintos e intuições. É só isso que eu posso imaginar.

De toda forma, ela já passou e fico feliz que tenha participado da minha vida e passado. E sei que não há mais risco dela voltar, porque agora tenho consciência dela. Naquela época, nem a percebia. E também sei que dela, apesar do estranhamento, sinto um orgulho danado. Como também de todo o resto.

PS: a Bia acabou de me dar um coração. No fundo, não é isso que vale? Ganhar, sem pedir e nem imaginar, um coração do jeito que for pra tomar conta?

Ganhei o meu dia.

Mais um dia.

:-)

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sexta-feira, abril 11, 2008

Só um segundo

E, enfim, depois de quase 15 dias de trabalho pesado, hoje eu consegui parar...

Páro, respiro fundo, sinto o ar encher o meu peito e ele se abre... Há dor.

Há tempos eu não me sentia tão frágil. Tem sido um começo de ano diferente. Intenso.

E não é apenas um motivo.

São emoções à flor da pele, decisões inadiáveis, trabalhos intermináveis, histórias desgastantes, provas de paciência, de competência, de amor...

É como se a cada dia eu tivesse que aprender na marra algo que deixei pra lá em algum momento, teimei em não ver antes, descobri tardiamente, não quis aceitar...

Sinto uma dor real no peito e o ar, às vezes, parece que não vai conseguir entrar. Tenho que me apoiar pra conseguir respirar. Hoje ele entrou com facilidade. O ar.

Alguém poderia me dizer que eu preciso ir ao médico. Mas não é nada disso.

Nunca fui uma pessoa infeliz, depressiva, pesada. Mas sei que tenho estado triste ultimamente. Peço aos meus que me perdoem. E que tenham paciência. Isso não é infelicidade. E nem sinal de desistência, desespero, desesperança. É só um sinal desse período, que no futuro terá sido só um momento, nada mais do que um segundo.
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sábado, abril 05, 2008

Na beira do rio

A semana começou sinistra, ontem o dia foi negro, hoje amanheceu nebuloso.
Mas, veja só: na Avenida dos Estados, na beira daquele bosteiro em que se transformou o Rio Tamanduateí, há uma árvore tão florida, que dá gosto - toda rosa....
Não, isso não vai mudar o meu humor! Não hoje.
Mas, pelo menos, vai me fazer respirar fundo e desenhar um sorriso cínico no rosto ao lembrar que a natureza, por si só, acaba por fazer a vida se renovar.
E, com sorte, melhorar.

quinta-feira, abril 03, 2008

Chuva na Manhã

Manhãs de chuva, como as de hoje, sempre me incomodam. Parece que o dia já começa nos dizendo "não tenha esperança". E a gente é meio obrigado a tirar lá de dentro uma força enorme pra sair da cama e tocar a vida. Porque, no fundo, sabe que isso é só uma sensação passageira.

Espero que amanhã o tempo melhore. E meu desejo é puro oportunismo. Amanhã é sexta-feira e, excepcionalmente, vou entrar no trabalho às 7h. Se acordar com chuva é difícil, madrugar e enfrentar o trânsito dessa cidade ainda é pior.

E, à noite, se tudo der certo, o bar me espera para afugentar de vez qualquer tipo de sensação de tristeza.

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quarta-feira, abril 02, 2008

Angústia

É assustadora essa história da menina de 5 anos jogada pela janela de um prédio na Zona Norte da cidade.
Mesmo que acostumada a tratar com tragédias diárias de todo tipo, não dá pra ficar indiferente quando paro e penso no momento da menina, no que ela passou naqueles poucos minutos que antecederam à sua morte, o seu lançamento pelo ar.
E quem teria coragem de segurar uma garotinha frágil no colo, enfiá-la em um buraco no meio de uma tela de nylon cortada e a jogá-la? Que tipo de ser humano é esse?
Nestes últimos dias só temos falado disso no jornal, buscando fotos da garota, depoimentos de amigos e parentes, tentando, por nós, descobrir o culpado. Será mesmo um bandido que entrou no prédio? O pai seria capaz? A madrasta, afinal, sempre é a madrasta, com a carga de maldade que o nome e os contos de fada lhe conferem... Poderia ser ela?
De madrugada, voltando pra casa, não dá pra não pensar nesse caso, fazer associações (afinal também tenho uma menininha), criar teses que podem ser base de um roteiro sinistro para um filme menos B. Espero que minhas teses sejam todas erradas.
Fica na barriga um frio de angústia, no peito a sensação de brevidade da vida e na cabeça a certeza de que há pessoas que têm um buraco no lugar do coração.

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domingo, março 30, 2008

Canção de Ninar

Sei que, na minha velhice, quando pensar em coisas que vão me fazer desenhar um sorrisso no rosto com certeza enrugado, vou me lembrar da Bia me pedindo pra cantar "aquela música".
Ela pede quase todo fim de semana que eu não estou de plantão e a ajudo a tomar banho.
A brincadeira é embrulhá-la na toalha e aconchegá-la no colo como eu fazia quando ela era nenê.

Nunca cantei as músicas clássicas de ninar. As achava assustadoras: "boi da cara preta" a "cuca vem pegar", definitivamente, não combinam com meu estilo.
Aí, nem sei bem de onde veio a idéia, mas comecei a cantar Como Uma Onda, de Lulu Santos.
E, acreditem, não tenho nenhum disco ou CD do Lulu Santos, mas esta música me pareceu perfeita pra ninar um bebê. A balançava como o movimento do mar, da onda...

A Bia está cada vez maior. Não consigo mais nem ficar de pé com ela no colo. Mas, mesmo aos 7, ela curte a brincadeira. Fecha os olhos e canta a música de cor. Só hoje eu achei a canção pra ela escutar o original.

Bem, procurando o vídeo da música, achei vários. Acima, uma construída não sei por quem, mas com desenhos infantis. Tem mais a ver com a Bia e este post. Mas encontrei a versão com Caetano (tem até legenda em inglês) e a mesma com o Tim Maia... Fantástico!!!

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Nada de Caixa-Forte

Tive hoje de novo um sonho estranho. Mas é compreensível.
O prédio onde eu morava, na Antonio Bastos, havia sido todo reformado. Reconstruído, eu diria. Virou um prédio cinza, um tipo de caixa-forte de vidros fumê blindados, cercado de seguranças por todos os lados.
Eu não morava lá, mas trabalhava. E, pra variar, estava atrasada, me perdendo pelos caminhos até chegar ao lugar para apresentar um projeto.
Quando cheguei, porém, a caixa-forte tinha sido invadida por ladrões. A porta da frente estava trincada, mas mantinha a sua função: estava lá, ninguém havia passado por ela. Mas o elevador havia sido destruído, algo tinha sido levado.

Ninguém entendia como tinham invadido o prédio, já que a porta da frente estava inteira.

No meio do sonho rolou mais um monte de coisa que não lembro direito.
Mas a sensação que ficou não foi nada boa.
Acordei um tanto triste.

Mas, tudo bem. A vida é isso aí.

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quarta-feira, março 26, 2008

Chão de Giz

Sou meio supersticiosa.

Ouvi sem querer duas vezes esta música esta semana. Assim, no rádio, o que é bem incomum...

Daí, vim procurá-la pra colocar aqui.

Deu saudades de uma menina que conheceu essa canção quando mal tinha feito 13.
Uma menina que mesmo sem entender nada do que dizia a letra, se emocionava com a canção.

E deu saudades de uma moça que tentava cantar a música no meio da noite, sentada numa escada ao som do dedilhar de um violão meio rouco. A moça sonhava em ser cantora enquanto enchia a cara de vinho barato.

Vou anexar as duas versões que gosto.

Zé Ramalho e Elba

Só o Zé Ramalho

Escolha a sua.

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Ter amigos dá trabalho

Então, Bia, hoje você brigou com o Augusto. Vocês estavam brincando de um tipo de polícia e ladrão, ele era a polícia e pegou você. Até aí, tudo bem, mas o duro foi quando ele te levou pra cadeia, não é? E te colocou lá com tanta força que você se desequilibrou, caiu e bateu a cabeça. Ah!, Bia, não chore! Eu sei que está doendo. Mas, pense bem, o Augusto não fez por mal. Ele não planejou te machucar. O Augusto, apesar de ser mais novo que você, é bem maior e forte. Tenho certeza que, quando ele te colocou na cadeia estava só brincando. Achou que você também se divertia. O Augusto é um menino bom que não tem a noção da força que possui. E errou a mão. Você caiu e doeu. Mais que a batida na cabeça, eu sei que o que doeu foi o empurrão, não é? Acho que você devia procurá-lo amanhã e explicar que ele deve tomar mais cuidado quando for brincar com você. Expor a tua delicadeza. Faz parte da sua natureza. Se explicar, ele vai entender, porque pode ser grande, mas é sensível. Não, Bia, não faça assim! Não fique com vergonha de dizer para um amigo que ele está errado e te magoou. Porque, se ele não sabe o que fez de errado, nunca saberá o que te afastou dele. Sei..., ele não pediu desculpas na hora, você me diz... Ora, com certeza ele nem sabe como fazer isso. Mas você, você sabe o quanto ele é importante e, tenho certeza que, se explicar tudo pra ele direitinho, vai ficar tudo bem. Te peço, não seja tão orgulhosa, assim, tão nova. O que é ser orgulhosa?? Bem, isso que me diz é um exemplo do que é o orgulho: não querer conversar com o Augusto alegando vergonha. Porque ele não se desculpou, você achar que não pode ter a iniciativa. O orgulho, em algumas situações, pode até nos fortalecer, mas ele não é bom companheiro pra quem quer ter bons amigos. Sabe por quê? Porque, pela vida, a gente tromba com muitos Augustos. Amigos que nos magoam e nem sabem. Amigos que não entendem a sua força e nos estraçalham. Não, nós, adultos, não ficamos levando empurrões de amigos grandalhões o tempo todo. Não é isso. O que ocorre é há amigos que dizem e fazem coisas que nos atingem com tanta força que é como se um trator passasse por cima da gente. E se a gente não tem a capacidade de entender e perdoar, lá se vai o amigo. E a gente também tem que cuidar pra não se transformar em um Augusto. Você entendeu? Não, não entendeu nada, né? Eu vou exemplicar. É obrigação da gente falar quando um amigo pisa na bola. E a gente tem que tomar cuidado pra não pisar na bola com o amigo, não ser igual ao Augusto. E, se pisou, tem que resolver o mais rápido possível. Porque quando a gente não fala na hora, deixa o tempo passar, o que pode acontecer é aquela mágoa virar um calo e um incômodo eternos. Por isso, Bia, amanhã, quando você chegar na escola, converse com o Augusto. Se precisar, dê até uma dura nele. Ele é um menino esperto. Tenho certeza que ele vai sacar e vai te pedir desculpas. E, o que é melhor, vai tomar mais cuidado da próxima vez que quiser te prender.
Então, agora, boa noite. Vai pra cama que eu vou te cobrir.
Um beijo.
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E, no dia seguinte

Sabe, mãe, foi fácil falar com o Augusto. Eu cheguei pra ele e perguntei: Augusto, sabe ontem? Você não esqueceu alguma coisa? E ele respondeu: Ah, Bia, desculpa!

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terça-feira, março 18, 2008

Um epitáfio para dois funerais

É muito difícil enfrentar a dor da morte. A morte é sempre mudança, é transformação. E sempre dói. Quando chegamos perto dela, nunca voltamos a ser o que éramos antes. E isso não tem a ver com amargura ou tristeza. Tem a ver com a forma de ver o mundo. E com a forma de sentir os outros. E de se entregar para os outros, de se abrir ao novo a partir do desaparecimento de algo que fazia parte de você.

Eu quis enganar a dor da morte. Quis ser mais dura do que ela, superá-la, mostrar a ela o quanto eu podia ser forte. A desculpa era proteger. Como se com minha proteção aquela perda não atingisse mais ninguém. Não me dei o direito de chorar, não me dei o direito de gritar. Fiquei lá, recatada, correta, admirada. Curtindo a dor nas madrugadas, mas amanhecendo com um sorriso no lábios. A imagem que me vem hoje é de algo despedaçado por um tsunami, mas em pé. É admirável mesmo.

Por que fiz aquilo? Era o melhor, eu achava. Mas não era e teve um preço.

Agora, a dor da morte que enfrento vem e puxa a outra, aquela que tentava ficar lá, escondida no fundo do meu coração. Dores iguais por motivos diferentes.

Preciso fazer dois funerais. Mas só consigo escrever um epitáfio.

"Nunca vou esquecer os teus olhos
Grandes
Negros e
brilhantes

Cílios longos, longos cílios
me fixando, sem
piscar
Me dizendo amor
me dizendo calma
me trazendo paz no meio do
turbilhão

Nunca vou esquecer teu hálito acre
Tua pele macia
Teu corpo contorcido de dor

Queria fazer minha a tua dor

Seu brilho,
seu
brilho
Às vezes morro de saudades
Hoje sei que está aqui porque te
chamo
Porque te que quero perto

Você foi luz na minha vida
Na minha casa
No meu caminho

Nasceu de mim
Me atravessou e
partiu

Teu rastro, tua paciência, linha de emoção
que eu persigo
Hoje sei que tenho que te deixar partir"

................

Talvez com isto meu coração fique mais leve e eu consiga parar de chorar.




segunda-feira, março 17, 2008

Don't Worry, Be Happy, Angel

Ao ouvir esta música, sempre, me dá vontade de sair assobiando por aí.

don't worry, be happy!

Mas com esta, do Eurythmics, em me sinto a própria singer.

É como se ela fosse um hino feito pra eu me sentir feliz.

There must be an angel playing with my heart







domingo, março 09, 2008

Segunda via

Não entendo porque, nesta terra, a vítima tem sempre que ser a culpada.

Se a mulher é violentada, o comentário é:
"Mas olha a roupa que ela estava? Vestida deste jeito só podia querer isso mesmo!"
Se a garota ou o cara se apaixonam e o caso não dá certo, a verdade mais que certa é:
"Eu te disse que ia quebrar a cara! Não soube escolher! Todo mundo sabia que x não prestava. Era só olhar!"
Se estouram o vidro do seu carro no farol e levam sua bolsa, a bronca é assim:
"Sua bolsa estava no banco, não é? Não sabe que não pode?"

Foi uma chamada assim que eu levei hoje. Foi uma pena, porque o dia estava perfeito.

Passei o dia no zoológico com as meninas. Bia, Mari e Helô, três belezinhas correndo pelas alamedas buscando leões, lobos, macacos, pássaros e tudo o que elas tinham direito. Piquenique debaixo das árvores, lanche caseiro. A Val junto dando uma força. Cinco meninas-mulheres curtindo a liberdade-feminina impossível quando o mau-humor e falta de paciência masculinos estão por perto.

( Cada vez mais me convenço que as mulheres não mais livres sem culpa. E isso vem desde a infância, me parece. )

É difícil manter o sinal de alerta o tempo todo. E nessas, eu, que vivo tensa com medos de roubos e assaltos, relaxei. Deve ter sido entre o macaco-prego e o chimpanzé, depois do sorvete de maracujá com calda de abacaxi. Mas só percebi na lojinha de tranqueiras, na hora de pagar pela girafa de pelúcia. Cadê a minha carteira? Já era! Que raiva! Só não acabou com o meu dia porque, de fato, ainda haveria muito mais neste dia.

No posto policial, o sermão:
"Mas, onde estava a sua carteira?"
"Na bolsinha do lado de fora da mochila", eu respondi, já sabendo o que viria em seguida.
"E de que jeito a senhora estava levando a mochila", ele me olhou, com um ar de reprovação.
"Nas costas, eu sei, não podia, mas me distrai."
"Mas, minha senhora, no zoológico, inda mais num dia como hoje, tinha que tomar mais cuidado."

É, eu sei, eu sei. Em dias como os de hoje, a gente vive tendo que tomar cuidado com tudo, para não ser roubado, para não ofender, para não se machucar e não se decepcionar com quem a gente confia e acredita. Mas, acontece, que é bom relaxar e esquecer um pouco que estamos nos dias de hoje.

Dá pra tentar viver um pouco sem medo?? Ser feliz é tão errado assim?

Bem, é certo que no zôo ninguém me ajudou. Se quisesse, ia fazer um BO num DP lotado da região. Ou pela internet, que é o que eu acabei de fazer.

Amanhã, vou atrás da segunda via do documento.

Pena que nesta vida não exista segunda via de coração.

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sexta-feira, março 07, 2008

Precipício

.....

O caminho

do aspirante

é solitário

.....

terça-feira, março 04, 2008

Primeiro dos 10 chamamentos

De Hilda Hilst

"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento"

Como eu invejo os
grandes poetas....

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Calda de morango quente



Você é
doce
doce
doce

Como o sorvete de creme
Mergulhado na calda de morango

Quente




segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Primeiro plano - Original

O dedo desliza lentamente e então eu posso senti-la úmida e quente.
Por que não? Se a opção imediata é pela solidão eu devo me acostumar a tocá-la com mais freqüência. E no sexo solitário pode haver mais prazer do que no sexo sem amor.
Na cabeça, lembranças de toques sutis e delicados, palavras doces, situações que emocionaram. Isso basta, eu me pergunto? Se no momento é o melhor que eu posso fazer por mim, sim, basta.
A emoção é um sentimento cruel. Nos abraça, nos chacoalha, vira as nossas vísceras do avesso. Mas é um tipo de dor que não queremos deixar de sentir. Quando não há mais a emoção, a vida perde o sentido.
E eu a busquei tanto que decidi interromper o meu caminho longo e sem emoção.
E isso assusta. Mas fiquei mais assustada no começo, quando eu recomecei sentir. Quando eu percebi que existia a emoção aqui dentro e lá fora, entre as pessoas reais, mas que, ao meu lado, o que tinha era o hábito do convívio e só. Nada de troca. Nenhum interesse. Nem curiosidade. Só afeto respeitoso e a construção de uma imagem equivocada.
E me envergonhei quando me dei conta de tudo isso. O cotidiano fácil, seguro, cheio de certezas nos envolve ao longo da vida e, quando nos damos conta, o sentir ficou em segundo plano. Em que porcaria de mulher moderna eu estava me transformando?
Mas se o movimento é doloroso, ele também é necessário. Estou tão certa da minha opção que tenho até orgulho. Porque a opção foi tão pensada, tão maturada... O caminho foi tão cheio de altos e baixos, descobertas e decepções... Tentativas de recomeços... Reencontros e afastamentos... Levei anos pra chegar até aqui, mas sempre dando sinais, pedindo socorro, lançando avisos...
Mas há situações que não mudam. Há pessoas que não estão preparadas para mudar e nem querem. Cada um tem o seu tempo e eu não me importo se, agora, estou precisando atropelar alguém. Me sinto mesmo um trator.
E é engraçado como nada acontece da noite para o dia.
O limite se deu e não há agora uma segunda via. Também não há como voltar atrás. Não há culpados, nem responsáveis. Só existe uma pessoa, eu, pensando, querendo, desejando e decidindo o que é melhor pra mim. Sem mais nenhum medo.
E sou capaz de chorar de contentamento ao perceber que, pela primeira vez, vou de fato colocar a minha vida nas minhas mãos. Mesmo que para isso o sexo também tenha que ser solitário por algum tempo.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Como uma máquina

"Aconteceu um problema inesperado. O sistema está sendo desligado. Salve os trabalhos em andamento e acione o logoff."

A gente devia ser assim, como uma máquina. Simplesmente desligar automaticamente quando um problema no meio do caminho surgisse. Salvar o que foi iniciado para, em seguinda, religar e continuar de onde se parou.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

A Dite e os sapatos

A Dite estava linda como nunca. Me surpreendi quando soube que estava com 31, porque quando me lembro dela sempre a vejo mais velha, sofrida, gorda. Mas, hoje, ela estava linda, como uma diva da década de 50, uma atriz de cinema: a pele extremamente branca, o sorriso aberto, com dentes perfeitos, o cabelo dourado e cheio de cachos. Parecia um anjo. Não havia registro do seu mau humor, sua marca registrada de antes.
Todos se surpreenderam. E eu a abracei... que saudades... Eu não sabia que estava com tanta saudades dela. Não imaginava o quanto!
Era surpreendente porque todos a vimos morta. Nós vimos como ela foi definhando e como estava envelhecida quando se foi. Mas, agora, ela tinha 31 e dizia quando via alguém: não, eu não morri. E aquilo era tão natural. Não era nada assustador. Todos estavam felizes, em confraternização. E, para cada um que chegava, eu, como uma criança da casa, fazia questão de mostrar: olha, olha quem está aqui! E novamente expressões de surpresas, abraços, felicidade.

Eu não sei como cheguei naquele lugar. Quando vi, estava naquela casa, que era pequena, mas estava cheia de gente conhecida. Mas tinha que partir e, de novo (essa sensação sempre vem) estava sem sapatos. Alguém na casa me deu dois pares: um sapato lilás claro, meio transparente, bico fino e um pequeno salto; outro preto, completamente baixo. Ambos eram de plástico. Mesmo assim, sai descalça, com os dois pares em uma sacola.

Na rua, de noite, olhei o trânsito, que era frenético. Via luzes dos carros que riscavam a escuridão. Duas grandes avenidas se encontravam no ponto onde eu estava, uma praça na parte baixa de dois morros. Mas a minha noção de sentido estava completamente perdida e não sabia para qual lado seguir: direita ou esquerda. Tinha que pegar um ônibus, ir para o Centro, mas os ônibus subiam e desciam as ruas, que eram ladeiras, e eu não conseguia me mexer.

Aquele lugar, eu sabia, já havia sido uma favela enorme - Mauá agora está bonita, eu pensava, mas ainda assim é Mauá, é assustadora. Foi aí que encontrei a garota. Ela não parava de falar, e me deu o sentido: o Centro é para lá (à esquerda), pegue tal ônibus. Perdi ainda um ônibus e, no próximo, ela subiu comigo, sempre falando, falando, que conhecia não sei quem no jornal, que estudava, que estava voltando da escola, que isso, que aquilo.

Foi só então, no ônibus, que decidi vestir os sapatos. Mas, na confusão de subir, entrar no ônibus, um pé do par preto se perdeu, caiu no chão, eu ainda olhei pra trás, tentei encontrar, mas não consegui. Então, coloquei o lilás. Mas era o preto que queria. Esse sapato lilás com essa meia soquete não combina, ainda pensei. Deve ser por isso que está meio apertado. Pensei em voltar pra, procurar o sapato que ficou pra trás, certamente caído na sarjeta, mas não dava mais.

E a menina não parava de falar, enquanto o ônibus seguia e eu observava meu pé com meias soquete no sapato lilás e transparente.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Pássaro na sala

Entrou um passarinho na minha casa agora há pouco. Foi mágico. Por alguns segundos me bateu uma empolgação. Porque não sei como ele entrou. Quando vi, ele estava lá, batendo asas, pousando na minha estante, cantando para mim no meio da sala. Nem o cachorro se assanhou para pegá-lo, como que o respeitando. Por um instante pensei: "Passarinho em casa assim deve ser um bom sinal. Vou deixá-lo aqui pelo menos até a Bia chegar pra ver o quanto temos sorte." Mas, de repente, percebi que o bichinho estava lá, mas tentando voar alto sem poder. Ele se batia contra o teto e começou a ficar desesperado. Ia e voltava da estante pra a janela, como que me dizendo que estava buscando a luz. E não tive coragem de esperar. O passarinho só queria sair da minha sala. Então, abri a porta e esperei ele perceber o caminho e sair voando. E ele foi rápido como um raio.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Vontade da partilha

Não conheço Mariana Terela, mas ela estava outro dia em O Mundo Perfeito, blogue da Isabela, lá de Portugal, linkado aí do lado. É dela a frase abaixo, que eu assino embaixo.

"Há já muitos gajos que sabem que nós, as que nos julgamos imperfeitas, temos de dar largas à imaginação e ao intelecto e a crescer noutros sentidos. Menear o rabo e dar a cabeleira dá resultado enquanto se tem rabo e cabeleira. E enquanto aquilo se põe em pé só com a visualização de um rabo. Mas isso acaba ... as relações que nos aquecem a alma são aquelas que duram para além das aparências e em que o calor e acolhimento de um corpo (e da alma) valem muito mais do que a sua perfeição física. E a vontade de partilha não acaba aos 40 anos. E a perfeição física começa a acabar aqui."