sexta-feira, março 24, 2006
E é sexta-feira...
Vítima desse infeliz rodízio de carros implantado pela Prefeitura de São Paulo, eu acabo madrugando no jornal mesmo sem necessidade. Para não levar uma multa daquelas, acordo às 5h, saio de casa às 6h e antes das 7h estou aqui, tomando pingado e comendo um pão com manteiga no boteco. Tenho sono o dia inteiro e, no fim da tarde, me obrigo a fazer tudo correndo pra não levar uma multa na volta pra casa. E, quando saio do jornal, tenho a impressão que estão todos me olhando com ar crítico e pensando assim: "Hum, como vai embora cedo, aquela folgada..." Quando estou muito atrasada, ainda fico desviando dos pontos onde, sei, estão os malditos marronzinhos... Pareço uma ladra em fuga. Há humor que aguente isso?
Só que essa sexta-feira é a pior do mês. Ela ainda é véspera de plantão.
Plantão é o osso dessa minha profissão. Amanhã e depois são os dias que eu vou roer meu osso. E depois trabalhar mais uma semana inteira, me arrastando todas as manhãs, até o outra sexta de sono, correria, e etc e tal...
Escrever esse monte de bobagens já um sinal de mau humor. Mas é só um desabafo... Que sempre faz bem... no fim das contas...
terça-feira, março 21, 2006
A Ex-Mulher
Ela tinha cabelos claros, no tom dourado. E olhos também claros, talvez azuis, talvez verdes, talvez cor de mel, não sei bem. Acho que tinham o mesmo tom do cabelo. Mas lembro que eram grandes, sempre esbugalhados e brilhantes quando falava, e isso foi o que mais me impressionou nela. A vi apenas três vezes e sempre foi em seu olhar que eu me fixei. Na primeira vez, o olhar era de submissão. Na segunda, de desespero. E na terceira, vinha carregado de uma frieza, quase uma ameaça.
Foi no intervalo entre o nosso primeiro e segundo encontros que ela de boa vontade se apresentou a mim: “Oi, eu sou a Maria. Sou a ex-mulher do João”. Ela falou aquilo como se fosse uma sina, uma profissão: “Eu sou a ex-mulher!” E ao mesmo tempo com tanta naturalidade que eu me assustei. Porque ao atribuir a si mesma a posição de “ex-mulher” ela se destituía do que dela era mais importante, o ser mulher. Era como se ela só existisse a partir dele, através dele, daquele homem que ela imaginava ainda amar. E, por ela, eu senti pena, o pior dos sentimentos.
Não que a culpa fosse dela. Em se tratando de casais, não há culpas individuais. Eu, sem querer, sem ao menos conhecê-los direito, conhecia bem a sua história. Não que eu fizesse questão de saber. Na verdade, nunca procurei saber. Mas tenho um curioso dom: fico sempre sabendo do que não procuro saber. Não preciso especular, não preciso perguntar. Às vezes demora dias, às vezes anos, mas cedo ou tarde as pessoas vêm a mim e me contam, como se eu fosse alguém para quem fosse sempre interessante contar sobre a própria vida e a vida alheia. E outras vezes nem preciso que me contem. Como uma visionária, eu olho, observo por instantes e simplesmente sei.
Então, sabia da história deles. Sabia que um dia se amaram, não por uma paixão avassaladora, mas se amaram. Soube que ela tinha por ele grande admiração e ele, por ela, carinho e respeito. Mas como os amores feitos de admiração, carinho e respeito são mornos, um dia ele, que era mais consciente de suas vontades, decidiu partir. E ela não se conformou. E, mesmo não morando mais na mesma casa, continuou a cuidar dele. Levava suas contas ao banco para pagar, orientava a empregada, checava a sua geladeira, comprava até as suas cuecas. E ele, por compaixão, permitia. E ela não perdia as esperanças de um dia voltar a dividir com ele a cama. E ele tinha a certeza que isso nunca mais aconteceria.
(Abro um parênteses aqui para dizer que nem a nossa Língua Pátria a ajudava. Me explico: minha amiga não tinha muitas opções no nosso Português. Aqui, é comum entre os casados chamarem-se de marido e mulher. Se uma mulher falar “esse é meu homem” isso é tido como vulgar. Ela o chama de marido, o que é mais formal. A formalidade da palavra na nossa sociedade com certeza sumiria se todos soubessem que em latim marido (maritus) significa “o macho”, mas quase ninguém sabe disso. E, apesar de sermos a maioria cristãos, acaba pesando sobre nós o significado da tradução hebraica, onde a palavra marido (baal) se aproxima mais dos substantivos “dono” e “patrão”. E o mais revoltante é que é natural um homem chamar a sua companheira de “minha mulher”, o que significa dizer aquela que me pertence. Nos tempos de hoje, chamá-la de esposa, ou a que desposo, é que é antiquado.)
E pensando nela, e no significado das palavras, tentei me colocar no lugar de Maria. Eu definitivamente nunca me apresentaria como “a ex-mulher”. Acho que diria algo assim: “Oi, prazer, eu sou Maria. Ele, João, é meu ex-marido”. Falaria do jeito certo para que percebessem que eu não sou anexa a ele. E quem me ouvisse entenderia que aquele tinha sido sim o meu homem, que eu o amei e que, no fundo, de alguma forma, ainda o amava, mas de uma maneira leve, afetuosa. Que tinha sido sua mulher, mas que por conta do passar da vida a vontade de ficar junto esfumaçou-se. Que ele percebeu primeiro e eu, não tendo como negar, mesmo com dor, cedi. E que, agora também livre, estou pronta para procurar outros amores. Sem ser submissa, sem desespero e sem o medo que acompanha sempre quem ameaça.
sábado, março 18, 2006
Viva a banda Calypso!
Conhecemos hoje o RBD. Conhecemos mesmo, eu, a Bia e o Mauro. Festa de aniversário de criança, perifa, o repertório é sempre suspeito. Oscilou entre Xuxa, RBD, Gino & Geno, Teodoro & Sampaio e Banda Calypso.
Mas fomos apresentados ao RBD, ou Rebeldes, garotos protagonistas da novelinha do SBT, que involuntariamente mataram três pisoteados há mais ou menos um mês num shopping perto da Represa do Guarapiranga.
A aniversariante ficou super feliz de ter ganho o DVD de presente. Ai meu Deus, vamos ouvir!! A meninada parou para assistir, dançar, babar nas garotas e garotos (mexicanos???) de cabelos espetados e pintados (um deles parecia o Pequeno Príncipe, pode??).
A Bia foi junto (Que medo!!!). Parou na frente do telão, mas atrás da fila de meninas que sabia a dança na ponta dos pés. Mas não conseguia dançar. Nunca tinha visto aquilo. Isso é uma vitória para nós, pais talvez caretas, mas que tentam ser "politicamente corretos" e "culturalmente acadêmicos", mas que no limite são censores mesmo. No meio da segunda dança, largou aquilo e foi pro parquinho. Ela é meu orgulho!!!
Assistindo, passei a entender um pouco da moda adolescente. As três meninas do RBD usavam microssaia com bota e bustiê. Nada muito diferente do que as chacretes faziam há 30 anos.
Mas o que mais me chamou a atenção foi o bustiê com sutiã à vista.
Sempre achei um horror essa moda que mostra o sutiã. Mesmo que ele tenha a mesma cor berrante da blusinha, sempre achei um horror. Cresci sofrendo para esconder o sutiã. A alça de silicone foi o máximo que se inventou para se manter o sutiã escondido (tá certo que pra muita menina ficava pior a emenda que o soneto: o silicone apertado na carne fazia ela parecer mais com um salsicha amarrada...).
Aí, nos últimos tempos, vejo uma avalanche de sutiãs berrantes, aparecendo pra fora das camisetas cavadas. No começo achei que era a libertação feminina, mas aos poucos comecei a pensar que aquilo era mesmo puro mau gosto. A culpa é do RBD, só pode ser!!! As três gurias, mesmo com o bustiê (ou top, como preferirem), fazem questão de mostrar seus sutiãs, cruzando as costas, que podiam estar livres, lindas, bem mais sensuais. Que moda mais sem classe!!!
Das opções da noite, prefiro mesmo o Calypso. A bota pra cima do joelho com minissaia a la chacrete é a mesma, mas pelo menos o bustiê é amarrado, a cava nos seios é bondosa, até apetitosa, fica muito mais bonito. ... E não usam o sutiã... E é nacional! Do Pára (sai do eixo Rio-São Paulo-Salvador) e é dançante, rebolante, como a antiga lambada (lembro de eu e o Rai dançando lambada nas arquibancadas do Pacaembu durante um comício do Lula, na primeira campanha: Lulalá...que saudades...da dança, me entendam).
Foi ótima a noite. Aniversário na perifa (com churrasco duro, chopps quente e salgadinho frito e frio) é sempre uma delícia....
Avulsa (essa é da Dani)
Adorei a poesia. Volte a escrever.
Beijo grande
"Não estou avulsa à sua vida,
nem vim anexo a seus planos,
não sou mais uma ferida,
nem sou mais um desengano.
Não me compare ao passado,
nem diga que não tem futuro,
não sou o caminho errado,
nem sou um tiro no escuro.
Não mintas para ti mesmo,
nem digas que foste enganado,
não sou o fim do sossego,
nem sou as águas passadas.
Não gosto do teu sofrimento,
nem quero que fiques calado,
não sou a perda de tempo,
nem sou o mesmo que nada.
Não gosto de ver teu fracasso,
nem quero que fiques no chão,
não sou apenas o abraço,
nem sou mais uma paixão.
Não quero ser a culpada,
nem vou ser o caso antigo,
não sou mais um dos pecados,
nem sou apenas amiga.
Não quero acabar novamente,
nem tenho vontade demais,
não sou seu erro recente,
nem sou seu sonho fugaz.
Se sou o passado,
estou reciclada,
estou corrigida,
estou melhorada."
quarta-feira, março 15, 2006
Será que passa?
Eu não gosto de tristeza. Também não gosto de ser triste e odeio quem vive amargurado pelos cantos da vida, choramingando por tudo e colocando a culpa em todos. Gosto de ver a vida com bom humor, mesmo que sarcástico. Olhar o lado engraçado, insólito das situações, é o meu passatempo predileto. Mas há dias, períodos, que nem isso me envolve.
Aí fico tentando, como umTitã, achar o nome e o motivo disso: cansaço, TPM, idade, saudade, desânimo, raiva, gripe, desapego, desilusão, culpa.... É tudo isso e nada disso. Me dou um pito porque já sou crescidinha para essas bobagens. Parece tudo muito adolescente. Mas, racionalmente, não dá pra entender o que se passa. E será que passa?
Sem respostas, penso que talvez curtir a tristeza até ela se esvair seja a melhor saída. Deixar ela tomar conta de mim, me abraçar por inteira e esperar que ela, naturalmente, vá embora. Me entregar a ela e chorar todas as manhãs e todas as noites até secar, sem autopiedade, pode ser um bom remédio.
E, enquanto o dia corre, eu continuo a treinar a piada, a boa sacada, o olhar os outros com bons olhos e a crença de que, tudo, tudo mesmo, vai melhorar.
sexta-feira, março 10, 2006
Como água...
Às vezes, chega inundando a gente, de uma vez só. Um temporal de palavras, fluindo fácil fácil da ponta dos dedos. É tão urgente que qualquer pedaço de papel serve, porque o texto tem que encontrar o seu lugar rápido. Em minutos ele está lá, sem esforço.
Outras vezes, como no estio, o texto demora muito pra chegar. Vem a conta-gotas, palavra por palavra... É como uma chuva fraca, que cai a cada hora do dia, mas não se forma como um temporal. Refresca mas não encharca. Com dificuldade construo uma frase, depois mudo, corto, refaço, até encontrar a minha perfeição.
Mas pior é quando o texto não vem. É uma sensação de secura, de sede mesmo. O ar parece que pára, o cérebro parece que não raciocina, a confusão se generaliza, as palavras forçadas não se encontram... É como se o mundo estivesse se transformando em um deserto.
quinta-feira, março 09, 2006
Mulheres e Homens
O texto não é meu (quem dera eu escrevesse assim!!). Mas ganhei de uma amiga dias atrás. O que é bom, a gente compartilha...
"Ninguém pensa senão em mulheres e homens, a totalidade do dia é um trâmite que se detém num dado momento para permitir pensar neles, o propósito da cessação do trabalho ou do estudo não é senão começar a pensar neles, mesmo quando estamos com eles pensamos neles, pelo menos eu. Os parênteses não são eles, mas as aulas e as investigações, as leituras e os escritos, as conferências e as cerimónias, as ceias e as reuniões, as finanças e as politiquices, a globalidade daquilo que consideramos ser aqui a actividade. A actividade produtiva, a que proporciona dinheiro e segurança e apreço e nos permite viver, a que faz com que uma cidade ou um país andem e estejam organizados. A que depois nos permite dedicarmo-nos a pensar neles com toda a intensidade.
Até neste país é assim, contrariamente às nossas pretensões e fama, contrariamente àquilo que nós próprios gostamos de crer. O parêntese é isso, e não o contrário. Tudo o que se faz, tudo o que se pensa, todo o resto que se pensa e maquina é um meio de pensar neles. Mesmo as guerras são travadas para poder voltar a pensar, para renovar esse pensamento fixo dos nossos homens e das nossas mulheres, naqueles que já foram nossos ou poderiam ser, naqueles que já conhecemos e naqueles que nunca chegaremos a conhecer, naqueles que foram jovens e naqueles que hão-de sê-lo, naqueles que já estiveram nas nossas camas e naqueles que nunca passarão por elas...."
Javier Marías, in 'Todas as Almas'
terça-feira, março 07, 2006
Cheiro de biscoito
Há uma fábrica de biscoitos perto de casa, não sei direito onde é e nem quero saber. O mesmo cheiro quente às vezes se espalha pela região em outras horas do dia, mas de manhãzinha, para mim, o efeito é meio mágico.
Na minha fantasia matinal, meio infantil eu sei, o melhor é imaginar que tudo faz parte do nascer do sol... Como se a aurora, além de brilho e cor, deixasse também no ar o perfume doce de biscoito assado, ainda quente, pronto para ir a mesa...
segunda-feira, março 06, 2006
domingo, março 05, 2006
Eu-mãe e o guardião
Hoje fiquei nos observando, a mim e a ela, uma curtindo a outra, sob o sol, na piscina. A Bia é medrosa, não gosta de ficar só, mas eu não sinto que devo protegê-la o tempo todo. Gosto de contar pra ela como as coisas ocorrem e deixá-la curtir, se arriscar. É uma missão difícil. Sempre digo: "Vá, Bia, não tenha medo. Qualquer problema, eu estou por aqui, mas você tem que ir só." Não importa com quantas pessoas a gente conviva, com quantos a gente converse ou quantos saibam dos nossos segredos... as decisões mais importantes da vida são sempre solitárias.
Enquanto ela se emancipava um pouco hoje, se misturava naquela multidão de crianças, eu ficava de longe, olhando, preferindo o sol à água. De vez em quando, a perdia no meio de dezenas de meninas como ela, de rabo de cavalo e tic-tac na cabeça. Um frio invadia a minha barriga, mas aí ela reaperecia como uma mágica, pulando, brincando, mergulhando, gargalhando, abraçando uma amiguinha...
De vez em quando, era ela que começava a me procurar. Olhava no mesmo sentido em que me deixou, tentando achar o meu perfil. Eu percebia, acenava, ela sorria, às vezes corria pra me dar e receber um beijo, às vezes voltava à sua brincadeira, nem aí pra mim. O importante, eu pensava, é que ela sabia que eu estaria lá, pra dar aquela força, quando e se necessário.
Olhando lá pra dentro, acho que é isso que eu venho buscando... Alguém que me mostre o início do caminho, me dê o estímulo para trilhá-lo e me observe seguindo, independente, respirando livre. Saber que há alguém para eu voltar e dar ou receber um beijo, sem o compromisso de dar e receber o beijo. Um guardião, que me conheça tão bem que eu nem precise falar e nem pedir para ser ouvida. Que mesmo que eu não o veja, saiba que está lá. Que se orgulhe do meu esforço. Alguém como um espelho, onde eu possa me olhar e ver o meu reflexo, sem culpa. Deus? Anjo? Não, nada disso. Alguém tão humano quanto eu.
Na piscina, tentando encorajar a Bia a enfrentar seus medos, enfrentei eu o toboágua: um tubo longo e alto, sem um fim visível, branco como o excesso de luz, por onde você escorrega a uma velocidade indescritível. Ao escorregar, o tempo parece que pára. A única reação possível é o grito. Um mergulho violento e, por reflexo, uma gargalhada de perder o fôlego. Fiquei pensando que o toboágua pode parecer um sonho ruim para uma criança medrosa. Mas é também uma metáfora da boa vida: longa, imprevisível, misteriosa, mas sempre, sempre muito boa no final. É só ter coragem para correr o risco.
sexta-feira, março 03, 2006
A morte no piscinão
Uma tarde tive que fazer a morte de dois garotos na obra de um piscinão do Maluf. Morreram afogados num dia de muito calor. Aconteceu lá pros lados do Jardim Peri, um lugar muito feio e pobre na Zona Norte de São Paulo. Depois do piscinão do Pacaembu, fazer esse tipo de reservatório pela cidade virou uma questão de honra para o turco.
Cheguei na rua onde moravam os meninos. A contragosto, bati na casa de um deles. Ninguém atendeu. Um vizinho qualquer me disse que o corpo já estava no velório. Que droga! Não queria passar por isso!! Ir no enterro pra conseguir a porcaria da história!! Aí, bati na casa do outro, uns 20 metros a frente. A situação não poderia ser pior. Um vizinho disse que a família já tinha até viajado. Sem alternativa, fui para o cemitério.
Chegando, fui me aproximando devagar da capela, onde rolava o velório. De longe, observei que boa parte das mulheres que estava lá usava saias longas e cabelos compridos. Já vislumbrei o inferno. Além de tudo, eram crentes, aquele tipo de gente que sai correndo atrás de jornalista xingando: 'vade retro satanás'.
Do lado de fora da capela, perguntei para um homem com cara amistosa quem era da família. Ele me levou até a porta da capela e me mostrou, de longe, perto do caixão, a mãe (uma mulher de coque e saia) e o pai (um jovem senhor barrigudo, em mangas de camisa).
Me aproximei do pai. Ele parecia mais tranqüilo. Do lado do caixão, depois de dar uma olhada no garoto morto, me identifiquei. Contei, cínica, aquela velha história que queria escrever no jornal o que tinha acontecido com o filho dele para denunciar o absurdo de existir um piscinão onde crianças podiam morrer. Pra minha surpresa, ele me pediu com muita humildade: "A senhora pode esperar um pouco. Eu quero falar. Não quero que aconteça isso com mais ninguém". Eu fiquei em estado de choque e muito envergonhada. Disse, quase gaguejando: "Lógico, espero o enterro. A gente conversa no final"....
E eu fiquei lá, com minha consciência pesada, assistindo de camarote o sofrimento daquelas pessoas. Não tive coragem de ir para o carro, com o fotógrafo e o motorista. Num certo momento, não aguentei e chorei com toda aquela dor. Quando acabou o enterro, me aproximei do pai de novo e ele perguntou se eu podia ir pra casa dele. Ele contaria tudo lá. Juro que fiquei com um medo egoísta de ele desistir de conversar comigo. A mulher (sempre as mulheres) poderia fazer ele desistir. Ainda não tinha a história e seria um absurdo voltar pra redação sem nada pra escrever (como jornalista é fdp!!!).
Voltei pra aquela casa naquela rua pobre e feia. Chegando lá, na calçada, ele e a mulher começaram a me contar... que o lugar do piscinão era uma antiga fazenda, que antes tinha um laguinho onde todas as crianças do bairro brincavam, que começou a obra e nada foi cercado, que não havia sinalização de perigo e nem segurança no lugar, já abandonado. Conforme eles iam falando, as pessoas da rua iam se aproximando da gente, a maioria crianças, amigos dos dois meninos afogados.
Aí, ele propõe: "A senhora pode ir até lá? Eu mostro que não tem segurança nem aviso". Mas ir como? "É pertinho. A gente vai a pé. A senhora pode ir de carro". Eu disse: "Não. Eu vou a pé com vocês". O carro com o fotógrafo nos seguiu.
Conforme andávamos, mais pessoas e principalmente crianças se juntavam a nós, seguindo para o lugar da tragédia. Parecia uma cena de filme. Aquele multidão de pobres, vestidos com shorts e chinelos, se formando enquanto andávamos à frente.
Era mesmo muito perto. Virando a primeira esquina à esquerda da rua dos meninos já começava uma estrada de terra e podíamos ver uma mata. Depois do paredão de árvores, chegamos num descampado, uma descidona e logo abaixo, no meio de um aterro, o lago do piscinão inacabado. Em volta, vários alojamentos de operários, vazios. Maluf tinha parado de pagar a obra e a empreiteira tinha dado no pé. Nenhuma placa, nenhuma cerca, nenhum segurança.
O pai se aproximou do lago e me mostrou onde os meninos costumavam mergulhar, contou como os corpos tinham sido encontrados, me apresentou o rapaz que tentou salvá-los... Sempre abraçado ou de mãos dadas com a mulher. De repente, ele diz a ela: "Olha, Bem, a camiseta dele ainda está aqui". Aquilo parecia um trapo. Estava lá, na beira da lagoa, molhada e suja de barro. Mas ele a reconheceu. A mãe pegou como se fosse uma relíquia. Mas, ainda anestesiada por aquele impacto da morte que acabou de ocorrer, lidou com aquilo como se fosse normal. Um peça de roupa do filho que ela iria pegar, lavar e passar pra depois usar de novo. Nenhuma lágrima. Nenhum grito. Nenhum lamento. Isso me assustou. Eles falavam comigo como se o menino fosse aparecer lá a qualquer momento.
Depois da cena da camiseta, aquilo tudo já era demais pra mim. Já tinha a história, a foto da família sofredora no local (isso é o máximo pra uma edição bem popular), a reprodução do moleque. O jornal não podia querer mais que isso. Cara de pau, ainda pedi ajuda ao casal para conseguir conversar com a segunda família e a foto do segundo moleque. Mas eles tinham ido mesmo viajar. Achei que bastava. Entrei no carro e fui embora, meio orgulhosa por ter me saído tão bem daquela encrenca. Mas, o que ficou mesmo foi uma sensação esquisita no coração, um amargo na boca e uma admiração enorme por aquelas pessoas tão simples, tão crédulas e, naquele momento, tão fortes.
Coisas da Bia

Já deitada na cama, pronta pra dormir, a Bia me contou ontem que, na escola, desenhou a Heloisa deitada embaixo da terra. "Não consegui fazer ela feliz, mamãe, porque ela estava na terra. Aí, desenhei ela triste e dei uns retoques (!!!)".
Levei um susto na hora. A Bia desenhando coisas mórbidas??? Fiquei imaginando a cara da professora quando ela contou o que desenhava... E ri... Me disse ainda que desenha a irmã feliz quando a faz de pé, em cima da terra. Mas que deitada, na terra, não deu pra fazer um sorriso. Me tranquilizei quando ela garantiu que não ficou triste com o desenho. Apenas desenhou. Concluo que a vida devia ser simples como as saídas inventadas pelas crianças.
Acho que Bia começa a entender o que é a morte. Nunca escondi dela a existência da morte e da irmã com a qual ela não conviveu. São só fotos e histórias que ela vê e escuta. Gosto de ouvi-la. Me conta que sonha com a irmã constantemente. Para a Bia, a Heloisa é um tipo de anjo com o qual ela brinca enquanto dorme. As duas ficam de mãos dadas, pulam de nuvem em nuvem e tomam conta uma da outra para não se machucarem. Para a Bia, não é uma lembrança, mas uma amiga invisível, com a qual ela sempre pode contar.
No fundo, a invejo. Como é bom ter amigos invisíveis...
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
E acabou o Carnaval...
O que sobra desse período é só um cansaço que parece não ter fim. O corpo dolorido muito mais pela tensão do que pela curtição. Aliás, curtição é tudo o que não tenho tido nos carnavais dos últimos 10 anos. Na avenida, sou a pessoa errada no lugar certo.
Fica algo de bom? Sempre fica. Mas dá pra contar nos dedos de uma só mão do Lula: o whiskey com energético tomado ao lado do carro junto com os fotógrafos, com muito gelo e gargalhada; o encontro com os coleguinhos que há meses e até anos não via... Que mais???
Difícil saber que mais é bom nesse Carnaval interminável que eu sou obrigada a me envolver...
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Desejos
Hoje foi o último dia de aula... Um ano e meio e é o fim da pós. Agora, só falta o mais difícil, o TCC. Nada de despedidas. A turma se sente unida, mesmo que fiquemos anos sem nos ver. A internet ajuda....
Na aula falamos sobre desejos... Os caminhos que o desejo segue... Nada mais a calhar nesse período em que quase todos aparentemente desejam tudo, mas que de verdade, para boa parte, lá no fundo, desejar mais do que se tem parece até ofensa pessoal, pecado mortal.
Desejar é mesmo ambivalente. Algo que pode ir em direção à vida, mas também em direção à morte. Não, isso não tem a ver com tendência suicida. Tem a ver com como se quer levar a vida. O fato é que o desejo é algo sem controle. É mesmo onipotente e impotente e, como diz a professora, "atravessa" a gente. Gosto de dizer que o desejo faz o corpo da gente doer.
Em outra aula, outro texto, saquei uma coisa que me deixou aterrorizada em princípio. Depois passou, mas perceber que o desejo perturba a felicidade pode fazer qualquer um ficar pensativo. Mas a explicação é tão simples e clara (para quem quer ver) que o susto não dura muito: o desejo é uma força que leva as pessoas a avançar. E nem sempre é fácil enfrentar as conseqüências de andar pra frente. Às vezes é mais cômodo ficar parado onde se está, na vidinha habitual, sem pensar muito no que acontece em sua volta. Se está tudo encaixadinho, se estamos ganhando o jogo, pra que desejar mais, pra que mudar o time, arriscar? E pergunto: por que não desejar mais??
Pra mim há tanta coisa a se avançar: novas amizades e relações, transformar as velhas relações, um novo trabalho, desafios, desvendar códigos.... Mas, sempre, avançar... Mesmo se for pra dizer não para o que parece quase óbvio dizer sim. Fico a me perguntar até onde o meu desejo vai me levar, o que eu sou capaz de fazer, e até onde eu vou suportar a ameaça de ver minha felicidade ruir. É um risco porque a gente pode sonhar com algo que, de verdade, não quer. O bom é pensar que a ameaça do mundo cair na sua cabeça também pode não virar. A vida é tão imponderável.... Por que evitar o que nos atrai? E quando lembro do que já fiz pra correr atrás do desejo percebo que foi tão bom... Nada ruiu. Só construiu.
Mas, na aula de hoje, falávamos que muitas vezes desejamos algo que não existe. Ou desejamos do Outro algo que ele não tem, ou que imaginamos que ele tem, ou queremos que ele tenha. Isso me parece mais perigoso. Mas, será que nunca dá certo? É quebrar a cara na certa ter expectativas em relação aos outros? Será que não dá mesmo pra cantar como o Ira! "Eu quero sempre maaaais"?
Não, não pode ser bem isso. É só que não dá pra buscar no Outro aquilo que a gente não tem, concluimos. Buscar amor, companheirismo, atenção, paixão, compreensão em alguém quando lá dentro se é seco. Bem, pelo menos uma coisa eu sei: seca eu não sou. Tenho tudo isso e mais um pouco.
Ah, alguém deve me perguntar o que a frase no começo tem a ver com tudo isso: nada e tudo, acho? É só para lembrar da tradução livre que o velho e bom Ciro fez de uma música espanhola que ele adora e cujo autor eu já esqueci. Ficou cantarolando no carro enquanto levava ele pra casa. Última carona da pós. Aquelas coisas que você tem que registrar na hora, senão esquece.
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Neurônio Manco
Era incapaz de pronunciar palavra, mas tinha um olhar que atravessava a gente.
Ouvidos sempre atentos, a impressão que nos dava é que não sentia dor.
Mas sentia... e como sentia...
A gente percebia em suas crises quando seu rosto se contorcia, ela se desfigurava, se transformava, mas mesmo assim não reclamava. Ela nunca chorava.
Aquela pequena era uma luz no meu coração.
O dia que chorou foi para dizer adeus. Se foi, sumiu, desapareceu deste mundo e se transformou em uma memória.
Aquela pequena ainda me faz chorar. Mas choro envergonhada quando lembro dela, forte, nem ligando da brincadeira do neurônio manco, explicação simples para um problema incompreensível.
Aquela pequena... que saudades
domingo, fevereiro 19, 2006
Entrelinhas e excessos
A frase não é minha (é do Fernando Pessoa), mas expressa bem meu estado de espírito nesta semana raivosa, de frases colocadas com precisão mas interpretadas por quem não quer entender nada.
O exercício de escrever tem dessas coisas: a gente não consegue só ler o que está escrito simplesmente, e acaba por tentar enxergar nas entrelinhas o que nem sempre está na intenção do autor. Se a leitura for pro bem, muito que bem. Caso contrário, o mundo pode cair nas suas costas. E é isso que aconteceu esta semana. Duas vezes.
"Vou apagar o que você escreveu e desconsiderar", ouvi como resposta. Ela não entendeu que aquilo era tudo o que ela não conseguiria fazer: desconsiderar. Não viu bem a minha palavra, não entendeu a minha alma. Perdeu a oportunidade de me conhecer melhor e de me ter ao seu lado.
Mas deixa pra lá. Isso já me deixou por demais depressiva e a semana que começa é de Carnaval. E até que não é má idéia terminar uma semana como essa com um almoço de excessos gastronômicos no Vegetariano. O lugar que devia ser o melhor para o regime, mas que na verdade é o ícone da massa, da fritura e do bolo com sorvete.
Tem dias que não são fáceis. Há semanas que são intermináveis. Há períodos em que o melhor é correr para não ser atropelado. Estou em um desses. Me obrigo a escrever porque isso alivia meu coração, já que meu cérebro grita sem parar. Mas, de verdade, queria ficar bem quietinha... encolhida no canto do meu sofá... sem ouvir nem um pio do meu pensamento.
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
O bambu chinês
Ontem foi minha primeira aula de ioga. Deliciosa, mas
pra mim tudo só é bom se tem algo meio engraçado. Diz
o professor que tenho que virar um bambu chinês!!! Eu
dou gargalhadas lá dentro!! Mas até que tem algum
sentido: pés firmes no chão como a raiz e corpo
flexível como o caule ao vento... Que imagem!!! Ele
devia acrescentar: e largura de bambu, fininho
fininho... Ia ser uma inspiração e tanto pra voltar
aos meus 54 quilos...
Há muito queria fazer ioga, para desenferrujar,
meditar. É o tipo de exercício que tem bem a ver com
gente na minha fase. Público alvo: mulheres, a maioria
tentanto ser simpática, quase todas com mais de 30,
procurando mexer o corpo com algo alternativo. Só um
homem na turma. Alongamentos, atenção à respiração,
música calma, no fundo o burburinho da chuva e da
criançada no clube. E vamos nos transformar em um
bambu chinês.
Outro exercício bacana: o da língua. Eu que a uso
muito, no trabalho, no lazer, no amor... E também para
envenenar a conversar (he, he). Devemos colar a língua
inteira no céu da boca e depois colocá-la inteira pra
fora. No meio, um AH!!, como um desabafo. Sabia que a
língua é um músculo que está como que ligado ao
coração?? Eu não sabia. Mas faz todo sentido.
domingo, janeiro 29, 2006
Palavra Escrita
Eu sempre me senti muito mais à vontade com elas, as palavras escritas. Nunca fui ao confessionário, pois prefiro os papéis em branco, sempre atraindo os meus segredos. Escrevendo, colocando o preto no branco como diz o ditado, o pensamento não foge, a idéia fica mais clara, o esquecimento não é desculpa e o sentimento se perpetua. Quando era mais jovem, adorava escrever cartas. Tive um amigo com o qual me correspondia todo dia. O engraçado é que a gente se via todo dia também. Só ele me conhecia de fato.
Para outro uma vez escrevi uma longa carta, de uma só vez, num papel de rascunho. A inspiração pintou, eu lembro bem, e não consegui conter meus dedos. A carta eu nunca passei a limpo e nem enviei, e me perdi desse amigo durante anos. A carta ficou guardada e recentemente o reencontrei. Resolvi que era a hora de entregar a carta e sua reação foi fantástica. Disse algo mais ou menos assim: “Olha só, naquela época você já sabia das coisas e eu demorei tanto para perceber”. Foi uma prova de que devo ouvir mais a minha intuição, coisa que muitas vezes esqueço.
Emocionada eu sempre fico quando lembro de uma carta, que recebi de um namoradinho. Adolescente, ele tinha se mudado para a Bahia com a família e ficamos amigos de cartão de Natal. Um dia, chegou uma carta sem data comemorativa. Ele contava que estava com problemas, havia sido roubado, não tinha grana, e foi chorar as mágoas com o pai. O conselho paterno foi simples, como uma palavra solta: “Lembre de algo que já te fez muito feliz que isso passa”. O menino, então, pegou a caneta e o papel: “Foi por isso que resolvi escrever pra você”, ele me disse. Foi o melhor elogio que já recebi na vida.
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Sol, piscina e o enterro do titio
Oito horas da manhã e o telefone toca de novo. Dessa vez meu pai, querendo saber se eu sabia mais da morte, do velório, do enterro e tudo mais. E eu com sono voltei pra cama. Mas a Bia não me deixou dormir. A cabecinha da menina de 5 anos já tinha planejado todo meu domingo de folga. ‘Vamos pra piscina do ‘cube’, mãe; aquela que tem um escorregador.’ Não dava pra escapar. Que dia seria esse...
Sol escaldante, canga, protetor solar, cerveja, piscina... Ah!!! Piscina!!! Minha família chorando a morte do meu tio e eu brincando de trenzinho na piscina!!! Lá pelas tantas, decidimos enfrentar a hidroginástica a três: eu, Mauro e Bia. A cena era surreal. Uma gorda mostrando exercícios. De repente, o inimaginável no clube da famíla: Atoladinha... Atoladinha.... O que que era aquilo??!! Eu já estava enlouquecendo de tanto rir e aí a qualidade do repertório piorou: É som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado... E dá-lhe ver aquele monte de jovem senhora dançando Tati Quebra-Barraco... No fim, Só love, só love...
Mas o dia não tinha acabado... Eu tinha um velório e um enterro pela frente. E o que era pior: em São Vicente. Deixamos a Bia na sogra, pegamos o Ric e a Landinha e lá fomos nós, Serra abaixo. A emoção é inevitável nessas situações. Você nem chora pelo morto, que, no caso, coitadinho, tinha 80 e se recuperava do segundo atropelamento. Ele era um herói. Mas você chora pelos outros. Pela tiazinha que ficou viúva, pelas irmãs do tio, tão velhinhas quanto ele, que com a morte vêem sua vida inteira passar na memória como um filme... Fiquei lá, tentando amparar tia Landa e tia Lylia. E você chora pelas primas e primos, filhos órfãos, pelos netos que admiravam aquele avô... Essas coisas.
Mas velório que se preze tem também aquele delicioso falatório do reencontro com o povo que há anos você não vê, com a molecada que cresceu e virou moça, com as belas mulheres que continuam belas e outras que envelheceram demais. ‘Vi, prima, você está linda’... Uau, que elogio do primo gato, hoje senhor, que me mimava e pegava no colo quando eu tinha cinco... ‘Vi, você sempre alegre de bem com a vida’.. E dá-lhe abraços, beijos, elogios recíprocos.
E o dia não acabaria ainda. Duas horas de subida de Serra, e um lanche na casa do Ric, com direito a panqueca e tudo. A tristeza do velório e do enterro ficou na Baixada. Na mesa da cozinha, só alegria. Chorando de rir de piadas caseiras e corujices maternas.