sábado, agosto 23, 2008

O que é a paixão, doutor?

O terapeuta familiar Robert Neuburger afirma que esse sentimento altera a percepção da realidade*

Marie Claire - O que é a paixão?
Robert Neuburger - É o abandono da vigilância. A paixão invade, pode fazer com que você negligencie os filhos, o trabalho, tudo. A paixão se organiza dentro da ansiedade e da urgência. O sentimento primordial é a necessidade absoluta do outro.

MC - O que provoca esse estado? O encontro com alguém especial?
RN - Não, esse estado precede o encontro com a pessoa que vai se transformar no objeto da paixão. Corresponde à necessidade de se sentir vivo. Geralmente, as pessoas se apaixonam quando estão se sentindo mal, insatisfeitas consigo mesmas e com os outros. Nessas situações, uma paixão faz a pessoa sentir que está vivendo intensamente. Claro que não se pode negligenciar a escolha da pessoa por quem se vai ficar apaixonado, mas o mecanismo passional vem antes. É acionado quando começamos a desejar algo que nos traga uma nova energia vital. A paixão toca no que existe de mais profundo na existência de cada um. É uma autoterapia excelente e um antidepressivo muito eficaz.

MC - É raro a paixão durar.
RN - Ela está ligada à vida e à morte. Ter amado passionalmente permite aceitar a morte. Mas não se deve ultrapassar a dose. Há um aspecto mortífero na paixão. Os apaixonados tendem a ir além de suas forças, com uma percepção alterada da realidade. O resto do mundo não existe mais, e isso não pode durar para sempre. Depois, tudo vai depender da maneira como a pessoa aterrissa: devagarinho, com lembranças maravilhosas, ou com amargor e arrependimento. A menos que a paixão se transforme em amor duradouro. E aí começa outra história.

* Por Isabelle Maury, da Marie Claire França
Tradução: Ana Ban

sexta-feira, agosto 22, 2008

Na minha nuca

Elas ficam lá, sentadas, balançando as perninhas, cada uma em um ombro meu, discutindo a minha vida, decidindo o meu destino. Se eu deixar, elas fazem minhas ligações e assumem a minha fala.
Uma se veste com um anjo bom, toda de prata. A outra usa uma roupa marrom escuro, meio avermelhado, brilhante também. Uma fala assim:
- Ele não te ama, ponha isso na sua cabeça!
A outra replica:
- Ah, ele a ama sim. Tenho certeza!

Uma me dá bronca:
- Você já andou tanto pra frente! Não vai recuar agora, né?
E a outra argumenta e passa a mão na minha cabeça:
- Tá querendo pensar mais? Pensa, você faz bem...

Eu adoro é ficar de fora da conversa delas, elas brigando debaixo do meu nariz, ou atrás do meu pescoço, na minha nuca, e eu só observando. Olho pra uma e depois pra outra, às vezes rindo, outras brigando: "Dá pra parar de falar você duas?"
Não adianta. Meu protesto é em vão. Elas nunca páram. Ainda bem.

- Muda de cabelereiro e faz um corte bem fashion!
- Não, não, deixa ele crescer!
- Ficaram ótimos estes óculos.
- Na verdade, acho que você escolheu mal.
- Eu te disse que isso não ia dar certo!
- Ela fez o que achou que devia!
- Chuta o balde!
- Vai com calma.
- Liga.
- Desaparece.
- Confia.
- Desiste.
- Esquece.
- Insiste.

Elas se parecem mesmo com o anjo e ao diabinho dos desenhos animados, a boa e a má consciência de cada um. Nunca sei direito quem é quem. Elas vivem trocando de lugar. A prateada fica marrom. A marrom fica prateada. Depois, quando presto atenção de novo, voltam como num estalo ao seu outro estado. Só sei que nenhuma delas é má de coração. E nenhuma é boa demais. Mas sei que as duas só me querem bem.

-

Papo cabeça

- E aí, fofa? Que cara de desânimo é essa. O que fez na folga?

- Nada demais. Só dormi, andei e trepei!

- Orra! E quer melhor?

-Ép! Acho que tá bom, né?

...

quinta-feira, agosto 07, 2008

Uma noite sem fim

Nem sei bem que horas são. Mais de uma, talvez duas, um silêncio, nenhum cheiro, uma luz acesa no corredor. Entrei quieta, a cabeça rodando, a bixiga explodindo. Na minha cama, ela dorme com o pai. Eles nem percebem que cheguei. Quero ir ao banheiro, estou com sede, o estômago está virado, mas não vou vomitar. Não é pra tanto. Sem acender a luz, entro no quarto pé ante pé para pegar o pijama, quero uma cama, mesmo que não seja a minha. Deito no quarto cor de rosa de criança, na minha velha cama de solteira, e tento colocar em ordem a noite.

A festa foi boa. Cheguei só, de táxi, minha amiga na porta à minha espera, vamos beber que é por isso que estou aqui. Conhecidos, beijos, oi, tudo bem, me dá cá um abraço, cadê a cerveja?

No pátio aberto, quem está faz apenas o social. Já sabe tudo o que vai rolar lá dentro, o que vai ser dito e o porquê. Lá dentro, um monte de gente, muitos interessados, outros quase dormindo, o pessoal que foi mesmo trabalhar.

Olha aqui: esta é minha amiga, jornalista. É, eu sou, mas estou de férias. Onde é que vende a cerveja? Tem trocado? Nossa, quanta gente! Tudo bem, daqui a pouco isso aqui acaba e gente estica. Você que ir pra onde? Tanto faz, hoje eu estou por sua conta. Viu aquele cara? Ele é interessante. Não é o seu tipo? É, não achei, não. Meu Deus, você por aqui? Você vê, por mais que queira sair do ABC, acabo voltando pra cá. Que saudades. Olha, essa aqui é minha amiga, minha "cumadi". Então é você, sempre quis te conhecer. Estou com fome, tem churrasco aqui? Lá fora, vamos lá.

Vou comprar mais uma e elas somem. Quando vejo, estão as três, num canto em pé, conversando um monte, em uma rodinha bem feminina.

Pergunta: o que falam mulheres maduras reunidas numa rodinha quando se encontram?

De seus homens, claro.

Ainda está com ele? Sim, é meu terceiro marido. Não sabia que tinha tido um segundo. Ah, eu lembro agora, ele era o homem mais lindo da redação. Lindo mais cruel, querida, muito cruel. E você, há quase 20 anos com o seu. É, pra você ver. Mas não quero mais dar pra ele. É, daí é difícil. Eu quebrei o cabaço e fui num sexshop comprar umas coisinhas. Mas meu namorado se nega a usar... Que babaca ele, não? Se fosse um homem mais velho usava. E eu que separei ontem e faço 40 amanhã. Estou arrasada... Aquele ali é um escroto, falso que só. Chega. Vamos? Um beijo, vamos sair mais dia desses, parabéns, coragem. O celular tocando na bolsa.

Cadê meu celular? Atende aí? Já estamos aqui, vocês não vêm?

No boteco tem mais mulher madura, com homens maduro, outros nem tantos, meninas, bichas e tudo o mais. Mais cerveja.

Me dá um croquete, vamos sentar lá fora, arruma umas mesas. Já estou aqui, sentada, esperando vocês. Tem algo melhor pra comer aqui? Come a batata assada que é mais saudável. Então dá uma, com berinjela que eu adoro.

Pergunta: o que falam mulheres maduras com homens maduros reunidos numa mesa de bar?

Das outras mulheres maduras que não estão lá. E falam também de seus ex-maridos, e filhos, e namorados. E dão pitaco na vida de quem está na mesa.

Não dá pra entender o que aquela lá tem que atrai tanto homem. Porque ela é muito feia, é vulgar, ninguém gosta dela. É, mas o fulano disse que até aquele outro, aquele bonitão meio gordo, pagava um pau por ela. Não acredito, ele parece tão inteligente. E ela mesma me disse que o cara era pegajoso, mas pagava algumas contas pra ela, então, tudo bem, ela aguentava ele. Outro dia, nem te conto, sumiu num bar e quando voltou disse que tinha ido dar uma. Ali mesmo, no meio do bar? Não sei, acho que sim. O maior bafão. Conheço você de uma festa, sou amigo do seu amigo. E ele, é viado ou não? Não sei. Já viu ele com mulher. Nunca, mas nem com homem. É, mas o cara é muito boa gente. E vocês, são skinheads? Carecas do ABC? Pô, não ofende. Esse aí, querida, não combina com você. O outro lá é melhor. Sempre fui assim, louca, batalhei pra criar meus filhos. Vamo'mbora que meus filhos não param de ligar. Pede a conta, eu deixo vinte, tchau.

Deitada em casa tudo isso vem sem muita ordem, até que eu durmo. Durmo? Não. Eu acordo de hora em hora, a madrugada não acaba. Levanto, bebo água, vou ao banheiro, deito de novo. Com frio, me cubro pra pouco depois chutar o edredon. Cinco horas, cinco e meia, sei lá, o despertador toca. Ele acorda pra ir trabalhar. Não tem a curiosidade de olhar no outro quarto, será que ela está aí? Com certeza está, as botas estão no corredor, a roupa jogada no banheiro. Ele assume o banheiro e eu continuo deitada. Ele sai do banheiro e eu não aguento, levanto, vou pra cozinha.

Bom dia. Bom dia. Fez café? Fiz.

Uma xícara, duas. Vou comer torrada com geléia e manteiga, tudo diet, tudo light. Vou esquentar o leite, tomar com café, perdi o sono. Ele se toma banho, se troca, eu ainda na cozinha, comendo e lendo o Unidade. Li inteirinho. Vou ao banheiro, palavras cruzadas. O dia ainda escuro. Ele sai e o sono não vem. Meu Deus, essa noite, essa balada não acaba. Tá, vou ler mais, na sala agora, escolho um livro velho, leio a dedicatória "Nós não queremos mais o paraíso, mas continuamos dispostos a continuar reencarnando", escolho um conto. Deu errado. Não veio o sono. Só mais e mais excitação. Preciso dormir, vou tomar mais café com leite, e mais um, e mais torrada. Vou deitar com ela, na minha cama, eu a abraço de costas e consigo dormir. São sete e meia.
:-/

terça-feira, agosto 05, 2008

Beijo de língua

Ele não parava de olhar para mim. Parecia enfeitiçado. Desde a hora que eu cheguei, ele ficou lá, parado e me encarando, suspirando e me seguindo a cada movimento. Nem a Bia no meu colo o intimidava. Bem pelo contrário: quanto mais eu a abraçava e beijava, mais ele suspirava. Seus olhos brilhavam e pareciam encher de lágrimas.

"Bia, ele está com ciúmes de mim com você. Mas não tem motivo. Não sou nada dele. Quase nunca me vê. É tão difícil eu vir aqui", eu disse.

Então, só para testar, a Bia resolveu sair do meu colo para deixar o caminho livre para o garotão. Sem tirar os olhos dele, e com um sorrizinho maroto nos lábios, ela se sentou ao meu lado meio escondida e ficou esperando a reação dele. A Bia queria ver o circo pegar fogo.

O menino não perdeu tempo. Deu o primeiro e o segundo passos e, na seqüência, colocou sua pata esquerda e pesada no meu colo, depois a outra, e começou a avançar sobre o meu peito. Em segundos o bocão negro dele estava a um centímetro do meu nariz! Eu afastei o meu rosto, gritando.

"Vítor, socorro! Tira o Angus daqui porque ele quer me dar um beijo de língua: vai me lamber! Argh, que bafo!"

O boxer nunca mais me perdoou. Ofendido, foi sentar no seu tapetinho bordado à mão, de costas para a gente, e durante o resto da noite não olhou mais para mim. Que cachorrão mais temperamental! Magoou de vez! Mas até que devia ter aceitado o beijo de língua que queria me dar. Foi o único que me ofereceram aquela noite.
;-(

domingo, agosto 03, 2008

Registro

Expectativa, desejo. Desejo, expectativa. Qual é a ordem certa disso? Não há. O certo é que tudo é tão dinâmico. Tudo é tão desânimo. E brincar com desejos e expectativas parece tão fácil. E se faz tanto disso que parece até uma aposta: eu vou porque vou provar pra você que isso não existe. O que você sente não existe. O que você quer não existe. O que você acredita não existe. Eu não existo. Percebeu, garota? Constatação: o lado duro da vida está vencendo. Você tem razão. Eu estou ficando mais dura. O que se sente, mesmo sem querer, está mudando. O que parecia tão certo agora está calejado, desconfiado, cansado.

Entristecido, porém. Ninguém quer saber mais disso. Pra quê? Uma punheta basta. E de porre. Mas uma só. Mais que uma dói a mão. Dá trabalho.


Ontem cantaram Sentimental pra mim. Tenho que cantar e cantar pra não desistir. Não desistir de mim. E tentar transformar o sentimento. De novo. Geminiana eu sou. E esse é o meu desejo


Sentimental, sentimental
Um coração saliente
Bate e bate muito mais que
sente
Fica doente
Mas é natural, natural
Que num cochilo de agosto
Surja um outro alguém do sexo oposto
Do sexo oposto, outro alguém

Ontem vi tudo acabado
Meu céu desastrado
Medo, solidão, ciúme

Hoje eu contei as estrelas
E a vida parece um filme
Gemini, gemini, geminiano
Este ano vai ser o seu ano
Ou senão, o destino não quis
Ah, eu hei de ser
Terei de ser
Serei feliz
Serei feliz, feliz
Façam muitas manhãs
Que se o mundo acabar
Eu ainda não fui feliz
Atrapalhem os pés
Dos exércitos, dos pelotões
Eu não fui feliz
Desmantelem no cais
Os navios de guerra
Eu ainda não fui feliz
Paralisem no céu
Todos os aviões
É urgente, eu não fui feliz
Tenho dezesseis anos
Sou morena clara
Atraente
E sentimental.




terça-feira, julho 29, 2008

Em suspenso

É bom ficar assim, em suspenso, desconectado, fora do ar, sem ligação com o mundo.
Não que eu estivesse em um lugar completamente isolado. Mas não tinha net em casa, lá não chega jornal e, assistir a um mundo pela só TV é como viajar sempre por um mundo irreal.
Como acreditar inteiramente no que diz o Datena, o JN ou a Marcia Goldsmith??
Os dias lá são cheios de crianças, sorvetes e doces.
As tardes repletas de páginas e mais páginas de livros. Há tempos não lia tanto.
E o calor não estava insuportável.
Santo descanso. Nunca foram tão boas as férias.
Nem no frio do Sul, nem nas praias do Nordeste.
A simplicidade me conquistou este ano.
Por uns dias, deixei de ser eu.
Mas, bem, estou de volta.
Mãos à obra!
.

domingo, julho 13, 2008

Já estou com saudades

É, você está certa.
Só com amor é possível querer continuar.
Sem esse afeto que já estava lá antes de tudo, e que sobrevive ao tempo e à toda palavra amarga, não teria como ouvir, se magoar e mesmo assim estar disposta a retomar.
O bom disso tudo é que a gente aprende a reconhecer o que realmente importa.
E aprende a esperar o tempo de cada um.
Porque, se eu demorei a perceber, não posso exigir a rapidez do outro.
Já estou com saudades.

domingo, julho 06, 2008

Crescendo

Outro dia ela me ligou no celular, feliz da vida:
- Mãe, mãe, adultos não ficam um tempão no telefone?? Então, hoje eu fiquei falando um tempão com as minhas amigas no telefone, mãe...
- E daí, Bia?
- Fiquei um tempão com uma e depois com outra... Que nem um adulto! Não é legal??
Seu programa preferido na TV se chama...
Rebeldes,
ela diz que adora fazer...
compras,
e já escolheu as roupas que hoje são minhas e que, quando ela crescer, quer que sejam dela... Estão lá todos os meus sapatos altos...
E, quando está só, ela diz que tem... tédio!
Agora, ela descobriu a flauta doce. Meus ouvidos andam doendo.
De verdade, me surpreendo a cada dia. E é delicioso...
Estou adorando esta fase da Bia!

domingo, junho 22, 2008

A história da Helô (Parte 1)

----Introdução

Tudo bem, vou escrever uma história triste, mas é uma história que tem que ser contada um dia.
Não estou sofrendo, não estou remoendo, não cai em depressão por causa disso, mas não nego que traduzir o que passa na minha alma e na minha mente em letras legíveis alivia o meu espírito. É como tornar concreto o pensamento. Ele fica palpável, ao alcance da minha mão. E eu o supero. Então, vamos lá. Peguem seus lenços de papel.

----Parte 1

Quando cheguei lá ela já havia partido. Eu soube exatamente o momento. Primeiro veio o telefonema: "Vi, vem pra cá que a Helô está internada."

Sai do jornal como uma louca, e segui a pé em direção ao metrô, mas não andei nem 20 metros e a minha própria cabeça girou. Era como se eu, no meio da multidão anônima, estivesse sendo observada por todos. Uma zueira no ouvido, uma falta de sentido de direção e a certeza de que não era possível seguir a pé. Voltei pra trás, pro jornal, e pedi por favor um carro (Dias depois percebi que foi exatamente neste momento de angústia e de vertigem que ela partia) .

O motorista foi pronto e seguimos correndo pro hospital. Há oito anos, celular era uma bosta e nem todo mundo tinha. Mas consegui ligar pro irmão do Mauro, que passou o telefone pra ele. Não sei que horas eram, mas era de tarde, o fim da tarde. O carro voava na avenida dos Estados e o Mauro do outro lado da linha:

"Como ela está?", perguntei.

"Vi, vem pra cá", ele respondeu.

"Eu tô indo, mas como ela está?", insisti.

O silêncio, a certeza:

"Mauro, ela morreu, não foi?"

Foi assim que eu soube. Por telefone, no meio da Avenida dos Estados, entre São Paulo e São Caetano, num sabadão de plantão, início de um fim de semana prolongado de Sete de Setembro, ao lado de um estranho.

O motorista era um negro alto, enorme, nem lembro o nome, daqueles que parece que só podem ser contratados para fazer segurança de show. Sem olhar pra ele senti que seus olhos marejaram. Os meus estavam secos. Ainda. Ao meu lado, ele expressou uma raiva misturada com pena, e uma vontade de fazer algo a mais por mim... Mas aquele gigante não sabia o que fazer (Ninguém saberia). E fez o que achou útil. Acelerou.

Então, eu disse:

"Pode ir devagar. Agora não adianta mais correr."

E não trocamos mais palavra. Era 4 de setembro de 1999.
Continua em algum dia.

quinta-feira, junho 12, 2008

42 lágrimas

E nem as 42 lágrimas que eu derramar por você hoje vão poder redimi-la, minha querida.

Nem o meu suor, nem o meu sexo,
nem o meu fluido, nem o meu gozo,
nem o meu amor.

Nada de mim hoje será nosso.
Nada de mim hoje vai lhe bastar.
Nada.

Talvez amanhã.
Mas talvez nunca mais.

terça-feira, junho 10, 2008

Outra dimensão

Se eu pulo e corro na água sem sair do lugar,
fecho os olhos e, com a música ao fundo,
saio do chão.

Eu flutuo.

É como se eu pudesse deixar lá o meu corpo
e sair para outra dimensão.

Eu volito.

E, conforme me movimento sem sair do lugar,
também se movimenta o Som.

Ele não está mais à minha frente.
Ele está à minha volta, ao meu redor.
Eu o Sinto e o percebo sobre a minha cabeça,
nas minhas costas,
como que rodando e roçando o meu corpo.

Entro em êxtase. Páro de respirar por instantes.
Abro os olhos.
Onde estou?
Onde estão todas as outras?

Olho para trás e lá estão elas, viradas para frente,
prestando atenção ao que ele diz.

Me volto, meio constrangida, mas feliz.
Estou inteira. Estou íntegra. Estou aqui.
Ninguém percebeu minha viagem particular.

Continuo pulando e correndo, flutuando na água,
mas agora de olhos abertos, olhando pra frente,
olhando para dentro, olhando para mim.

sexta-feira, junho 06, 2008

Em paz

Nem acredito que a semana acabou. Ela quase acabou também com meu relógio biológico.
Já tinha desacostumado a acordar de madrugada, sair de casa antes do sol raiar, me encher de cachecol e gorro para enfrentar o gelo da manhã desse começo de inverno, pedir pão com manteiga e pingado pro Régis...
É bom variar a rotina de vez em quando.
Mas, o melhor de tudo é sair do jornal com o dia ainda claro, poder curtir o entardecer e até arriscar beber umas, jantar fora com a moçada e ter chance de dormir na cama de casal abraçando a Bia "nas costas", como ela diz...
É! é bom mesmo mudar a rotina.
Hoje, sexta-feira, estou destruída. Meus olhos pesam, já decidi dar o nó na aula amanhã pra fazer tudo o que preciso e ainda encarar o plantão, mas tudo bem.
Adoro me sentir assim, em paz...

Mario Quintana

CURIOSIDADES

O dicionário de Mario Quintana...

"Deficiente" - é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as
imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de
que é dono do seu destino.

"Louco" - é quem não procura ser feliz com o
que possui.

"Cego" - é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de
fome, de miséria. E só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

"Surdo" - é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo,
ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer
garantir seus tostões no fim do mês.

"Mudo" - é aquele que não consegue
falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

"Paralítico" - é quem não consegue andar na direção daqueles que
precisam de sua ajuda.

"Diabético" - é quem não consegue ser doce.

"Anão" - é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a
pior das deficiências é ser miserável, pois "Miseráveis" são todos que não
conseguem falar com Deus.

...
Bem, nesta última parte eu faço um aparte. Deus aí pode ser algo como "coração", já que nem todo mundo é obrigado a acreditar em um Deus, mas coração e intuição todo mundo tem.
...

terça-feira, maio 27, 2008

Roberto Freire

Duas boas frases de Roberto Freire, escritor e terapeuta que morreu aos 81 anos no último fim de semana. Uma singela homenagem...

"Do amor pode-se fazer uma necropsia, nunca uma biópsia. Se eu examiná-lo,
paro de amar. O amor não é para ser entendido, mas sentido, experimentado."

Entrevista à Folha, em 2003


"...quando se ama, não se está pensando em segurança, duração, controle, posse,
pois isso corresponde à forma com que o autoritarismo capitalista familiar ou de
estado se expressa no plano pessoal e afetivo. Se sou um libertário, desejo que
tanto eu como meu parceiro vivamos o amor em liberdade, na emoção, no espaço e no tempo. É o amor em sí mesmo que comanda a intensidade, a beleza, a forma e a
duração do nosso amor, em cada um e entre os dois, jamais o contrário."

Do livro Ame e Dê Vexame, de 1990

quarta-feira, maio 21, 2008

Bruxas e Bruxinhas

- Bia, eu sou uma bruxa, você sabe! - eu provoco a menina, sem dó nem piedade, desde que ela começou a entender o que é uma bruxa.

Antes, ela chorava de verdade, lágrimas escorriam do seu rosto.
- Não é não, mãe, não é!

- Mas, Bia, eu sou sim. Até nome de bruxa eu tenho, sabia? Viviane, nome de bruxa, bruxa! E você é uma bruxinha!!!!

- Pára, mãe, não sou, você não é bruxa! - ela brigava e vinha me empurrar. E eu, má como só uma bruxa, ria e ria e ria.

Esta semana estamos lá, lendo um livro deitadas da cama. Livro sobre uma festa em que só podiam ir bichos, fadas e.... bruxas.

- Oba, eu posso ir. Afinal, sou uma bruxa, você sabe!

E recomeça a ladainha.
- Não é!
- Sou!
- Não é!
- Sou!

Então, ela percebe que pode mudar o jogo. E faz o desafio.

- Se é, faz então desaparecer a.... - ela procura algo pelo quarto - esta televisão!

Me surpreendo, já orgulhosa. E não perco rebolado. De fato, penso: "Ela está crescendo."
- Fácil, fácil!

Movimentos de mão teatrais, palavras "mágicas" inventadas na hora, olhar fixo na TV e, tcharam!!!!

- Viu? A televisão sumiu! - fantasio.

- Ah, mãe, sumiu nada. Olha a televisão aí? - aponta rindo.

- Só você que está vendo a TV aí, Bia. Pra mim, ela sumiu!

- Ahhh, tááá!! Então, eu sou uma bruxinha mesmo. Porque sou a única que tô vendo ali televisão que você acabou de fazer desaparecer!!

É, ela tá crescendo mesmo.

domingo, maio 11, 2008

Trocando as telhas

E, agora, que a tempestade passou, que a água abaixou e deixou a casa, e que o céu vai ficando claro, o que é que a gente vai fazer?


Vamos varrer o quintal, colocar as folhas e os galhos que caíram das árvores em um saco plástico e deixar lá fora para o lixeiro levar?


Vamos tirar a lama e secar o térreo da casa, que inundou, colocar os móveis nos seus lugares?


Secaremos as vidraças, abriremos as janelas para o ar entrar e expulsar daqui o cheiro de cachorro molhado?


Lavaremos as roupas que se molharam e mofaram e vamos colocá-las no varal para elas secarem ao sol?


E, finalmente, subimos no telhado para trocar aquelas telhas quebradas? Por causa delas, uma goteira se formou bem em cima de nossa cama, o colchão encharcou e nem dormir juntos a gente pode. E, engraçado, que minha prepotência nem deixou eu imaginar que existiam telhas quebradas no nosso telhado. Estou com saudades do seu calor.


Podemos, sim, fazer tudo isso. Tem só que sair dessa paralisia e tomar coragem. Respirar fundo e começar.


Há vantagens em tudo isso, eu vejo. Eu sempre vejo a luz no fim do túnel, o bem no meio da inevitável confusão que vem com a tempestade.


O ar fica mais fresco, a gente aproveita e também joga fora o lixo que deixou acumular por tanto tempo, por causa da incerteza sobre se um dia a gente ia ou não usar de novo.


Vai dar muito trabalho essa limpeza, eu sei. É difícil e cansativo recolocar tudo no lugar, ou decidir os novos lugares das velhas coisas (É que a gente nunca se livra totalmente das velhas coisas). Mas pensar na casa limpa, clara e fresca é sempre um incentivo. Um alento.



..

sábado, abril 26, 2008

Dez minutinhos

E agora é uma mulher que me atende ao telefone. Ela tem uma voz metálica, cansada e irritada. E, a primeira vez que me ouviu, tenho certeza, se sentiu intrigada. Pensou: "Nossa, isso é hora de mulher estar voltando pra casa?" Pra, depois, pensar: "Mas eu trabalho a essa hora!"
Bem, mas até hoje a sinto despeitada quando fala comigo:
- Central de vigilância, bom dia.
É, geralmente passa da meia-noite quando eu telefono.
Ao escutar o meu "Boa noite, é a Viviane da rua V.. C..", ela responde um "Boa noite" seco, sempre seguido por um 'tchi'. É tão baixo o seu 'tchi', mas dá pra eu perceber a sua má vontade. Esse 'tchi' parece um: "Ah, que saco! Que vontade de xingar essa mulher que me pede segurança!"
Tudo isso só no seu 'tchi'.
O mais irritante é que ela sempre pergunta o número da casa. Todo dia! E eu respondo: "É a 360". E aí ela pergunta qual é o carro. E eu penso: "Que porra! É o Pálio e ela ainda não guardou!" Mas respondo educada: "Pálio azul marinho."
- Quanto tempo?
- Daqui uns 10 minutos.
- Ok - e ela desliga o telefone.

Fico imaginando como ela é. Magrinha e muito miúda, com os cabelos tingidos de castanho claro já meio desbotados, sempre presos em um rabo de cavalo, e vestindo um terninho surrado, às vezes preto, àz vezes azul claro. Ou seja, deve ser horrorosa.

Gostava mais do rapaz que atendia antes. Ele era mais animado. Mais esperto também. Já respondia, assim que ouvia minha voz:
- Oh Viviane, daqui 10 minutinhos, né? Ele vai estar lá!
Simples assim. Sem rodeios.

Outro dia a mocréia não foi trabalhar. Deve ter sido a folga dela. E era o rapaz que estava ao telefone. Fiquei até contente de não escutar a voz metálica. Ele me atendeu assim:
- Ooooh, tudo bem. É o 360, né? (Pensei: "Nossa, que memória. O cara lembra o número de casa e faz um mês que não fala comigo!")
- É isso. Dez minutos e eu estou lá, tudo bem?
- Tuuuudo bem! Ele vai estar lá, tá?
- Tchau.
- Tchau.
Esse deve moreno e meio gordinho. Um pouco mais alto que eu. E não deve usar barba. Roupas? Sempre calças jeans, uma camiseta e por cima um casaco ou um colete. Quando usa camisa, o último botão está invariavelmente aberto (porque é impossível fechá-lo), mostrando um pedaço desagradável de sua barriga. Acho que ele é assim.

Só há um detalhe em tudo isso: desde que a moça começou a atender, nunca mais o segurança deixou de aparecer na minha casa nos 10 minutos combinados. Com o Boa Praça, várias vezes eu fiquei rodando em volta do quarteirão até o motoqueiro chegar. Sei lá, pode ser coincidência, mas não deixa de ser curioso. A moça é antipática, mas até que é eficiente. Já o moço....

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quarta-feira, abril 23, 2008

Começo que não acaba

Depois da saga que não acaba sobre a queda do sexto andar e do vôo tragicômico de balões para a morte, vem o tremor de terra na cidade.
Alguém aí sentiu a terra tremer?
Eu senti. Sensação que se tem quando se levanta rápido da cama de manhã - um bambear. Pequeno tremor. Um delícia de tremor, aliás.
Mas estou cansada. Não temos um dia de trégua.
Devia dar graças à Deus. Afinal, a Isabella saiu um dia do foco, mas o terremoto provocou outro tipo de abalo.
Todos ficam mais enlouquecidos, mas agora em dose dupla. São dois focos. E, ainda por cima, não vamos para o céu, porque não paramos de rir do padre maluco, que se meteu numa aventura sem sentido.
Esse começo de ano não acaba... Será esse o ônus de ter o Carnaval mais cedo, coisa que eu tanto festejei?
O mundo pode parar pra eu descer?
Alguém pode me socorrer?
A impressão que tenho é que as horas e os dias estão confusos. Hoje, não sabia se era terça ou quarta. Por um momento achei que era quinta. E não é primeira vez que sinto isso. Será efeito do feriado? Parece que já estamos em outubro, tanta coisa que já aconteceu este ano na minha vida e na vida do mundo. Mas é só abril, quase maio, aliás. E, em menos de um mês (Não, dois. Olha aí a confusão, não disse?), faço 42. Imagino o que pode vir no meu inferno astral.
E venho pensando nisso tudo enquanto dirijo de volta pra casa. Quase uma da manhã, o que pode acontecer, eu penso? Nada. Mas não é que vem lá um carro na contramão na Avenida dos Estados!!! Penso: eu já estou vendo coisas... Mas não, é um carro na minha direção mesmo. Sorte que desviou antes de me alcançar. Acho que eu não teria reflexos para evitar um choque. Ele entrou na viela de uma favela. Nem na madrugada estou livre das palpitações.
Então, tenho ou não motivos para estar farta deste começo de 2008?

segunda-feira, abril 21, 2008

Da dúvida à saída

E ele, agora, deve achar que eu estou cheia de dúvidas...

Não, eu não tenho dúvidas. Eu, por hora, só não tenho saída!

:-/

PS: "O Mundo Perfeito" está du caralho. Coloco aqui o último post que li. Maravilhoso.