quarta-feira, janeiro 24, 2007

Pelas beiradas

É que dói tanto que parece fome
Dói igual a um buraco no estômago que persiste durante muito tempo

Primeiro vem a dor aguda, insuportável, que tira a razão da gente
Depois, a dor desaparece e a fraqueza toma conta do corpo, da mente, da palavra

E vai aumentando...
aumentando...
aumentando....

Fica um tipo de letargia e é até possível esquecer dela

A gente esquece a dor
E o que a sacia, o que lhe corta, o seu sabor

Quando, enfim, se tem o alimento, não dá para comer tudo de um vez
Dá enjôos ver aquele excesso
O rosto se contorce de náusea
A língua não sente o sabor

Tem que se comer aos poucos, pelas beiradas
Primeiro o mais leve, um pouco mais a cada dia, sem pressa
Até o corpo se acostumar de novo com o outro

Eu já senti tanta saudades que, agora, já não sinto mais nada
Ela só não mata como a fome

Mas entristece e desgasta a alma

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Shock!

Escrevo o nome para não esquecer mais. Ou, se esquecer, poder consultar.

Shock é dança, é Smiths, é angústia, é noite antiga.

Shock já passou, acabou (por algum motivo que eu desconheço esse nome sempre me escapa e sempre me reencontra).

Shock! Agora eu não esqueço mais!

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Ménage à trois

A maldade feminina não tem mesmo limites.

Pois alguém pode me dizer por que aquelas duas mulheres ficaram falando sobre vibradores e sexo em grupo na frente daquela beata? A garota mal conseguia tirar os olhos da louça que lavava enquanto escutava a conversa, encabulada. Ela não tinha nem como sair da cozinha. Porque se saísse daria muita bandeira. E ela ficou, roxa de vergonha!

Eu te digo porque as duas fizeram isso: foi pura diversão. As duas nem combinaram. Mas, 'putas velhas', perceberam a falta de experiência da outra, que parecia mesmo não gostar na 'coisa'.
E, como se já tivessem usado algum instrumento a mais na cama ou mesmo fossem praticantes do 'ménage à trois', discorreram sobre o assunto como duas experts. E era puro teatro.

- Fui numa loja de produtos franceses e encontrei lá um vibrador que era uma graça. Era rosa e tinha até de formato de coelho!!
- Jura! Sou louca pra ter esse.

A coitada da beata nem abria a boca. Na verdade, mal respirava.

- De vez em quando a gente convida outra pra passar a noite lá em casa. Acho muito bom. Mas queria mesmo que fosse outro.
- Ah, isso é bem legal mesmo. Mas meu marido não gosta muito!

Duas cínicas essas donas. São tão 'normais' que dá até dó. Uma terceira pessoa na cama daria um divórcio. Nunca nem pegaram num vibrador. Nem fazem direito o papai-e-mamãe. A preguiça é uma constante e a dor de cabeça sempre a melhor desculpa pra dizer não.

Mas se sentiram o máximo cutucando a menina recém-casada, que era virgem até o matrimônio e sempre acreditou que sexo era só bom pra fazer bebê.


Na hora que a beata conseguiu se livrar a cozinha, elas se sentaram na mesa e morreram de rir.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Não

E ela agora vai furar a minha pele.
A agulha fina sugando a minha vida.
Não sinto dor, só a invasão.
E penso: o seu olhar terno me amolece.

Por uma vida você me oferece a sua mão.
E eu a afasto e digo não.
Você reclama e diz: 'você sempre diz não.'
Isso virou piada.

Eu aqui, meio virada, curtindo essa profunda solidão.
A vertigem passou, o nó foi desatado.
Agora, uma nova fase, um novo quarto.

'Me siga, tire a roupa, ponha um avental.'
'Deite, relaxe, ela já vem.'
Tudo é rápido, gelado, anti-séptico.

Pego o carro, quero ir embora, vou comer.
A vida corre. E eu, por você.

Sem você.

domingo, dezembro 31, 2006

A melhor parte chegou

Foram apenas 30 minutos da minha casa até o jornal.
A cidade vazia é a melhor parte desse plantão.

Enfim, 2006 acabou. O fim de ano chega tranqüilo, de um jeito que nem pude vislumbrar há alguns meses. Está como praia no fim de tarde.

Nada como o tempo mesmo para transformar situações, consolidar sentimentos e fortalecer convicções. E nada melhor do que ele para limpar a neblina que às vezes insiste em atrapalhar a nossa visão.
Os sentimentos continuam vibrando, como no início de 2006.
Mas o coração está pacificado, leve.

Escrevo aqui o que estou pensando, nessa solidão que é o Réveillon em um plantão. Solidão, mas com muita gente em volta. Pessoas sem vínculo para comemorar datas especiais, mas unidas por um osso imposto pelo trabalho. Faz parte.

E escrevo sem compromisso, como num confessionário. Como que sussurrando algo, que só eu escuto.

Não tenho desejos ambiciosos para 2007.
Mas quero muito continuar a me surpreender a cada dia. Comigo e com o mundo.

E, numa daquelas certezas esquisitas que às vezes sinto, sei que 2007 vai ser melhor que 2006.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Pós-Natal

Parece até milagre esse vento gelado batendo no meu rosto...
Preciso desse ar que diz que a serra está próxima, e o mar logo ali.

O calor infernal ficou para trás.
As tardes empapadas de suor, eu jogada num canto da casa íntima, porém estranha.

Membros inertes, cabeça pesada e confusa, ócio até saudável,
Mas que desesperadamente eterno!

Adoro essa terra!
Chego aqui e me delicio com o barulho na rua,
Com as milhares de luzes amarelas e brancas,
Com os prédios enormes, lindos e feios,
Com as construções bizarras,
Com os outdoors, os luminosos,
Com confusão diária da minha vida comum.

No meu quintal, de madrugada,
Respiro fundo, fecho os olhos e levito com o cheiro de biscoito.
Abro os braços, estou aqui.
Estou em casa.

domingo, dezembro 10, 2006

Ardil - Red Rose

A rosa era vermelha. Estava encaixada na persiana da janela onde ela havia dormido aquela noite. A janela era de madeira, daquele tipo que se usava nas casas antigas e que hoje em dia já não se encontra mais. E estava pintada de azul.
A flor vermelha se destacava de longe.
Quando a menina acordou e abriu a janela encontrou lá a rosa roubada, rubra, sua favorita. Nas folhas verdes, declarações de amor escritas com caneta fina preta. “Rosa de amor só vale se for roubada”, ela havia dito a ele na noite anterior.
E ele fez o seu capricho. Pulou o muro da casa da vizinha, baixo, feito mesmo para ser pulado, e arrancou a rosa, sem antes se machucar com seus espinhos.
E a deixou feliz.
A menina da metrópole se encantou com esse costume do interior. E, até por ser da metrópole, lhe choviam pretendentes. E ela decidiu namorar o que cumprisse o ritual. E ele cumpriu. A risca. “Meu amor, minha flor, você é tudo, você é linda, você quer ser minha?” Que tudo era aquilo para aquela menina!!! Declaração de amor tosca, infantil até, mas era o máximo naquele momento.
Foi seu primeiro namorado. Seu primeiro grande amor. Ela 15, ele 18. Ela linda, ele tímido. Ela virgem, ele no ponto. Ela da cidade grande, ele do interior.
A paixão foi tão avalassaladora que toda cidadezinha se envolveu. Todos torciam por eles.
O pai na cidade grande se assustou. “Se souber de algo que estrague sua reputação você não volta pra lá”, ameaçou. A parentalha se ocupou de protegê-los. As tias os levavam para as suas casas, não os deixavam namorar nas praças, na escada da igreja, nas esquinas. Os beijos mais íntimos eram dados dentro de saletas, nas varandas das chácaras, longe dos olhos maldosos. “Esse casal é lindo”, diziam, melosos.
Mas as férias acabaram e ela partiu. E ele ficou, prometendo amor e fidelidade eternos, chorando de saudades na porta do ônibus. Meses de namoro por cartas quase diárias eles tiveram.
Mas os hormônios da adolescência não param de ferver. E um dia chegou a carta derradeira: “Desculpe, mas me apaixonei por outra aqui. É melhor terminarmos.”
A traição é um tipo de navalha que entra no coração das pessoas. E foi a dor de uma navalhada que ela sentiu com aquela carta.
Não que estivesse só e fosse absolutamente fiel. Na verdade, já estava com outro na grande cidade, nos bailes de domingo já havia trocado beijos e mais beijos com vários e se sentia bem menos apaixonada do que nas férias. Mas a mulher traída, mesmo a adolescente, é terrível e ardilosa.
Ela chorou uma semana trancada em seu quarto e depois o esqueceu. Só sobrou o capricho que logo logo seria realizado.
Ele, por sua vez, comeu o pão que o diabo amassou na cidadezinha do interior. Filho da terra, se apaixonou por uma filha da terra, grande amiga da namoradinha da grande cidade. Mas nem o amor sincero os redimiram. Viraram traidores. A cidadezinha ignorante os maltratou e eles viraram um casal de parias. Ninguém os convidava pra nada, todos os consideravam traidores da jovem virgem da cidade. Mal sabiam que ela, na metrópole, já não chorava mais. Só tinha a raiva das traídas.
E quando, lá perto de um Natal, ela voltou pra cidadezinha, não sossegou enquanto não o reencontrou. Chegou e foi direto ao baile da cidade, onde todos estariam. Estava linda como nunca. E ele, quando a viu, quase enlouqueceu. E ela esperou até o fim. E ele levou a namorada pra casa. E ela fingiu que partiu, mas ficou lá, à espreita, no portão da casa dele, encostada em uma árvore. E, quando ele chegou, lá estava ela. Cínica, irônica e linda, perguntou chorosa? “Mas, por quê?” E ele não soube responder. Que falsa ela era. Já estava com outro, ou outros, e ele só queria ser feliz na cidadezinha do interior. Mas ela não sossegou até seduzi-lo e arrancar-lhe um longo beijo. Arrancaria mais se soubesse como. Mas ainda era virgem e um tanto inexperiente.
Despedida? Não. Vingança. Ela estava vingada da outra, que um dia tinha sido sua amiga naquela cidade do interior.
Ela dormiu feliz aquela noite. Seu sono foi profundo. Ele não dormiu. Sua consciência pesava. Como são bobos esses rapazes... Até hoje sua consciência pesa por causa daquele beijo no meio da madrugada na frente do seu portão.
Vinte anos se passaram. O casal foi perdoado pelos da cidadezinha. Se casaram em grande estilo, tiveram filhos lindos. Ele tem um bom emprego, a mulher cuida da casa. Ele vive a vida dos homens justos e normais, sem sustos ou aventuras. Parecem felizes.
Ela teve vários homens, se divertiu pela vida, rodou o mundo, mas um dia também cansou e resolveu arriscar a normalidade. Casou e teve filhos. Enfim, sossegou. De vez em quando, volta à cidadezinha e o encontra por acaso, em alguma esquina, na casa de algum parente. E ela ainda se diverte, porque até hoje ele não tem coragem de encará-la como alguém comum. Talvez a vergonha da traição, talvez o medo da mulher saber do último beijo, talvez o arrependimento de ter optado pelo comum e conhecido pouco do mundo. Quem vai saber?
Ela já não se importa mais. Mas não consegue vê-lo de longe ou de perto sem desenhar no seu rosto um sorriso um tanto quanto vitorioso.

sábado, dezembro 09, 2006

Poema emprestado

Por estar assim meio silenciada, empresto uma canção que adoro e que diz muito. Quem canta é o Ney Matogrosso. Composição: Cazuza / Frejat.

Poema

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás

domingo, dezembro 03, 2006

Ele de novo

Eu não faço por querer.
É só que às vezes me toma um silêncio ensurdecedor.
É contraditório porque, lá dentro, as vozes não calam.
O silêncio só se faz pra fora.
Nada sai de casa. Isso me desespera.
Parece que é de novo a paciência a me testar.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Sonho pra San

"Ele pula do penhasco direto pra água. Queria morrer. Ela olha, com o coração na mão. Ele afunda na água e submerge. Desaparece totalmente. De repente, ela vê as solas brancas de seus pés surgirem da água (mas por quê raios pelos pés?). Mas, espere, são dois pares de pés. O outro, é o dela própria. Em câmera lenta, os dois emergem aos poucos do fundo da água, de mãos dadas, e vão sentar na areia branca. E ficam lá, se curtindo. Ela no colo dele." Moral da história: ele afunda, ela vê, ela mesmo o salva e tudo termina como num conto de fadas que a Bia adora. Não combina com a vida, né?

Já que você quer falar de sonhos, vou te contar um sonho meu.
Sabe, não sou de dar muita bola pra sonhos. Ou melhor, de me impressionar com o seu significado, porque não vejo neles premonição, mas desejo, e quando a gente sabe o que quer não precisa deles. Eles às vezes confundem mais do que ajudam.
Mas até que um deles, há um ano mais ou menos, me incentivou a procurar amigos dos velhos tempos e foi bom. Na época, sonhei que voltava para Santo André onde eu fazia teatro, mas ela já não era mais a mesma. Como a vida que muda, a cidade naquele local havia sido 'urbanizada'. O local estava uma beleza, por sinal. Era uma praça arborizada. Nunca saí de Santo André, você sabe, mas pra mim é como se estivesse fora daqui sempre. Acho que é porque estudo e trabalho sempre rolaram fora daqui. Aqui é o meu refúgio noturno, meu lado família, minha parte mais íntima. O público está em Sampa.
Voltando ao sonho: não conhecia mais ninguém, mas quase todos que me viam me conheciam, lembravam de mim. A casa onde ensaiávamos era, no sonho, um tipo de hexágono, com uma sala ao centro e várias salas em volta, todas com portas pra esta sala central. Entrei e fui olhando cada cômodo e perguntando pelas pessoas, que naquele exato momento não estavam lá. E de repente, chegam várias, que eu não lembrava mais, quem eram, mas me conheciam. E me virei e lá estava o meu amigo, bem diferente por sinal. Quase não o reconheci, mas ele abriu a boca, falou algo que não lembro e eu acordei.
O sonho me emocionou tanto que resolvi procurá-lo. É engraçado que, no reencontro, acho que descobri que mudamos todos daquela turma, mas não muito. Lá no fundo, temos todos ainda nossos velhos defeitos, tentando superá-los quando o admitimos, mas também nossas melhores qualidades.
O sonho do sono me parece mais aquilo que queremos do que aquilo que vai se realizar. O sonho acordada me parece mais real, mais perigoso, mas mais prazeroso também. Eu, você sabe, ando sonhando demais. Mas prefiro assim. Sabe, amiga, sempre tive urgência de tudo, mas ultimamente tenho parado pra respirar. A vida me obriga a isto. E sinto que não devo ter mais pressa de nada, mas isso é difícil, porque implica eu mudança profunda. Só não posso parar de sonhar.
Agorinha, colocando a Bia pra dormir, só conseguia pensar no quanto é grande este amor que sinto por ela. Isso parece um sonho e é tão real. E disse que queria beijá-la aos montes e a danada, de olhos fechados, se aproximou ainda mais pra ficar perto dos meus beijos, ameaçando um sorrizinho maroto. É mais que um sonho, não é? É nessas horas que você acha que pode até morrer porque, até agora pelo menos, conseguiu fazer tudo que devia e podia do melhor jeito que sabia. É como o seu Chico lá no seu blog, dividindo sonhos com você.

Bem, se eu morrer hoje, você sabe onde estão os meus segredos e pra quem entregar, ok?
Mas, tranqüila, não vou morrer não. Sou vaso ruim.

Hoje não vamos nos ver, eu acho. Se voltar cedo, a gente toma um café.

Beijos

domingo, novembro 19, 2006

Sem virar o pote

Por quanto tempo a gente consegue enganar o ciúmes? Porque ele é sim o pior sentimento que existe entre dois. Dói e destrói a gente por dentro, se exagerado. Só é útil se vier em doses homeopáticas, até divertidas, mas a tentação de engolir o pote numa talagada só às vezes é muito maior do que a nossa capacidade de ponderação.

E o ciúmes é diferente para cada um. Uma prima tinha ciúmes de qualquer outra mulher que se aproximasse do seu marido. Era como uma doença. Hoje ela está chata e só, e ele está feliz com outra. Não é um bom exemplo.

Tipo Carrie Bradshow, em Sexy and the City, sai por aí outro dia checando como as pessoas sentem o ciúmes. Velha mania de racionalizar tudo. Foi um bom exercício.

Achei um cara casado que curte sexo com a mulher e mais alguém. Ótimo exemplo. Tudo bem desde que fossem duas garotas e ele sozinho. "Outro cara na cama com minha mulher, sei não..." "Mas e se ela se apaixonasse pela outra?", perguntei. Ele nunca tinha pensado nisso e não conseguiu responder. Travou. Acho que deixei ele com a pulga atrás da orelha.

Um casal de amigos aceita a troca de casais, desde que tudo esteja muito transparente. Mas ela tem ciúmes, me contou, um ciúmes sutil. Ela se incomoda quando a outra mulher ou o outro homem não percebem o seu lugar. "Quando eles acham que podem mudar alguma coisa entre nós. Eu e o meu marido, nós nos amamos".

"Tenho ciúmes quando vejo que conversou com outra no orkut, quando outra está perto dele e até dos amigos", disse uma menina que conheço. Isso é doentio, achei. Mas é muito comum.

Eu mesmo senti essas coisas há 20 anos e fugi sem olhar pra trás. Naquela época, eu achava que tínhamos que dar o direito ao outro de ficar com outras pessoas. Mas não tive estômago para aguentar o tranco. Na época, foi o melhor que podia fazer por mim: sair fora.

Ouvi várias histórias, mas a melhor veio de uma figura tranqüila, que aparentemente vive de bem a vida. Nunca imaginei que sentisse ciúmes de alguém. Ela falou assim:

"Eu decidi aceitar o convite pra tomar uma cerveja com eles. Era um desafio e tanto. Eu sabia que ele estaria com a namorada. Fui pensando como me sentiria, quantas vezes me imaginaria subindo no pescoço dos dois. Mas vamos lá, coragem, eu pensava. Você tem que superar, já que só podem ser amigos mesmo. Cheguei e sentei estrategicamente na frente da garota. Estranhamente não senti nada. Ou melhor, sentia pena. A cada palavra que ela soltava eu pensava: o que ele viu nessa mulher. Ela não é nem bonita e nem inteligente. A voz é esganiçada. E as idéias, dispensáveis. Eu olhava pra ela, olhava pra ele, e não sentia onde aquela história se encaixava. Me sentia bem por não ter ciúmes, vitoriosa mesmo. Foi aí que aconteceu o imponderável. De repente, o celular dele tocou. Atendeu e passou pra ela, falando um nome. ‘Oi, meu amor, a mamãe já vai pra casa’, ela disse algo assim. 'Droga', eu pensei! 'É o filho da garota, ligando no celular dele, que droga!' Olha aí, Vivi, foi isso, não tive ciúmes dela logo de cara, mas tive ciúmes daquela situação tão íntima que, com o telefonema, percebi que existia entre os dois. O chão saiu debaixo dos meus pés. O boteco estava fechando, todo mundo indo embora, e eu também aproveitei a deixa. Amiga, entrei naquele carro destruída. Chorei até chegar em casa."
"Mas, baby", eu respondi, "podia não ser nada disso. Vocês já tinham bebido, pode ter imaginado coisas...".
"Eu sei, Vivi, mas é disso que eu estou falando. Eu não sei o que está acontecendo ali".

Concluo que o ciúmes é, mais do que sentimento de posse ou de amor, como muita gente defende, é algo sobre a nossa falta de segurança. Temos ciúmes quando não sabemos o que se passa. O ciúmes vem daquilo que não conhecemos.

Par Perfeito

Que carinho te posso fazer?
É só o da pele que vai lhe bastar?
É só isso que de mim pode esperar?
Pelo sexo você vai sempre me amar?

Eu cada dia mais longe de você?
Você cada dia mais ligado a mim?
Para onde eu posso te levar?
O que vai fazer se eu te deixar?

Você já experimentou pensar em não me amar?

Que carinho você quer me dar?
O café, o almoço, o consolo?
Um filho, a razão, a palavra final?
A casa, o carro, o trabalho?

O que mais posso eu querer?

Um coração para eu me aproximar?
Uma companhia apenas para estar?
Uma memória pra não esquecer?
Uma paixão para compartilhar?

Que caminho podemos nós trilhar?
O vinho, a cerveja, o filme e cada um num sofá?
Juntos e distantes e viciados neste lar?
Para qual final queremos nós caminhar?

Em qual lugar nós vamos parar?
Até onde nós dois vamos aguentar?

terça-feira, novembro 14, 2006

Casquinha

Pena que passou o tempo!
Mas bem que seria bom tirar um do outro aquela casquinha divertida.
Pensamentos safados completamente fora de época?
Tranqüilo!
São só pensamentos, pura imaginação...
Um pouco de fantasia não faz mal a ninguém.
Você, provavelmente, nem vai saber, nem vai me ler.
Mas bem que seria especial.
Te ver sempre me dá saudades e coragem.
Saudades de algo que não chegou a ser, mas que, mesmo assim, foi muito bom.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Passagem

Os pés vibram e com eles todo o seu ser.
Mãos macias os protejem...
Os envolvem...
Deslizam pelas linhas, sulcos, montanhas.
São explorados com delicadeza.
O corpo trepida e se desmancha sob o lençol. Nu.
A mente viaja para um tempo inexistente.
Com as pálpebras fechadas, a visão negra.
A garganta fechada.
Os olhos a traem e desprendem gotas tão salgadas quanto amargas.
Tudo é dor!

sábado, novembro 04, 2006

Isso é Saramago

"O sexo é. Especular sobre a importância e o significado dele não levará a
outra conclusão: o sexo é, e não só é, como tem as suas razões. Não discutamos
com o sexo, ele acabará sempre por ganhar a partida. Às vezes, para justificar
as nossas tentações, dizemos que a carne é fraca. E não se repara que se a carne
cede é porque o espírito já havia cedido antes..."

Não tem nem o que falar. Ele deu uma breve entrevista por correio eletrônico para o Estadão de hoje. Está ótima. Quem quiser ler a íntegra é só checar.

terça-feira, outubro 31, 2006

Esquina


O barulho parecia ensurdecedor. Mas eram só os seus ouvidos. Um caminhão, um ônibus, carros passando pela avenida, movimentos banais como o cotidiano, e ela empurrando o carrinho de sua bebê. Pequena criança.

Decidira dar um passeio com a menina - primeiro passeio - empurrando o carrinho por aquelas calçadas desniveladas e inadequadas. Ela avança insistente até a esquina. Lá, em um metro quadrado, ela se perde.

O que lhe tomou? Que sensação foi aquela? O barulho de dentro era mais forte que o barulho de fora. Ela enxergava os movimentos editados em takes rápidos. Tudo superlativo, como se ninguém a visse e ela percebesse tudo. E se sentiu profundamente só.

No carrinho, a nenê não chorava, mas a olhava de um jeito estranho, como uma estrangeira pedindo auxílio. Ela não conseguiu avançar. Dava passos desconexos, olhava para o alto e para os lados como uma alucinada e tudo que conseguiu fazer foi recuar e fugir empurrando às pressas o carrinho de volta pelo caminho.

Por que aquela sensação? Aquilo era um assombro que durou eternos segundos, e era muito maior que ela. E olha que naquele momento ela ainda não sabia... Ela realmente não imaginava. Mas, talvez, ao seu coração, a mensagem já estivesse dada.

O que viria?
Viria o mal congênito,
o medo,
a dúvida,
a luta,
a dor,
os vômitos,
os olhares de pena,
os exames,
as febres,
os cavalos,
os aparelhos,
os parabéns em meio a lágrimas,
a esperança
e a morte*.

Mas naquele dia, naquela esquina, no meio da fumaça, ela ainda não sabia.

Depois da morte veio o trabalho, o trabalho e o trabalho. E a obrigação auto-imposta de consolar os outros. Ela não podia esmorecer. Não podia fraquejar. Porque, se ela caísse, nada sobraria atrás de si, acreditava.

E ela continuou. Não parou nunca. Nem outra filha, maior dádiva, a fez parar. Tudo tem que estar certo, no seu lugar, contas em dia, geladeira cheia, casa limpa, sem respirar, não olhar pros lados, continuar. A perfeição é a meta sem que se saiba.

Não há poesia, não há música, não há leveza, nem amargor, apenas o que há e o que tem que se cumprir. Até com uma certa alegria, arremedo de felicidade.
Mas ela não é assim. Ela se fez assim.
Até que a vida a chacoalha e lhe coloca de volta na terra. E ela retorna para ela. Para o seu interior. E, lá dentro, ela encontra com o desconhecido, se impressiona com o seu próprio tamanho, vislumbra possibilidades múltiplas e percebe que o peso pode ser menor.
Só há que virar a chave.
É difícil recomeçar, ela pensa. É difícil enfrentar a pior das feras.


*A dor do amor-negado é tão forte quanto a dor da morte.

quinta-feira, outubro 26, 2006

"Come on baby, light my fire"

Nada como ouvir boa música logo cedinho....

quarta-feira, outubro 25, 2006

Viagem na Copa do Mundo

O muro quebrado continua lá. Já são mais de quatro anos. Depois da suave curva à direita, é aquela destruição em formato de triângulo na mureta caiada que separa a pista do Tamanduateí. Que desgraça que é a vida! Tão frágil, tão fugidia.

O garoto se achava o máximo. Carrão novo, shorts, camiseta, naquele junho com sol de rachar como quase sempre ocorre no inverno paulistano. Tudo é sem sentido, esquisito mesmo, até o tempo.

Jogo do Brasil na Copa do Mundo. Ele passa na casa do amigo, lá na Mooca ó meu, e avisa que a galera vai se encontrar num clube lá na Zona Sul, ou na Zona Norte, não importa, mas tem telão, tá calor e eu tô com o carro que o meu pai me deu.

O rapaz segue com um amigo pela avenida do Estado. Em outro carro, vai o outro amigo com uma namorada. Todos querem chegar rápido. Domingão, solzão, jogo e eu quero mais é beber.

Mas o garotão também adora correr. O selo símbolo de rachas diz pro bom entendedor de que praia ele é. E ele acelera.

Emparelhado com o carro de um estranho, só pra provocar, ele continua. Mas não percebe a curva. E a curva suave de repente fecha mais. Ele perde o controle.

O carro atravessa uma, duas, todas as faixas e bate na mureta branquinha, recentemente caiada. Capota. Se arrasta por mais uns cem metros de ponta cabeça até parar por falta de mais impulso.

O carona, amarrado com o cinto, fica firme no banco e tem só escoriações. É levado pelo resgate. O garotão de shorts e camiseta, que nunca acreditou no fim da vida, tem a cabeça esfregada no asfalto junto com a lataria do carro. Não há lugar sem sangue no exíguo espaço da máquina de quatro rodas.

Carro, corpo, rosto, tudo é irreconhecível. Então o corpo, que não serve mais pra nada, fica lá no meio fio. Depois, assim como a lataria do que era o carro, é arrastado pra calçada, porque o trânsito tem que fluir.

Quando chego, ainda afastada, percebo a mãe sendo retirada da cena. Melhor assim. Não preciso falar com ela. A mulher quis ir lá, não acreditaria se não visse com os próprios olhos. É o início do fim de sua própria vida que está jogado naquela calçada toda quebrada e suja.

Meu motorista logo dá um grito: o que meu sobrinho está fazendo ali? É o amigo que estava no outro carro com a namorada. Tio, eu vinha logo atrás, não era racha, não sei o que aconteceu. Seu moleque, podia ser você, seu irresponsável! Cadê seu pai? Eu vou chamar sua mãe e quero ver você pegar o carro de novo!

O muro quebrado continua lá. Já são mais de quatro anos. Já passou a outra Copa. O Brasil não foi campeão. Mas o muro, do mesmo jeito, ainda está lá. Uma marca de triângulo mal feito na minha memória.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Transparente

É!!!
Eu devo estar cinza mesmo.
Mas o meu coração está verde e meus olhos estão vermelhos.
Minha gargarta está roxa, meu fígado amarelo e minha língua está turquesa.
Estou toda colorida, de tons berrantes e, dependendo do olhar, até sinistros.
É que às vezes eu sou assim: só vejo o escuro do poço na minha frente!
São breves estes momentos.
Esse é o defeito da minha personalidade.
Minha alma ainda é translúcida, quase sempre totalmente transparente.
Pena!
Devia ser negra.
E intransponível.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Eu aceito

Agora que passou da meia-noite eu posso dizer que aceito ser sua mãe.
Serei uma mãe precoce, você sabe, mas, no futuro, a gente poderá, sim, ir juntas para algumas baladas. Só não vou me drogar tanto, mas talvez você, em algum dia, tenha que me carregar pra casa. Prepara-se.
Nos primeiros dias da gestação, não se entristeça, mas eu vou chorar muito de desespero. Se tivesse 30 já choraria, imagine, então, aos 14?
Mas, enquanto a barriga crescer, eu vou colocar uma música legal pra você escutar e já ir se acostumando com os sons de qualidade. Talvez alguma canção de ninar, talvez algo de Toquinho, sei lá, ainda vou escolher, mas você terá uma música pra não se esquecer.
Vou me surpreender e bordar lembrancinhas em ponto-cruz e um quadro com o seu nome pra colocar na porta do quarto do hospital. Tentarei por insistência ter um parto normal, mas depois cederei aos apelos do médico, dizendo que você corre riscos, e permitirei a cesariana
Depois que nascer, vou te amamentar até os 2 pra você não correr riscos. Vou sempre te fazer ninar no colo, tenha certeza, cantando baixinho aquela mesma canção que escolhi lá atrás.
Mas, não pense que sua vida será só moleza. Você não terá tudo o que quiser e nem na hora que quiser. Quanto mais espernear, e mais se jogar no chão, mais dura será sua vida ao meu lado. Vamos brigar a partir do momento em que você começar a andar, mas nunca vamos dormir sem nos falar, sem trocar beijos, sem uma história contada na cama.
Também não vai comer só tranqueiras. Não sei como farei isso, porque também quero me entupir de doces, mas juro que resistirei.
Quando entrar na escola, estarei ao seu lado na hora das lições de casa, irei nas reuniões chatas de pais e mestres e babarei nas festinhas de final de ano, com você fantasiada de flor, de borboleta, de coelho, dançando muito sem jeito.
Construiremos uma certa cumplicidade, eu sei, mas acho que na adolescência vou me atrapalhar com você. Como não brigar, como não querer que você faça o que eu acho certo, como confiar no mundo e te deixar seguir o seu caminho? Como evitar que você caia nas mesmas ciladas em que eu caí?
É! Não vai ter jeito.
Na idade adulta você vai ter que me perdoar por todas as discussões feias que teremos durante a sua adolescência, eu sei. Mas vou preferir pagar o seu terapeuta, com quem no futuro você vai falar sobre nossa tumultuada relação, do que te perder para sempre.