.
E Maria se transformou num trapo humano.
Sua pele como que se descolou dos seus ossos.
Se escuta, não escuta.
Parece que escolhe o que escutar.
Ou prefere fingir que ninguém fala
para também não precisar falar.
Nada mais lhe pertence,
mas também não se pertence mais.
Roupas largas,
peças desconexas,
nos pés só chinelos.
Me pergunto onde está Helena?
Que um dia foi a temida,
que um dia foi a raivosa,
que um dia foi a querida.
Ninguém quer mais Maria.
Mas ninguém pode querê-la mais.
Vários tentaram. Ela não deixou.
Agora ela é só.
E, só, se esbofeteia,
faz seus olhos ficarem roxos,
pontos na testa,
desequilíbrio,
tropeções incalculáveis.
Às vezes foge,
talvez porque também tenha um lampejo e procure por Helena.
Talvez...
Em qual momento da vida de Maria Helena a deixou?
Helena,
a das pernas belas,
a da bicicleta,
a da prancha,
a da praia,
a dos cabelos sempre pretos.
Olhos parados,
corpo parado,
boca caída.
Sua imagem.
Um trapo essa Maria.
sexta-feira, julho 28, 2006
Deserto
É um lugar onde nada falta e tudo falta.
Sobra tempo nas nossas vidas de lá.
Lugar onde o dia leva um mês para passar e o tempo de um dia é uma hora eterna.
Onde a vida parece outra e me transforma em outra.
Lá eu nem sei o que sou.
Alguém que não sabe onde está. Alguém que não tem o que o fazer.
Alguém que é muito, mas não o que o olho alheio vê.
Lá é um lugar que não se move, um lugar adorável que me paralisa.
Onde as crianças estão para brincar e os velhos para morrer?
Não. É o lugar onde as crianças e os velhos estão para viver.
Viver como não poderiam em nenhum outro lugar. Lá estão em paz.
Mas tristemente é um lugar onde os jovens estão para desprezar e as mulheres maduras para lamentar. Os homens maduros? Eles nem existem lá. São fantasmas ou exceções.
É um lugar que está fora do mapa, que se esconde do mundo.
Um lugar quente como o inferno e silencioso como o alto mar.
Aliás, não deveria existir um lugar tão quente tão longe do mar.
Sobra tempo nas nossas vidas de lá.
Lugar onde o dia leva um mês para passar e o tempo de um dia é uma hora eterna.
Onde a vida parece outra e me transforma em outra.
Lá eu nem sei o que sou.
Alguém que não sabe onde está. Alguém que não tem o que o fazer.
Alguém que é muito, mas não o que o olho alheio vê.
Lá é um lugar que não se move, um lugar adorável que me paralisa.
Onde as crianças estão para brincar e os velhos para morrer?
Não. É o lugar onde as crianças e os velhos estão para viver.
Viver como não poderiam em nenhum outro lugar. Lá estão em paz.
Mas tristemente é um lugar onde os jovens estão para desprezar e as mulheres maduras para lamentar. Os homens maduros? Eles nem existem lá. São fantasmas ou exceções.
É um lugar que está fora do mapa, que se esconde do mundo.
Um lugar quente como o inferno e silencioso como o alto mar.
Aliás, não deveria existir um lugar tão quente tão longe do mar.
sexta-feira, julho 14, 2006
Os pés de Flora
.
De todas as histórias que já ouvi sobre dormir de meias a mais curiosa foi a de Flora. Minha amiga conta que dorme de meias desde os 20 e poucos por causa de um amor, talvez o único de sua vida. Ela se ilumina quando conta que o amava perdidamente. Que o sexo era ótimo, mas que, depois do rompimento, o que nunca conseguiu esquecer foi daquela sensação dos pés do outro nos seus pés. "Era como se quatro pés fosse um único pé", diz.
Se peço pra ela contar, fecha os olhos e parece até que entra em transe. Ao lembrar, diz que sente imediatamente o volume e o frio dos pés do outro, a aspereza dos seus calcanhares masculinos, o toque das unhas mal aparadas e até o roçar dos pelos que ele tinha sobre o peito do pés. E, já aos prantos, diz que só deseja que ele também suspire com a lembrança de seus próprios pezinhos delicados, número 34.
E foi por isso, diz, que passou a dormir de meias. A cada namorado, a cada amante, mais que sexo bom, o que procura é a mesma sensação nos pés. Por isso no primeiro encontro nunca usa as meias. É a esperança de reencontrar o que alimenta a sua loucura. Mas, a partir do segundo encontro, colocá-las é inevitável. É como um impulso que Flora não consegue evitar.
E é por isso, diz, que sempre está só. Os homens com quem sai nunca conseguem satisfazê-la. Acham a meia brega. E não usar meias lhe dá náuseas.
Mas, penso, eles até devem ter razão! Imagina só, no meio da empolgação, nua em pêlo, a mulher sempre pára tudo, abre bolsa, cata um par de soquetes e veste. Sem dar explicação.
De todas as histórias que já ouvi sobre dormir de meias a mais curiosa foi a de Flora. Minha amiga conta que dorme de meias desde os 20 e poucos por causa de um amor, talvez o único de sua vida. Ela se ilumina quando conta que o amava perdidamente. Que o sexo era ótimo, mas que, depois do rompimento, o que nunca conseguiu esquecer foi daquela sensação dos pés do outro nos seus pés. "Era como se quatro pés fosse um único pé", diz.
Se peço pra ela contar, fecha os olhos e parece até que entra em transe. Ao lembrar, diz que sente imediatamente o volume e o frio dos pés do outro, a aspereza dos seus calcanhares masculinos, o toque das unhas mal aparadas e até o roçar dos pelos que ele tinha sobre o peito do pés. E, já aos prantos, diz que só deseja que ele também suspire com a lembrança de seus próprios pezinhos delicados, número 34.
E foi por isso, diz, que passou a dormir de meias. A cada namorado, a cada amante, mais que sexo bom, o que procura é a mesma sensação nos pés. Por isso no primeiro encontro nunca usa as meias. É a esperança de reencontrar o que alimenta a sua loucura. Mas, a partir do segundo encontro, colocá-las é inevitável. É como um impulso que Flora não consegue evitar.
E é por isso, diz, que sempre está só. Os homens com quem sai nunca conseguem satisfazê-la. Acham a meia brega. E não usar meias lhe dá náuseas.
Mas, penso, eles até devem ter razão! Imagina só, no meio da empolgação, nua em pêlo, a mulher sempre pára tudo, abre bolsa, cata um par de soquetes e veste. Sem dar explicação.
quarta-feira, julho 12, 2006
A machadinha
.
Hilda tinha uma machadinha. Ganhou de presente do Doca. Mas não foi um presente qualquer.
Não que ganhar uma machadinha de presente do marido seja coisa comum. Mas poderia ser um presente digamos... terno, carinhoso ou até exótico se o marido tivesse ido até uma loja, olhado cada objeto com atenção e escolhido o que mais refletia o amor que sentia pela mulher.
Mas não foi assim. Hilda foi quem pediu a machadinha. Pediu não: exigiu.
Quis a machadinha quando descobriu que Doca a traia. Pois ele de birra foi à loja, escolheu um belo exemplar, de cabo vermelho, amolou bem amolado e levou para a mulher. Ela recebeu, não agradeceu, enrolou em um pano de pratos e guardou no meio de suas calcinhas. "Eu ainda te mato com essa machadinha!", declarou.
A traição foi assim: o casal e dois filhos viviam numa cidadezinha da Paraíba. Já tinham passado por São Paulo, guardado algum dinheiro e como boa parte dos migrantes resolvido voltar pra terrinha. Depois de um tempo, o calor, o ócio e a falta de dinheiro voltaram a apertar e eles decidiram apostar de novo no Sul.
Diferente da maioria dos casais, foi a mulher quem voltou pra São Paulo. Tinha contatos, antigas patroas e, avaliou, podia conseguir um emprego primeiro e preparar o retorno da família.
Mas a solidão é um osso difícil de roer para o homem que adora dizer que é macho. Dois meses sem uma mulher foi o limite para Doca: arrumou uma amante, mulher de um vigia noturno. Tinham encontros todas as noite, na casa dela. Ele esperava as crianças dormirem e, pra não fazer barulho e correr o risco de acordar alguém, saia e chegava em casa empurrando a moto.
Grande idéia essa do Doca! O plano era perfeito, as crianças tinham sono pesado, mas (olha aí o imponderável!) a família tinha uma vizinha (sempre há uma vizinha pra atrapalhar ou salvar a nossa vida). E ela ligou para Hilda.
A mulher enfurecida voltou no dia seguinte pra sua cidade, sem contar pra ninguém (só a vizinha sabia). Até comprou uma passagem de avião à prestação. Passou o dia todo na vizinha, escondida. Ouviu o marido brigando para os meninos irem logo pra cama. Viu as luzes do quarto dos garotos se apagarem. Viu seu marido empurrando a moto da garagem sorrateiramente. E estava lá, na sala, quando ele voltou de madrugada, quase amanhecendo. Foi um Deus nos acuda!
Pra encurtar a história, até levar a mulher pra conhecer a amante ele foi obrigado. Depois da fúria, Hilda, de verdade, se divertia com a covardia do marido. E aí veio a idéia da machadinha.
Por isso que Hilda mantém até hoje a bichinha guardada, embrulhada no pano de pratos, no meio de suas calcinhas. Quando a coisa aperta, ela só fala: "Olha, Doca, que um dia eu ainda vou usar essa machadinha!"
Hilda tinha uma machadinha. Ganhou de presente do Doca. Mas não foi um presente qualquer.
Não que ganhar uma machadinha de presente do marido seja coisa comum. Mas poderia ser um presente digamos... terno, carinhoso ou até exótico se o marido tivesse ido até uma loja, olhado cada objeto com atenção e escolhido o que mais refletia o amor que sentia pela mulher.
Mas não foi assim. Hilda foi quem pediu a machadinha. Pediu não: exigiu.
Quis a machadinha quando descobriu que Doca a traia. Pois ele de birra foi à loja, escolheu um belo exemplar, de cabo vermelho, amolou bem amolado e levou para a mulher. Ela recebeu, não agradeceu, enrolou em um pano de pratos e guardou no meio de suas calcinhas. "Eu ainda te mato com essa machadinha!", declarou.
A traição foi assim: o casal e dois filhos viviam numa cidadezinha da Paraíba. Já tinham passado por São Paulo, guardado algum dinheiro e como boa parte dos migrantes resolvido voltar pra terrinha. Depois de um tempo, o calor, o ócio e a falta de dinheiro voltaram a apertar e eles decidiram apostar de novo no Sul.
Diferente da maioria dos casais, foi a mulher quem voltou pra São Paulo. Tinha contatos, antigas patroas e, avaliou, podia conseguir um emprego primeiro e preparar o retorno da família.
Mas a solidão é um osso difícil de roer para o homem que adora dizer que é macho. Dois meses sem uma mulher foi o limite para Doca: arrumou uma amante, mulher de um vigia noturno. Tinham encontros todas as noite, na casa dela. Ele esperava as crianças dormirem e, pra não fazer barulho e correr o risco de acordar alguém, saia e chegava em casa empurrando a moto.
Grande idéia essa do Doca! O plano era perfeito, as crianças tinham sono pesado, mas (olha aí o imponderável!) a família tinha uma vizinha (sempre há uma vizinha pra atrapalhar ou salvar a nossa vida). E ela ligou para Hilda.
A mulher enfurecida voltou no dia seguinte pra sua cidade, sem contar pra ninguém (só a vizinha sabia). Até comprou uma passagem de avião à prestação. Passou o dia todo na vizinha, escondida. Ouviu o marido brigando para os meninos irem logo pra cama. Viu as luzes do quarto dos garotos se apagarem. Viu seu marido empurrando a moto da garagem sorrateiramente. E estava lá, na sala, quando ele voltou de madrugada, quase amanhecendo. Foi um Deus nos acuda!
Pra encurtar a história, até levar a mulher pra conhecer a amante ele foi obrigado. Depois da fúria, Hilda, de verdade, se divertia com a covardia do marido. E aí veio a idéia da machadinha.
Por isso que Hilda mantém até hoje a bichinha guardada, embrulhada no pano de pratos, no meio de suas calcinhas. Quando a coisa aperta, ela só fala: "Olha, Doca, que um dia eu ainda vou usar essa machadinha!"
segunda-feira, julho 10, 2006
Se encolhendo
.
Ele acordou naquela manhã e não quis levantar da cama. Dormir já tinha sido um sacrifício. O barulho da chuva... Ele sempre adorou dormir com o barulho da chuva, trovões ao longe, o cobertor quente. Porém, daquela vez, ouvir a chuva batendo na sua calha foi como ouvir marteladas que o impediam de relaxar. Onde ela estava?
A chuva insistente tinha decidido não parar e ele dormiu com seus pesadelos de sempre. Monstros que o alcançavam. Corrida por um mundo escuro e negro onde ele sempre escorregava. E, no final, a solidão doendo na alma. Mesmo quando estava acompanhado, ele sentia que acordava solitário, transpiração fria, respiração ofegante. Aquilo sempre se repetia.
Naquela manhã só incomum por causa da chuva que não parava, ele se encolheu ainda mais debaixo do cobertor, apertou seu travesseiro e quis voltar a ser criança. Criança, achou, não pensaria nela. Mas não conseguia ser criança. Sentia como homem que era. Pensar naquela mulher era parte da sua rotina. Acordar com ela todo dia, dirigir a ela seu primeiro pensamento era o seu tormento. Tormento que ele adorava e cultivava. Porque era tudo o que lhe tinha sobrado dela.
Com a chuva, porém, tudo era mais doloroso. Ele suportava a lembrança na rotina, mas a chuva lhe trazia um desejo por algo que não se completou. Uma culpa sem sentido já que nada acontece fora de sua época. Mas era como se ele já a tivesse perdido. Onde estaria aquela mulher?
Ele acordou naquela manhã e não quis levantar da cama. Dormir já tinha sido um sacrifício. O barulho da chuva... Ele sempre adorou dormir com o barulho da chuva, trovões ao longe, o cobertor quente. Porém, daquela vez, ouvir a chuva batendo na sua calha foi como ouvir marteladas que o impediam de relaxar. Onde ela estava?
A chuva insistente tinha decidido não parar e ele dormiu com seus pesadelos de sempre. Monstros que o alcançavam. Corrida por um mundo escuro e negro onde ele sempre escorregava. E, no final, a solidão doendo na alma. Mesmo quando estava acompanhado, ele sentia que acordava solitário, transpiração fria, respiração ofegante. Aquilo sempre se repetia.
Naquela manhã só incomum por causa da chuva que não parava, ele se encolheu ainda mais debaixo do cobertor, apertou seu travesseiro e quis voltar a ser criança. Criança, achou, não pensaria nela. Mas não conseguia ser criança. Sentia como homem que era. Pensar naquela mulher era parte da sua rotina. Acordar com ela todo dia, dirigir a ela seu primeiro pensamento era o seu tormento. Tormento que ele adorava e cultivava. Porque era tudo o que lhe tinha sobrado dela.
Com a chuva, porém, tudo era mais doloroso. Ele suportava a lembrança na rotina, mas a chuva lhe trazia um desejo por algo que não se completou. Uma culpa sem sentido já que nada acontece fora de sua época. Mas era como se ele já a tivesse perdido. Onde estaria aquela mulher?
sábado, julho 08, 2006
Não se assuste com o que escrevo
.
Nunca se assuste com o que eu escrevo
Eu não escrevo para te impressionar
Escrevo pra desabafar
Escrevo pra não esquecer
Escrevo o que já vi e muito do que já ouvi
Escrevo o que invento
Escrevo o que sinto
Não escrevo pra irritar
Não escrevo pra provocar
Não escrevo pra te expor
Não escrevo pra me auto-afirmar
Talvez escreva pra te alertar
Talvez escreva pra me alertar
Porque quando coloco as letras na tela muito do que sai é o que eu também preciso saber
Outro dia disseram algo como "baixa a bola, oh poço de sabedoria!"
Não me ofendi, mas não tenho a intenção de saber mais que ninguém
Só escrevo o que percebo e o que a minha intuição me diz
E, daí, escorregar isso da ponta dos dedos pro papel parece inevitável
Necessário até
Impossível de brecar
Comecei. Não consigo e não quero mais parar
Nunca se assuste com o que eu escrevo
Eu não escrevo para te impressionar
Escrevo pra desabafar
Escrevo pra não esquecer
Escrevo o que já vi e muito do que já ouvi
Escrevo o que invento
Escrevo o que sinto
Não escrevo pra irritar
Não escrevo pra provocar
Não escrevo pra te expor
Não escrevo pra me auto-afirmar
Talvez escreva pra te alertar
Talvez escreva pra me alertar
Porque quando coloco as letras na tela muito do que sai é o que eu também preciso saber
Outro dia disseram algo como "baixa a bola, oh poço de sabedoria!"
Não me ofendi, mas não tenho a intenção de saber mais que ninguém
Só escrevo o que percebo e o que a minha intuição me diz
E, daí, escorregar isso da ponta dos dedos pro papel parece inevitável
Necessário até
Impossível de brecar
Comecei. Não consigo e não quero mais parar
sexta-feira, julho 07, 2006
Pasta suspensa
.
Como tua secretária
Eu te coloquei num envelope pardo
E te arquivei
Te depositei naquele arquivo cinza
Móvel enorme de aço, de gavetas gigantes
Emperradas e barulhentas
Te pus numa pasta suspensa
Mas não te inventei um título
E nem te lacrei
Quem sabe um dia
Te consulto de novo
E te desarquivo de vez
Como tua secretária
Eu te coloquei num envelope pardo
E te arquivei
Te depositei naquele arquivo cinza
Móvel enorme de aço, de gavetas gigantes
Emperradas e barulhentas
Te pus numa pasta suspensa
Mas não te inventei um título
E nem te lacrei
Quem sabe um dia
Te consulto de novo
E te desarquivo de vez
terça-feira, julho 04, 2006
Descobrindo a roda
.
Seu sorriso maroto me acorda todas as manhãs
O cheiro incomoda, mas não importa. Ele desaparece
Encolhe suas pernas e encaixa seus joelhos no meu ventre
Enrolamos mãos e braços e tentamos não misturar nossos hálitos
Cochilamos, acordamos, cochilamos de novo
Isso tudo é como uma brincadeira
Você é a parte mais importante de mim
É a melhor coisa que tenho
É o calor que não quero perder
Chora de manha, me olha de lado, finge dores e problemas
Fala verdades absolutas
Descobre a roda todo dia
É personagem de histórias fantásticas
Você é minha vida
Te beijo sem parar e você ri de dar gosto
Pede cócegas, manda em tudo, desorganiza o mundo
Me beija escondido enquanto finjo que durmo
Me leva até o carro e faz setas para eu estacionar
Estou a seus pés, mas sei que te controlo
Está em meu colo, mas sei que um dia partirá
Mas estaremos juntas até a vida
Sabemos porque não cabemos dentro nós
Somos maior que nós mesmas e ninguém, ninguém, nos poupará
Seu sorriso maroto me acorda todas as manhãs
O cheiro incomoda, mas não importa. Ele desaparece
Encolhe suas pernas e encaixa seus joelhos no meu ventre
Enrolamos mãos e braços e tentamos não misturar nossos hálitos
Cochilamos, acordamos, cochilamos de novo
Isso tudo é como uma brincadeira
Você é a parte mais importante de mim
É a melhor coisa que tenho
É o calor que não quero perder
Chora de manha, me olha de lado, finge dores e problemas
Fala verdades absolutas
Descobre a roda todo dia
É personagem de histórias fantásticas
Você é minha vida
Te beijo sem parar e você ri de dar gosto
Pede cócegas, manda em tudo, desorganiza o mundo
Me beija escondido enquanto finjo que durmo
Me leva até o carro e faz setas para eu estacionar
Estou a seus pés, mas sei que te controlo
Está em meu colo, mas sei que um dia partirá
Mas estaremos juntas até a vida
Sabemos porque não cabemos dentro nós
Somos maior que nós mesmas e ninguém, ninguém, nos poupará
segunda-feira, julho 03, 2006
Vamos reinventar
.
É possível reinventar o amor? Estou convencida que sim.
Ainda não sei de que forma, de que jeito, com qual técnica, mas me custa o ceticismo. Não sei ser incrédula. O otimismo é a minha marca.
A vida sem paixão não me basta mais.
Por isso, prefiro apostar na reinvenção do sentimento para não perdê-lo.
Hoje li Carpinejar. Talvez por isso tenha me convencido de vez. A dúvida que ainda pairava no ar se esvaneceu. Ele escreve sobre o amor:
É impossível fingir. Por isso, só resta reinventar. Aceitar que a mudança é definitiva e continuar. Usar essa energia mágica que esquenta e esfria o coração a cada décimo de segundo e trabalhar.
Saber que o amor não nos pertence, mas também não pertence ao outro. Portanto, não pode ficar enclausurado no peito da gente, sem destino, sufocado. Tem que vazar, mostrar sua alegria, mostrar sua forma de ser.
É essa a minha disposição.
E também é a minha esperança. Esperança que também tinha de ser sua.
Talvez, reinventado, o sentimento possa também se reencontrar. Em outro lugar
É possível reinventar o amor? Estou convencida que sim.
Ainda não sei de que forma, de que jeito, com qual técnica, mas me custa o ceticismo. Não sei ser incrédula. O otimismo é a minha marca.
A vida sem paixão não me basta mais.
Por isso, prefiro apostar na reinvenção do sentimento para não perdê-lo.
Hoje li Carpinejar. Talvez por isso tenha me convencido de vez. A dúvida que ainda pairava no ar se esvaneceu. Ele escreve sobre o amor:
"É uma encruzilhada colocar a casa para fora da boca. Abrir-se. Expor-se de tal modo que não se pode retornar ao que julgávamos nossa vida, ao que acreditávamos nosso lar, ao que confiávamos como nossas convicções e nossa ordem. Como confessar uma paixão e depois fingir que isso não mexeu com a gente e retomar o trabalho e a disciplina dos dias como se fosse comum?"
É impossível fingir. Por isso, só resta reinventar. Aceitar que a mudança é definitiva e continuar. Usar essa energia mágica que esquenta e esfria o coração a cada décimo de segundo e trabalhar.
Saber que o amor não nos pertence, mas também não pertence ao outro. Portanto, não pode ficar enclausurado no peito da gente, sem destino, sufocado. Tem que vazar, mostrar sua alegria, mostrar sua forma de ser.
É essa a minha disposição.
E também é a minha esperança. Esperança que também tinha de ser sua.
Talvez, reinventado, o sentimento possa também se reencontrar. Em outro lugar
domingo, julho 02, 2006
Número alto ou número baixo
"Vam'bora seu Benê!"
Tenho saudades do seu Benê. Motorista do Diário do Grande ABC, conhecia tudo na periférica Mauá. Qualquer rua, de qualquer bairro. Tinha sido motorista da Eletropaulo, levava a equipe para instalar os postes de iluminação nos confins da região. "Vocês querem ir na rua em número alto ou número baixo?" Era a pergunta clássica que fazia pra gente, a reduzida equipe móvel da sucursal, no início dos 90: eu, Chico e Anahi. Ele queria saber por qual ponta da rua devia chegar. Pra gente era o máximo: nos bairros de Mauá as ruas eram todas tortas, tinham normalmente surgido de um loteamento clandestino, sem planejamento... Como o cara sabia só pelo nome por qual lado devia chegar???!!!
É que ele conhecida tudo por lá. Quando a gente estava de saco cheio, era só falar: "Seu Benê, vamos passear". Ele nos mostrava os lugares mais bucólicos de Mauá, pedaços com cara de sítio, serra, lindo mesmo. Era difícil acreditar porque estávamos em Mauá.
Seu Benê era um cara incomum. Meio sábio, meio pai, companheiro acima de tudo. Sempre contava com algum constrangimento que já tinha sido "muito errado nesta vida". Nada demais, na verdade: tomou porres homéricos, chegou de quatro em casa várias vezes, fez a mãe chorar um bocado, quebrou corações. Mas era um cara "redimido". Era um homem apaixonado. A mulher dele, acho que chamava-se Lídia, era o seu grande amor. A mulher que o tirou "daquela vida". Tinha filhos que pareciam seus netos e era mesmo um homem feliz.
Não sei ao certo em que ano seu Bebê ficou doente. Acho que teve gota. Já não estava mais no Diário. Fui visitá-lo no hospital, ele havia perdido uma perna e chorava. "Como eu vou fazer Vivi? Meu filho está com vergonha!" O moleque tinha uns 12 anos. Mas não estava com vergonha. Estava arrasado com a doença do pai. Dias depois seu Benê morreu. Grande perda, seu Benê. Bons tempos, seu Benê.
Tenho saudades do seu Benê. Motorista do Diário do Grande ABC, conhecia tudo na periférica Mauá. Qualquer rua, de qualquer bairro. Tinha sido motorista da Eletropaulo, levava a equipe para instalar os postes de iluminação nos confins da região. "Vocês querem ir na rua em número alto ou número baixo?" Era a pergunta clássica que fazia pra gente, a reduzida equipe móvel da sucursal, no início dos 90: eu, Chico e Anahi. Ele queria saber por qual ponta da rua devia chegar. Pra gente era o máximo: nos bairros de Mauá as ruas eram todas tortas, tinham normalmente surgido de um loteamento clandestino, sem planejamento... Como o cara sabia só pelo nome por qual lado devia chegar???!!!
É que ele conhecida tudo por lá. Quando a gente estava de saco cheio, era só falar: "Seu Benê, vamos passear". Ele nos mostrava os lugares mais bucólicos de Mauá, pedaços com cara de sítio, serra, lindo mesmo. Era difícil acreditar porque estávamos em Mauá.
Seu Benê era um cara incomum. Meio sábio, meio pai, companheiro acima de tudo. Sempre contava com algum constrangimento que já tinha sido "muito errado nesta vida". Nada demais, na verdade: tomou porres homéricos, chegou de quatro em casa várias vezes, fez a mãe chorar um bocado, quebrou corações. Mas era um cara "redimido". Era um homem apaixonado. A mulher dele, acho que chamava-se Lídia, era o seu grande amor. A mulher que o tirou "daquela vida". Tinha filhos que pareciam seus netos e era mesmo um homem feliz.
Não sei ao certo em que ano seu Bebê ficou doente. Acho que teve gota. Já não estava mais no Diário. Fui visitá-lo no hospital, ele havia perdido uma perna e chorava. "Como eu vou fazer Vivi? Meu filho está com vergonha!" O moleque tinha uns 12 anos. Mas não estava com vergonha. Estava arrasado com a doença do pai. Dias depois seu Benê morreu. Grande perda, seu Benê. Bons tempos, seu Benê.
sábado, junho 24, 2006
Sem escrever
Ando sem vontade de escrever.
Fase difícil essa.
Quando não escrevo, parece que vou sufocando, murchando.
Pensamentos acumulados que não encontram formulação.
Pensamentos acumulados que não encontram sentido.
Lembro: como são estranhos blogs encerrados, com recados do tipo "pessoal, acabou".
Tenho excesso de histórias.
O que está em falta é aquele impulso de fazer.
Um pouco de prática, de ser prática, talvez.
Fase difícil essa.
Quando não escrevo, parece que vou sufocando, murchando.
Pensamentos acumulados que não encontram formulação.
Pensamentos acumulados que não encontram sentido.
Lembro: como são estranhos blogs encerrados, com recados do tipo "pessoal, acabou".
Tenho excesso de histórias.
O que está em falta é aquele impulso de fazer.
Um pouco de prática, de ser prática, talvez.
quarta-feira, junho 14, 2006
Nudez
Ele achou que a nudez podia ser um sinal de possibilidades mil. Mas, pra ela, a nudez era só sinal de liberdade no meio às flores, na beira do rio, embaixo do sol.
Ele não entendeu nada, mas pra não virar um criminoso aceitou, não sem amargor, revolta do desejo.
Ele até que foi forte. Diante dos espinhos, a carregou no colo. Ela se comportou como um bibelô frio e quase o enlouqueceu. Não admitia a vontade alheia e não se importava em não fazer o que não lhe daria prazer.
No final, mesmo herói, ele se sentiu um vilão.
No final, mesmo intacta, ela virou uma cadela. Para ele, uma qualquer.
Ele não entendeu nada, mas pra não virar um criminoso aceitou, não sem amargor, revolta do desejo.
Ele até que foi forte. Diante dos espinhos, a carregou no colo. Ela se comportou como um bibelô frio e quase o enlouqueceu. Não admitia a vontade alheia e não se importava em não fazer o que não lhe daria prazer.
No final, mesmo herói, ele se sentiu um vilão.
No final, mesmo intacta, ela virou uma cadela. Para ele, uma qualquer.
segunda-feira, junho 12, 2006
Acabou
.... e o dia veio e já se foi...
Acabou.
Deixei ele vir e me atropelar
Parei só pra ele me olhar, me encarar, me angustiar
Mas ele não conseguiu.
Eu consegui.
Segui. Ele se foi
Fico eu aqui, de novo, só
Até ele voltar. O dia
Acabou.
Deixei ele vir e me atropelar
Parei só pra ele me olhar, me encarar, me angustiar
Mas ele não conseguiu.
Eu consegui.
Segui. Ele se foi
Fico eu aqui, de novo, só
Até ele voltar. O dia
quarta-feira, junho 07, 2006
Sem gritar
Ela cresceu ouvindo a mãe gritar: "Eu quero sumir!!"
Criança, sofria e chorava com o desabafo materno, a raiva colocada naquela voz, a culpa por talvez ser o motivo do desejo. "O que fiz de tão errado?", se perguntava.
Menina-moça, foi aprendendo a lidar com aquilo. Os brados maternos continuavam, mas ela passou a considerá-los uma frescura, um jogo de cena, a histeria de uma mulher que queria atenção, que não se resolvia.
Ela cresceu. Ela não grita. Mas hoje entende o desejo da mãe. Porque o berro está parado na sua garganta, em vários dias, de várias semanas. E ela não se permitirá gritar.
Não é o desejo real de sumir do mundo, não é o sumir da visão dos outros. Na verdade, o sumir é dela mesma. É uma vontade de sentir que não está lá, que não vê, que não escuta, que não percebe, que não intui. Mas de si mesmo ninguém foge.
Não é nem o desejo de morrer. É o desejo de não ser. De simplesmente nunca ter sido.
É contraditário porque ela adora a vida. Adora viver com as pessoas. E adora a sua própria vida. Pensa: a vida é próspera e tem lhe dado tudo. Tudo.
Mas a dor que a atinge é uma dor que se compara à da morte. A dor da morte por algo que simplesmente deixou de ser, que não tem mais volta, que não tem mais conserto, que ela não quer mais, mas que não queria que acabasse. Porque o chão a partir do qual ela construiu sua vida começou a se mover. Ela mudou. E ela não sabe o que virá. O que vai colocar no lugar do que se foi?
Ela descobriu algo obscuro nela e com isso terá de viver. Sem gritar.
Criança, sofria e chorava com o desabafo materno, a raiva colocada naquela voz, a culpa por talvez ser o motivo do desejo. "O que fiz de tão errado?", se perguntava.
Menina-moça, foi aprendendo a lidar com aquilo. Os brados maternos continuavam, mas ela passou a considerá-los uma frescura, um jogo de cena, a histeria de uma mulher que queria atenção, que não se resolvia.
Ela cresceu. Ela não grita. Mas hoje entende o desejo da mãe. Porque o berro está parado na sua garganta, em vários dias, de várias semanas. E ela não se permitirá gritar.
Não é o desejo real de sumir do mundo, não é o sumir da visão dos outros. Na verdade, o sumir é dela mesma. É uma vontade de sentir que não está lá, que não vê, que não escuta, que não percebe, que não intui. Mas de si mesmo ninguém foge.
Não é nem o desejo de morrer. É o desejo de não ser. De simplesmente nunca ter sido.
É contraditário porque ela adora a vida. Adora viver com as pessoas. E adora a sua própria vida. Pensa: a vida é próspera e tem lhe dado tudo. Tudo.
Mas a dor que a atinge é uma dor que se compara à da morte. A dor da morte por algo que simplesmente deixou de ser, que não tem mais volta, que não tem mais conserto, que ela não quer mais, mas que não queria que acabasse. Porque o chão a partir do qual ela construiu sua vida começou a se mover. Ela mudou. E ela não sabe o que virá. O que vai colocar no lugar do que se foi?
Ela descobriu algo obscuro nela e com isso terá de viver. Sem gritar.
domingo, junho 04, 2006
Balões...
.
O céu estava salpicado de balões naquele dia de inverno de 1970.
Balões de todas as formas... de todas as cores...
Balões em forma de estrela, de bola, de bota, de balão...
Balões azuis, verdes, amarelos, vermelhos, coloridos...
O céu límpido...
E a menina parada no pátio olhando pro céu...
Era quase possível tocar nos balões...
A menina parada no pátio...
Muitas crianças correndo a sua volta...
A menina parada...
O chão de paralelepípedos...
A menina.
A menina.
O céu estava salpicado de balões naquele dia de inverno de 1970.
Balões de todas as formas... de todas as cores...
Balões em forma de estrela, de bola, de bota, de balão...
Balões azuis, verdes, amarelos, vermelhos, coloridos...
O céu límpido...
E a menina parada no pátio olhando pro céu...
Era quase possível tocar nos balões...
A menina parada no pátio...
Muitas crianças correndo a sua volta...
A menina parada...
O chão de paralelepípedos...
A menina.
A menina.
sábado, maio 27, 2006
Sexo
Teve época que tive vergonha do sexo. Acordar nua numa barraca na praia com o sol brilhando do lado de fora, ou ser flagrada por amigos entrando em um motel, era constrangedor.
Depois, achei que sexo era loucura e risco. À luz do dia, em pedras de riachos, cachoeiras, em salas ou quartos ou banheiros de casas de família enquanto a família dormia ou se distraia.
Mais tarde, com filhos, temi que sexo fosse só obrigação, um cumprir tabela, um algo a mais pra fazer.
Como boa aluna e curiosa, fui aprendendo que sexo deve ser o experimentar, o se arriscar, o se entregar.
Hoje, penso que sexo também tem que ser doce, terno e pleno. Tem de estar envolvido com paixão, confiança e segurança.
Por hora, ainda não concluo nada. Na metade que espero estar de minha vida, acho que de sexo ainda tenho muito que aprender.
Depois, achei que sexo era loucura e risco. À luz do dia, em pedras de riachos, cachoeiras, em salas ou quartos ou banheiros de casas de família enquanto a família dormia ou se distraia.
Mais tarde, com filhos, temi que sexo fosse só obrigação, um cumprir tabela, um algo a mais pra fazer.
Como boa aluna e curiosa, fui aprendendo que sexo deve ser o experimentar, o se arriscar, o se entregar.
Hoje, penso que sexo também tem que ser doce, terno e pleno. Tem de estar envolvido com paixão, confiança e segurança.
Por hora, ainda não concluo nada. Na metade que espero estar de minha vida, acho que de sexo ainda tenho muito que aprender.
quarta-feira, maio 24, 2006
I used to love her
But I had do kill her
I used to love her
But I had to kill her
Boa balada essa do Guns... E nessa balada eu penso: vou me assassinar.
Na boa...
Quem me conhece sabe que ando com muito bom humor, mas é que tem hora que uma parte da gente que a gente ama quer matar a outra que não se encontra.
Como me disse um amigo ontem, nós não temos mais idade pra crise existencial...
Mas, eu retruco, por que não?
Ainda nem consegui assassinar de fato a outra parte!
Até gosto dela!
No final, acho que é isso: gosto mesmo mais é da outra parte... Quero mais é que ela sobreviva e vença a batalha!
Lá vem você pensar em voz alta: a Vivi ficou louca de vez!!
Fiquei não, amiga... Sempre fui. É que você se acostumou com a outra. Quer apostar??
I used to love her
But I had to kill her
Boa balada essa do Guns... E nessa balada eu penso: vou me assassinar.
Na boa...
Quem me conhece sabe que ando com muito bom humor, mas é que tem hora que uma parte da gente que a gente ama quer matar a outra que não se encontra.
Como me disse um amigo ontem, nós não temos mais idade pra crise existencial...
Mas, eu retruco, por que não?
Ainda nem consegui assassinar de fato a outra parte!
Até gosto dela!
No final, acho que é isso: gosto mesmo mais é da outra parte... Quero mais é que ela sobreviva e vença a batalha!
Lá vem você pensar em voz alta: a Vivi ficou louca de vez!!
Fiquei não, amiga... Sempre fui. É que você se acostumou com a outra. Quer apostar??
terça-feira, maio 16, 2006
Muito bom te ver
.
Foi muito bom te ver hoje...
No meio do caos desse dia, sua visão, pra mim, foi como um bálsamo, uma luz no fim do túnel.
Curiosa a minha reação.
Alguém falou seu nome, eu levantei a cabeça, te vi de longe, no meio da roda, e sai num impulso, meio sem pensar, pra simplesmente te falar oi.
...e o abraço foi tão inevitável, e foi tão sincero, e tão bondosamente quente....
Foi muito bom te ver hoje...
No meio do caos da minha vida, sua visão foi um alívio, uma lembrança do que é honesto e bom.
Curiosa a minha sensação.
Pensar que, a partir de um impulso, veio um sentimento tão leve! Depois do abraço um certo constrangimento, ninguém a entender nada, mas a saudades batendo forte, querendo falar mais.
...e o dia que estava amargo, e tão confuso, ficou um pouco mais doce e compreensível...
Foi muito bom mesmo te ver hoje!
Sei que esse não é o seu melhor momento, mas também não é meu.
Mas talvez essa seja a nossa magia.
Porque, ao te ver, e te ouvir, hoje eu senti vontade de rir sem parar.
Talvez porque você tenha sido um exemplo sempre.
Talvez porque você nunca tenha me condenado por nada.
Talvez porque você tenha entendido o que parecia incompreensível.
Talvez porque você nunca tenha deixado de ser você.
Foi muito bom te ver hoje...
No meio do caos desse dia, sua visão, pra mim, foi como um bálsamo, uma luz no fim do túnel.
Curiosa a minha reação.
Alguém falou seu nome, eu levantei a cabeça, te vi de longe, no meio da roda, e sai num impulso, meio sem pensar, pra simplesmente te falar oi.
...e o abraço foi tão inevitável, e foi tão sincero, e tão bondosamente quente....
Foi muito bom te ver hoje...
No meio do caos da minha vida, sua visão foi um alívio, uma lembrança do que é honesto e bom.
Curiosa a minha sensação.
Pensar que, a partir de um impulso, veio um sentimento tão leve! Depois do abraço um certo constrangimento, ninguém a entender nada, mas a saudades batendo forte, querendo falar mais.
...e o dia que estava amargo, e tão confuso, ficou um pouco mais doce e compreensível...
Foi muito bom mesmo te ver hoje!
Sei que esse não é o seu melhor momento, mas também não é meu.
Mas talvez essa seja a nossa magia.
Porque, ao te ver, e te ouvir, hoje eu senti vontade de rir sem parar.
Talvez porque você tenha sido um exemplo sempre.
Talvez porque você nunca tenha me condenado por nada.
Talvez porque você tenha entendido o que parecia incompreensível.
Talvez porque você nunca tenha deixado de ser você.
sábado, maio 13, 2006
Monte de coisa alguma
(Aviso aos navegantes: esse texto vai ser um saco para quem não tem saco para bobagens e divagações. Melhor não ler. O próximo, prometo, será melhor)
Chego em casa nessa madrugada, não faz nem uma hora que sai da frente de um micro, e tudo em que eu penso é em me conectar de novo. Eu devo estar ficando retardada... Mas não consigo parar de pensar... e respirar fundo... e relaxar.
Devia chegar louca pra ir pra cama, deitar com as duas criaturas que lá me esperam, e que amam, e que me querem, mas eu não consigo... Minha cabeça vai a mil por hora, enquanto meu corpo dói de ponta a ponta.
Mas não penso nada que preste. Nem consigo escrever nada que valha. Me sinto fria como um iceberg, oca e mergulhada numa escuridão que não tem fim. Mas sem culpa. Quem quiser, que me leia e me escute. Tô me lixando.
Solidão...
Outro dia a Bia, com seus 5 anos, me disse que estava só. Dei risada e ela me disse: Estou sozinha de você, mamãe... sozinha de você... sozinha de você... Não consigo esquecer essa frase. Mas não tenho nada pra fazer com ela. Talvez porque me sinta sozinha de mim há muito tempo.
Aqui na frente dessa tela, bebendo minha cerveja Itaipava numa tentativa inútil de tomar um porre, nesse delicioso silêncio da madrugada... Lá fora uma bela lua, o frio de novo seco... Aqui dentro, uma dor sem fim...
Hoje, eu me dei ao direito de mudar todas as rotinas e quebrar todas as promessas. Levei a Bia na escola, cheguei no jornal depois das duas, não fui beber com a Dani, não fui na festa do Hugo, não voltei pela avenida dos Estados, corri na Anchieta, reduzi em Santo André, cheguei em casa pela rua de cima... Tudo diferente pra ver se algo muda, se um milagre acontece...
Mas nada muda.
Daqui um mês faço 40...
É engraçado como esses dois algarismos têm mexido comigo. Quando penso neles e olho pro espelho só vejo marcas, manchas, fios brancos e olheiras. E sei que nem é tudo isso. Mas é isso que enxergo. Tenho impressão de que no dia 13 de junho, um dia depois do Dia D, vai estar tudo caído.
Por dentro, ironia, minha percepção do mundo e de mim passa por um revolução. Uma revolução que me dá medo... Que não sei se vou ver o fim. O fim...
Agora é o fim. Vou dormir.
Chego em casa nessa madrugada, não faz nem uma hora que sai da frente de um micro, e tudo em que eu penso é em me conectar de novo. Eu devo estar ficando retardada... Mas não consigo parar de pensar... e respirar fundo... e relaxar.
Devia chegar louca pra ir pra cama, deitar com as duas criaturas que lá me esperam, e que amam, e que me querem, mas eu não consigo... Minha cabeça vai a mil por hora, enquanto meu corpo dói de ponta a ponta.
Mas não penso nada que preste. Nem consigo escrever nada que valha. Me sinto fria como um iceberg, oca e mergulhada numa escuridão que não tem fim. Mas sem culpa. Quem quiser, que me leia e me escute. Tô me lixando.
Solidão...
Outro dia a Bia, com seus 5 anos, me disse que estava só. Dei risada e ela me disse: Estou sozinha de você, mamãe... sozinha de você... sozinha de você... Não consigo esquecer essa frase. Mas não tenho nada pra fazer com ela. Talvez porque me sinta sozinha de mim há muito tempo.
Aqui na frente dessa tela, bebendo minha cerveja Itaipava numa tentativa inútil de tomar um porre, nesse delicioso silêncio da madrugada... Lá fora uma bela lua, o frio de novo seco... Aqui dentro, uma dor sem fim...
Hoje, eu me dei ao direito de mudar todas as rotinas e quebrar todas as promessas. Levei a Bia na escola, cheguei no jornal depois das duas, não fui beber com a Dani, não fui na festa do Hugo, não voltei pela avenida dos Estados, corri na Anchieta, reduzi em Santo André, cheguei em casa pela rua de cima... Tudo diferente pra ver se algo muda, se um milagre acontece...
Mas nada muda.
Daqui um mês faço 40...
É engraçado como esses dois algarismos têm mexido comigo. Quando penso neles e olho pro espelho só vejo marcas, manchas, fios brancos e olheiras. E sei que nem é tudo isso. Mas é isso que enxergo. Tenho impressão de que no dia 13 de junho, um dia depois do Dia D, vai estar tudo caído.
Por dentro, ironia, minha percepção do mundo e de mim passa por um revolução. Uma revolução que me dá medo... Que não sei se vou ver o fim. O fim...
Agora é o fim. Vou dormir.
quinta-feira, maio 11, 2006
Verão Inverno
Eles se conheceram no réveillon, o melhor réveillon de suas vidas. Corpos morenos do Verão, roupas brancas, Copacabana inundada de gente, velas e flores para Iemanjá. Depois, festa com gente descolada. Ela o viu enquanto ele já a examinava. Ela tão linda, com um decote tão bondoso e uma saia tão curta, que sabia: era a caça e também caçava. Ele, voraz, só se aproximou e falou. O jogo estava ganho.
Fim de festa, ela nem se importou com seus amigos. Foi com ele pra praia, molhar os pés no amanhecer. Seguiram pra algum apartamento, que ela nunca saberia dizer onde era, entraram em um quarto e se afundaram no colchão que estava jogado no chão...
No meio da manhã, ela pegou suas coisas e saiu, como uma anônima, mas levou o número de um telefone marcado em um pedaço de guardanapo de papel. Pensava: "Ligo pra ele depois". Chegou de táxi em São Clemente, na casa dos amigos, com as sandálias na mão. Feliz, dormiu e acordou debaixo do sol. Aí veio a notícia: "Você não tem mais nenhum dia aqui."
Atordoada, percebeu que o guardanapo se perdera, talvez no táxi, talvez no banheiro, talvez na sua bolsa. Queria vê-lo mais uma vez. A amiga ligou, então, para uma conhecida, que ligou para uma prima, que também estava na festa, e conhecia o dono da casa, que sabia qual de seus camaradas havia levado lá aquele cara, que entrou sem convite. Uma hora depois, seu telefone tocou. "Vamos sair hoje mais uma vez?"
Foram jantar. Passearam pelas calçadas da Lagoa, de mãos dadas, como velhos namorados, ficaram mais uma noite e fizeram todas as promessas que não devem ser feitas nunca a ninguém. E na manhã do dia seguinte, ela partiu. Mas ele não sumiu.
Telefonemas, e-mails, cartas, cartões, tudo dele a alcançava. Nos primeiros meses, ele saia do Rio para visitá-la em São Paulo e os dois curtiam a vida em quartos de luxo nos hotéis de várias estrelas da cidade.
No Carnaval, ele alugou uma quitinete em Copacabana. Levou os dois filhos: era um casal. A menina tinha 15 e o garoto, 5. Passaram, felizes, o feriadão, passeando entre travestis e transformistas na orla da praia, dançando em bailes chiques, comendo com as crianças em lanchonetes festivas, mas dormindo amontoados na falta de espaço.
Na Quaresma, porém, a vida começou a mudar. Porque a Quaresma trás o Outono e no Outono o tempo esfria e as folhas e as máscaras começam a cair. Algo não ia bem. Os contatos eram estranhos. Na Páscoa, ela mentiu para os pais e viajou de novo para o Rio. Lá, nada de intimidades em hotéis simpáticos ou aps emprestados. Ficaram no quartinho de empregada que ele alugava no apartamento de um velho casal, do lado de lá do túnel, muito longe da praia.
Como sempre, colchão no chão. Mas, desta vez, ele deitou na cama.
Foi aí que ele lhe deu a sua facada: "Se você mente para os seus como vou ter certeza que não mente pra mim?". O ataque enjoou o seu estômago, amargou a sua boca e ela chorou sangue de raiva. A desconfiança é péssima companhia do amor. Ela voltou pra casa, desanimada, mas ainda com esperança de que tudo não passava de um dia ruim.
A vida seguiu e ele voltou para São Paulo, para a casa de sua mãe. Começaram a se ver em hotéizinhos modestos e decadentes do Centro da cidade. Ele havia perdido o emprego no Rio e ela decidira mudar de emprego em São Paulo. Ele não gostou. Ela nem ligou. A opinião de seus parceiros nunca a fez parar. Foi por essa época que ela começou a organizar sua festa de aniversário. Comemoraria os 22. Ele já tinha 30.
Festa no sábado. Ela morava no Tatuapé. Ele no Capão. Apareceu com um amigo esquisito num Corcel preto. Ela não gostou. Mas foi simpático e, ela pensou, tudo ia dar certo. A festa correu bem, amigos e mais amigos, ele não se enturmou e partiu cedo: "Nos vemos amanhã".
O dia importante era o amanhã. Domingo. Era o dia do aniversário dela. Ligou pra ele: "Vamos sair?". "Não, vem pra minha casa". Ela não sabia onde ele morava. Ele explicou e ela pegou o ônibus e depois o outro ônibus, até o ponto final, no bairro humilde da Zona Sul.
Já era Inverno. Pouca gente na rua e o frio congelava os ossos de todos. Na pequena casa, a mãe fazia coxinhas pra fora, enquanto ele, dois irmãos e as duas crianças se amontoavam embaixo de cobertores velhos em dois sofás comprados nas Casas Bahia. Todos assistiam Silvio Santos. Ela entrou e ninguém se mexeu. Nem ele.
Ficou lá, na cozinha com a velha senhora, ele vendo TV e a tarde passando. E ela se perguntando o que fazia lá!
Quase noite, ela decidiu partir. E pediu: "Você me leva até o terminal?" Ela tinha medo daquele lugar onde estava, do lugar onde ele morava. Não queria sair de lá sozinha. Mal-humorado, ele trocou de roupa e foi com ela. Quase uma hora até o terminal, os dois nos últimos lugares do ônibus que sacolejava em ruas esburacadas. Eles conversavam, mas não se entendiam.
No terminal, ele já grosseiro, ela olhou aquele chuvisco cinza, e finalmente percebeu que se cansou de ter esperança. Olhou pra ele com um certo prazer... Ali chegara a sua vez de dar o troco. Ia dar-lhe uma bela facada. Estavam no meio da plataforma. Ela tinha cara de anjo e ele não esperava isso dela. O acertou no meio do peito e disse "foda-se", virou as costas e o largou lá, deitado no chão que tanto gostava, sangrando.
Nunca mais soube dele. Ele nunca mais soube dela. Os dois pegaram seus ônibus e choraram até chegar em suas casas. E depois, simplesmente, se esqueceram.
Fim de festa, ela nem se importou com seus amigos. Foi com ele pra praia, molhar os pés no amanhecer. Seguiram pra algum apartamento, que ela nunca saberia dizer onde era, entraram em um quarto e se afundaram no colchão que estava jogado no chão...
No meio da manhã, ela pegou suas coisas e saiu, como uma anônima, mas levou o número de um telefone marcado em um pedaço de guardanapo de papel. Pensava: "Ligo pra ele depois". Chegou de táxi em São Clemente, na casa dos amigos, com as sandálias na mão. Feliz, dormiu e acordou debaixo do sol. Aí veio a notícia: "Você não tem mais nenhum dia aqui."
Atordoada, percebeu que o guardanapo se perdera, talvez no táxi, talvez no banheiro, talvez na sua bolsa. Queria vê-lo mais uma vez. A amiga ligou, então, para uma conhecida, que ligou para uma prima, que também estava na festa, e conhecia o dono da casa, que sabia qual de seus camaradas havia levado lá aquele cara, que entrou sem convite. Uma hora depois, seu telefone tocou. "Vamos sair hoje mais uma vez?"
Foram jantar. Passearam pelas calçadas da Lagoa, de mãos dadas, como velhos namorados, ficaram mais uma noite e fizeram todas as promessas que não devem ser feitas nunca a ninguém. E na manhã do dia seguinte, ela partiu. Mas ele não sumiu.
Telefonemas, e-mails, cartas, cartões, tudo dele a alcançava. Nos primeiros meses, ele saia do Rio para visitá-la em São Paulo e os dois curtiam a vida em quartos de luxo nos hotéis de várias estrelas da cidade.
No Carnaval, ele alugou uma quitinete em Copacabana. Levou os dois filhos: era um casal. A menina tinha 15 e o garoto, 5. Passaram, felizes, o feriadão, passeando entre travestis e transformistas na orla da praia, dançando em bailes chiques, comendo com as crianças em lanchonetes festivas, mas dormindo amontoados na falta de espaço.
Na Quaresma, porém, a vida começou a mudar. Porque a Quaresma trás o Outono e no Outono o tempo esfria e as folhas e as máscaras começam a cair. Algo não ia bem. Os contatos eram estranhos. Na Páscoa, ela mentiu para os pais e viajou de novo para o Rio. Lá, nada de intimidades em hotéis simpáticos ou aps emprestados. Ficaram no quartinho de empregada que ele alugava no apartamento de um velho casal, do lado de lá do túnel, muito longe da praia.
Como sempre, colchão no chão. Mas, desta vez, ele deitou na cama.
Foi aí que ele lhe deu a sua facada: "Se você mente para os seus como vou ter certeza que não mente pra mim?". O ataque enjoou o seu estômago, amargou a sua boca e ela chorou sangue de raiva. A desconfiança é péssima companhia do amor. Ela voltou pra casa, desanimada, mas ainda com esperança de que tudo não passava de um dia ruim.
A vida seguiu e ele voltou para São Paulo, para a casa de sua mãe. Começaram a se ver em hotéizinhos modestos e decadentes do Centro da cidade. Ele havia perdido o emprego no Rio e ela decidira mudar de emprego em São Paulo. Ele não gostou. Ela nem ligou. A opinião de seus parceiros nunca a fez parar. Foi por essa época que ela começou a organizar sua festa de aniversário. Comemoraria os 22. Ele já tinha 30.
Festa no sábado. Ela morava no Tatuapé. Ele no Capão. Apareceu com um amigo esquisito num Corcel preto. Ela não gostou. Mas foi simpático e, ela pensou, tudo ia dar certo. A festa correu bem, amigos e mais amigos, ele não se enturmou e partiu cedo: "Nos vemos amanhã".
O dia importante era o amanhã. Domingo. Era o dia do aniversário dela. Ligou pra ele: "Vamos sair?". "Não, vem pra minha casa". Ela não sabia onde ele morava. Ele explicou e ela pegou o ônibus e depois o outro ônibus, até o ponto final, no bairro humilde da Zona Sul.
Já era Inverno. Pouca gente na rua e o frio congelava os ossos de todos. Na pequena casa, a mãe fazia coxinhas pra fora, enquanto ele, dois irmãos e as duas crianças se amontoavam embaixo de cobertores velhos em dois sofás comprados nas Casas Bahia. Todos assistiam Silvio Santos. Ela entrou e ninguém se mexeu. Nem ele.
Ficou lá, na cozinha com a velha senhora, ele vendo TV e a tarde passando. E ela se perguntando o que fazia lá!
Quase noite, ela decidiu partir. E pediu: "Você me leva até o terminal?" Ela tinha medo daquele lugar onde estava, do lugar onde ele morava. Não queria sair de lá sozinha. Mal-humorado, ele trocou de roupa e foi com ela. Quase uma hora até o terminal, os dois nos últimos lugares do ônibus que sacolejava em ruas esburacadas. Eles conversavam, mas não se entendiam.
No terminal, ele já grosseiro, ela olhou aquele chuvisco cinza, e finalmente percebeu que se cansou de ter esperança. Olhou pra ele com um certo prazer... Ali chegara a sua vez de dar o troco. Ia dar-lhe uma bela facada. Estavam no meio da plataforma. Ela tinha cara de anjo e ele não esperava isso dela. O acertou no meio do peito e disse "foda-se", virou as costas e o largou lá, deitado no chão que tanto gostava, sangrando.
Nunca mais soube dele. Ele nunca mais soube dela. Os dois pegaram seus ônibus e choraram até chegar em suas casas. E depois, simplesmente, se esqueceram.
Assinar:
Postagens (Atom)