sábado, maio 27, 2006
Sexo
Depois, achei que sexo era loucura e risco. À luz do dia, em pedras de riachos, cachoeiras, em salas ou quartos ou banheiros de casas de família enquanto a família dormia ou se distraia.
Mais tarde, com filhos, temi que sexo fosse só obrigação, um cumprir tabela, um algo a mais pra fazer.
Como boa aluna e curiosa, fui aprendendo que sexo deve ser o experimentar, o se arriscar, o se entregar.
Hoje, penso que sexo também tem que ser doce, terno e pleno. Tem de estar envolvido com paixão, confiança e segurança.
Por hora, ainda não concluo nada. Na metade que espero estar de minha vida, acho que de sexo ainda tenho muito que aprender.
quarta-feira, maio 24, 2006
I used to love her
I used to love her
But I had to kill her
Boa balada essa do Guns... E nessa balada eu penso: vou me assassinar.
Na boa...
Quem me conhece sabe que ando com muito bom humor, mas é que tem hora que uma parte da gente que a gente ama quer matar a outra que não se encontra.
Como me disse um amigo ontem, nós não temos mais idade pra crise existencial...
Mas, eu retruco, por que não?
Ainda nem consegui assassinar de fato a outra parte!
Até gosto dela!
No final, acho que é isso: gosto mesmo mais é da outra parte... Quero mais é que ela sobreviva e vença a batalha!
Lá vem você pensar em voz alta: a Vivi ficou louca de vez!!
Fiquei não, amiga... Sempre fui. É que você se acostumou com a outra. Quer apostar??
terça-feira, maio 16, 2006
Muito bom te ver
Foi muito bom te ver hoje...
No meio do caos desse dia, sua visão, pra mim, foi como um bálsamo, uma luz no fim do túnel.
Curiosa a minha reação.
Alguém falou seu nome, eu levantei a cabeça, te vi de longe, no meio da roda, e sai num impulso, meio sem pensar, pra simplesmente te falar oi.
...e o abraço foi tão inevitável, e foi tão sincero, e tão bondosamente quente....
Foi muito bom te ver hoje...
No meio do caos da minha vida, sua visão foi um alívio, uma lembrança do que é honesto e bom.
Curiosa a minha sensação.
Pensar que, a partir de um impulso, veio um sentimento tão leve! Depois do abraço um certo constrangimento, ninguém a entender nada, mas a saudades batendo forte, querendo falar mais.
...e o dia que estava amargo, e tão confuso, ficou um pouco mais doce e compreensível...
Foi muito bom mesmo te ver hoje!
Sei que esse não é o seu melhor momento, mas também não é meu.
Mas talvez essa seja a nossa magia.
Porque, ao te ver, e te ouvir, hoje eu senti vontade de rir sem parar.
Talvez porque você tenha sido um exemplo sempre.
Talvez porque você nunca tenha me condenado por nada.
Talvez porque você tenha entendido o que parecia incompreensível.
Talvez porque você nunca tenha deixado de ser você.
sábado, maio 13, 2006
Monte de coisa alguma
Chego em casa nessa madrugada, não faz nem uma hora que sai da frente de um micro, e tudo em que eu penso é em me conectar de novo. Eu devo estar ficando retardada... Mas não consigo parar de pensar... e respirar fundo... e relaxar.
Devia chegar louca pra ir pra cama, deitar com as duas criaturas que lá me esperam, e que amam, e que me querem, mas eu não consigo... Minha cabeça vai a mil por hora, enquanto meu corpo dói de ponta a ponta.
Mas não penso nada que preste. Nem consigo escrever nada que valha. Me sinto fria como um iceberg, oca e mergulhada numa escuridão que não tem fim. Mas sem culpa. Quem quiser, que me leia e me escute. Tô me lixando.
Solidão...
Outro dia a Bia, com seus 5 anos, me disse que estava só. Dei risada e ela me disse: Estou sozinha de você, mamãe... sozinha de você... sozinha de você... Não consigo esquecer essa frase. Mas não tenho nada pra fazer com ela. Talvez porque me sinta sozinha de mim há muito tempo.
Aqui na frente dessa tela, bebendo minha cerveja Itaipava numa tentativa inútil de tomar um porre, nesse delicioso silêncio da madrugada... Lá fora uma bela lua, o frio de novo seco... Aqui dentro, uma dor sem fim...
Hoje, eu me dei ao direito de mudar todas as rotinas e quebrar todas as promessas. Levei a Bia na escola, cheguei no jornal depois das duas, não fui beber com a Dani, não fui na festa do Hugo, não voltei pela avenida dos Estados, corri na Anchieta, reduzi em Santo André, cheguei em casa pela rua de cima... Tudo diferente pra ver se algo muda, se um milagre acontece...
Mas nada muda.
Daqui um mês faço 40...
É engraçado como esses dois algarismos têm mexido comigo. Quando penso neles e olho pro espelho só vejo marcas, manchas, fios brancos e olheiras. E sei que nem é tudo isso. Mas é isso que enxergo. Tenho impressão de que no dia 13 de junho, um dia depois do Dia D, vai estar tudo caído.
Por dentro, ironia, minha percepção do mundo e de mim passa por um revolução. Uma revolução que me dá medo... Que não sei se vou ver o fim. O fim...
Agora é o fim. Vou dormir.
quinta-feira, maio 11, 2006
Verão Inverno
Fim de festa, ela nem se importou com seus amigos. Foi com ele pra praia, molhar os pés no amanhecer. Seguiram pra algum apartamento, que ela nunca saberia dizer onde era, entraram em um quarto e se afundaram no colchão que estava jogado no chão...
No meio da manhã, ela pegou suas coisas e saiu, como uma anônima, mas levou o número de um telefone marcado em um pedaço de guardanapo de papel. Pensava: "Ligo pra ele depois". Chegou de táxi em São Clemente, na casa dos amigos, com as sandálias na mão. Feliz, dormiu e acordou debaixo do sol. Aí veio a notícia: "Você não tem mais nenhum dia aqui."
Atordoada, percebeu que o guardanapo se perdera, talvez no táxi, talvez no banheiro, talvez na sua bolsa. Queria vê-lo mais uma vez. A amiga ligou, então, para uma conhecida, que ligou para uma prima, que também estava na festa, e conhecia o dono da casa, que sabia qual de seus camaradas havia levado lá aquele cara, que entrou sem convite. Uma hora depois, seu telefone tocou. "Vamos sair hoje mais uma vez?"
Foram jantar. Passearam pelas calçadas da Lagoa, de mãos dadas, como velhos namorados, ficaram mais uma noite e fizeram todas as promessas que não devem ser feitas nunca a ninguém. E na manhã do dia seguinte, ela partiu. Mas ele não sumiu.
Telefonemas, e-mails, cartas, cartões, tudo dele a alcançava. Nos primeiros meses, ele saia do Rio para visitá-la em São Paulo e os dois curtiam a vida em quartos de luxo nos hotéis de várias estrelas da cidade.
No Carnaval, ele alugou uma quitinete em Copacabana. Levou os dois filhos: era um casal. A menina tinha 15 e o garoto, 5. Passaram, felizes, o feriadão, passeando entre travestis e transformistas na orla da praia, dançando em bailes chiques, comendo com as crianças em lanchonetes festivas, mas dormindo amontoados na falta de espaço.
Na Quaresma, porém, a vida começou a mudar. Porque a Quaresma trás o Outono e no Outono o tempo esfria e as folhas e as máscaras começam a cair. Algo não ia bem. Os contatos eram estranhos. Na Páscoa, ela mentiu para os pais e viajou de novo para o Rio. Lá, nada de intimidades em hotéis simpáticos ou aps emprestados. Ficaram no quartinho de empregada que ele alugava no apartamento de um velho casal, do lado de lá do túnel, muito longe da praia.
Como sempre, colchão no chão. Mas, desta vez, ele deitou na cama.
Foi aí que ele lhe deu a sua facada: "Se você mente para os seus como vou ter certeza que não mente pra mim?". O ataque enjoou o seu estômago, amargou a sua boca e ela chorou sangue de raiva. A desconfiança é péssima companhia do amor. Ela voltou pra casa, desanimada, mas ainda com esperança de que tudo não passava de um dia ruim.
A vida seguiu e ele voltou para São Paulo, para a casa de sua mãe. Começaram a se ver em hotéizinhos modestos e decadentes do Centro da cidade. Ele havia perdido o emprego no Rio e ela decidira mudar de emprego em São Paulo. Ele não gostou. Ela nem ligou. A opinião de seus parceiros nunca a fez parar. Foi por essa época que ela começou a organizar sua festa de aniversário. Comemoraria os 22. Ele já tinha 30.
Festa no sábado. Ela morava no Tatuapé. Ele no Capão. Apareceu com um amigo esquisito num Corcel preto. Ela não gostou. Mas foi simpático e, ela pensou, tudo ia dar certo. A festa correu bem, amigos e mais amigos, ele não se enturmou e partiu cedo: "Nos vemos amanhã".
O dia importante era o amanhã. Domingo. Era o dia do aniversário dela. Ligou pra ele: "Vamos sair?". "Não, vem pra minha casa". Ela não sabia onde ele morava. Ele explicou e ela pegou o ônibus e depois o outro ônibus, até o ponto final, no bairro humilde da Zona Sul.
Já era Inverno. Pouca gente na rua e o frio congelava os ossos de todos. Na pequena casa, a mãe fazia coxinhas pra fora, enquanto ele, dois irmãos e as duas crianças se amontoavam embaixo de cobertores velhos em dois sofás comprados nas Casas Bahia. Todos assistiam Silvio Santos. Ela entrou e ninguém se mexeu. Nem ele.
Ficou lá, na cozinha com a velha senhora, ele vendo TV e a tarde passando. E ela se perguntando o que fazia lá!
Quase noite, ela decidiu partir. E pediu: "Você me leva até o terminal?" Ela tinha medo daquele lugar onde estava, do lugar onde ele morava. Não queria sair de lá sozinha. Mal-humorado, ele trocou de roupa e foi com ela. Quase uma hora até o terminal, os dois nos últimos lugares do ônibus que sacolejava em ruas esburacadas. Eles conversavam, mas não se entendiam.
No terminal, ele já grosseiro, ela olhou aquele chuvisco cinza, e finalmente percebeu que se cansou de ter esperança. Olhou pra ele com um certo prazer... Ali chegara a sua vez de dar o troco. Ia dar-lhe uma bela facada. Estavam no meio da plataforma. Ela tinha cara de anjo e ele não esperava isso dela. O acertou no meio do peito e disse "foda-se", virou as costas e o largou lá, deitado no chão que tanto gostava, sangrando.
Nunca mais soube dele. Ele nunca mais soube dela. Os dois pegaram seus ônibus e choraram até chegar em suas casas. E depois, simplesmente, se esqueceram.
sábado, maio 06, 2006
O tempo
O tempo pode ser o melhor remédio, mas também pode ser nosso pior carrasco.
Tenho pensado muito no tempo...
Ele pode clarear nossas idéias, fortalecer relações, pacificar ressentimentos, aliviar paixões...
Mas também pode aumentar dúvidas, aprofundar separações, intensificar mágoas, endurecer ódios.
Sempre busquei no tempo o momento imediato. Minha relação com ele sempre quis ser rápida. Mas, ironia, o tempo nunca me levou a sério.
Meus passos parecem ágeis, mas quando percebo andei muito devagar...
O tempo exercita a minha paciência e eu sou obrigada a me curvar a ele...
O que mais temo no tempo é o esquecimento, apagar da memória os detalhes preciosos dos momentos.
Hoje, nesse exercício de escrever, muito do que me move é a tentativa de registrar, não deixar passar, não permitir o esquecer. Porque acho que já esqueci muita coisa nesta vida. E não quero mais esquecer.
terça-feira, maio 02, 2006
Jéssica
A Jéssica passou em casa no último domingo. As visitas da Jéssica sempre me deixam desconcertada. Tudo porque eu não sei mais o que fazer... Sua visão me pesa na consciência...
A Jéssica freqüenta minha casa há uns 3 anos. Bateu lá a primeira vez para pedir. Sua vida é pedir. Sua família só sabe pedir. Contam no bairro que a avó dela, Cícera, era o tipo de pedinte às antigas, que todas as donas-de-casa ajudam. Até que Cícera sumiu e seu filho, dias depois, apareceu com cara triste, contando que a mãe havia morrido e que ele não tinha dinheiro para pagar o enterro. O bairro se sensibilizou e todos que sempre ajudaram Cícera deram dinheiro para o seu enterro um pouco mais digno. Mais algumas semanas depois a Cícera volta a pedir pelas casas, muito viva!! Não sabia que estava "morta". Seu filho enganou todos... Esse homem é o pai de Jéssica.
Me sensibilizei de cara com a menina. Começamos a conversar e ela passou a confiar em mim. Sempre vinha com um irmão ou irmã mais novos. No começo, achei que poderia mudar a vida da garota com conselhos, cadernos, livros, palavras, incentivos. Mas sempre lhe dava também comida. A Jéssica e os seus estão sempre com fome. Devoram com gosto as xícaras de café com leite, pão com manteiga, bolo e bolachas.
Para ajudá-la a encontrar um caminho que não passasse pela mendicância, passei a comprar dela bombons. Primeiro, ela pegava de uma vizinha, depois passou a fazer ela mesma em casa. Ajudei a comprar o primeiro material...
Também dei-lhe um pito, para ela não pedir por aí. Percebi que a mãe a obrigava. Disse para a sua mãe que a ajudaria, mas se descobrisse que estava mendigando a entregaria (a mãe) para o Conselho Tutelar. Liguei para a sua escola, tentei mobilizar meio mundo....
Mas a vida da Jéssica é tão difícil... Todas as tentativas se perdem... Fazer bombons, por exemplo, não deu certo... Com sete crianças em casa e geladeira vazia, o chocolate desaparecia sem ela perceber.... Um sábado a flagrei na rua de cima, sentada na calçada com uns quatro irmãos, comendo algo que alguma casa tinha dado. Parei o carro, a chamei, ela ficou branca... Sabia que eu havia descoberto que ela ainda pedia... Como endurecer com a criatura???
A Jéssica é a mais velha de sete irmãos. Quando a olho vejo com vergonha tudo o que falta neste país. Mora num barraco numa favela. No último verão, numa tempestade, um barranco caiu sobre o barraco, que foi destelhado. A prefeitura até refez a cobertura, mas quando chove tudo inunda de novo, por causa das goteiras.
A mãe e o pai nunca se preocuparam em evitar filhos... Meu Deus, prá que colocar oito no mundo!!! De vez em quando, a mãe trabalha em uma frente de trabalho do estado ou da prefeitura e consegue ganhar um salário mínimo. Mas são oito filhos, mais o marido que bebe, mais a sogra Cícera que não pode mais pedir como pedia antes....
A Jéssica sempre diz que a família não tem dinheiro para comprar o gás de cozinha. E ela sai de casa em casa pedindo para as pessoas o dinheiro do gás. Deve mentir... Percebo que tem vergonha de pedir tudo o que precisa... Mas, quando falta mesmo o gás, a mãe acende uma fogueira para fazer a comida, e os vizinhos por motivos óbvios a obrigam a apagar. Não tem coisa pior que fogo em favela.
A Jéssica não consegue ir além na escola. Há anos está na oitava série. Hoje está com 17... A escola diz que a "família é totalmente desestruturada".... Duvido que algum professor, um dia, tenha olhado pra ela...
Outro dia apareceu de noite em casa, no meio da chuva, com um amigo. Eu não estava, meu marido os colocou na varanda, perguntou se queriam comer algo, o que precisavam e mandou me esperarem. Não aceitaram a comida, mas esperaram a chuva passar e desapareceram na noite.
É uma menina angustiada, triste, que sempre parece ter um nó na garganta, uma vontade de chorar e de gritar que não quer essa vida. Parece que sabe que tem um destino de pobreza, e não consegue uma forma de se livrar dele... E eu acho que nunca conseguirei ajudá-la... a Jéssica.
sexta-feira, abril 21, 2006
Só posso te escutar
Inconsciente, na mesa de cirurgia, você balbuciou o meu nome?!
Você está enlouquendo...
Você me ama, mas o que posso fazer por você?
Só posso te escutar... e te compreender.
Este é o meu limite.
Observo imóvel todas as tuas tentativas de me tocar.
E me esquivo.
Escuto quieta todas as tuas palavras de carinho.
E também todos os seus desejos obscenos.
Mas tudo o que posso fazer é escutar.
Sei que isso não serve para você.
Mas você tem que saber que eu não sirvo para você.
Eu só entendo a sua loucura.
Porque também sou capaz de ser tão obsessiva.
E já cheguei bem próximo da loucura, como hoje você está.
Mas aprendi.
Hoje eu posso até chorar.
Talvez eu chore como você na única vez que me escreveu.
Mas nunca, nunca vou enlouquecer por amor como você quer enlouquecer.
quarta-feira, abril 19, 2006
O desafio
A Marina desafiou e eu aceito de bom grado.
A brincadeira é a seguinte: confessar cinco manias e passar a bola pra outras cinco seguirem.
Vou atrás dos passos da Marina e passo a bola primeiro: Dani, Ana, Sandra, Del e Nadia. Coloco seu link, Dani?
A próxima etapa é mais difícil: selecionar as manias. Porque mania é vício e virtude que nem sempre a gente está disposto a reconhecer. Por isso, demorei pra responder.
Então, vou começar com as mais básicas e termino com as mais vergonhosas de confessar. Mas vamos lá:
1 – Eu não saio de casa sem brincos. Sem eles me sinto nua. Mesmo atrasada já cheguei a voltar pra casa para colocar brincos esquecidos em cima de alguma cômoda. Já comprei pares na rua ao perceber que estava sem. E, de vez em quando, ando com pares sobressalentes na bolsa para não correr nenhum o risco.
2 – Eu sempre passo batom no trânsito. Dentro do carro, parada no farol, na direção ou não. Raramente saio de casa com lábios pintados. O batom é quase um equipamento do carro. E, ao colorir os lábios, lembro automaticamente da personagem da Isabela Garcia na novela Bebê a Bordo, novela babaca que eu não consigo esquecer. Tudo por causa de um namorado na produção (ehhrrr!!). A garota passava batom no ônibus sacolejante e não borrava nada. Que inveja! Só na novela mesmo!
3 – Eu durmo de meia. Podem rir à vontade. Adoro uma meinha. Uma vez, fui dormir na casa da Beth e esqueci a meia. A menina morava do lado do zôo e fazia lá um frio daqueles. Aí, pedi a meia. Morrendo de rir, ela me emprestou um par do marido, que não estava lá. Só deixo as meias de lado se o calor está infernal. Ou se... bem, essa é outra história.
4 - Eu encaro as pessoas na rua. Mania de criança. Lembro do meu pai na feira me dando o maior bronca: ‘Menina, para de encarar os outros. Qualquer dia você vai levar uma na orelha’. Mas não consigo parar. É como se eu procurasse incessantemente alguém que não sei quem é. Sempre olho pra perfis, na esperança de ser um velho conhecido, um velho amigo, um velho amor. Quando alcanço os olhos da pessoa, o estranho, disfarço rapidamente, viro a cara, como uma imbecil. Dá pra contar nos dedos o número de vezes que encontrei alguém assim.
5 – Eu sempre imagino a morte das pessoas que amo. Mania esquisita. Já me achei maluca por causa disso. Agora, nem ligo mais. Sinto minha reação e depois penso na minha própria morte, de como as pessoas reagiriam. Isso parece pesado, e deve ser mesmo. Mas também é uma mania de criança. Comecei pensando na morte de meus pais, depois na do meu irmão... Cresci e a morte de meus melhores amigos e amores passaram a fazer parte dos meus pensamentos. Há tempos conclui que é uma forma de preservar quem eu amo e desencanei. Deixo o pensamento mórbido vir e espero que ele passe rápido. Com quase 40, é impossível impedi-lo. É como se eu, imaginando a morte de quem amo, a evitasse. Só uma morte eu não ousei imaginar. E essa foi a única que me atingiu.
segunda-feira, abril 17, 2006
O nome da coisa
Não é doença. É um problema. Graças a ela tenho deliciosas tonturas, como se sozinha eu tivesse bebido uma garrafa de bom vinho, mas nas horas mais impróprias. Deliciosa tontura que não posso ter.
Acontece por causa de uma confusão entre insulina e glicose dentro do meu corpo. O organismo não consegue absorver o açúcar com a rapidez necessária. No limite, vira diabetes. No meu caso, está controlada, mas a taxa precisa continuar a cair.
Hoje, enquanto a médica ia me explicando o que acontece, tentando fazer com que eu entendesse a relação entre insulina e glicose, e como eu tinha conseguido baixar a taxa desde a última consulta, eu só pensava nos cinco ovos de chocolate que a Bia ganhou na Páscoa. E pensava mais ainda no pedaço de bolo de pêssego que deixei na geladeira.
Eu ainda tentei argumentar: "Então, o ovo de chocolate..." E ela me cortou: "Ovo de Páscoa nem pensar", respondeu a insensível. E eu pensei: "Foda-se. Vou comer é aquele bolo".
Nem perguntei pra ela da cerveja. Pelo menos as destiladas devem estar liberadas.
Quanto ao bolo? Bem, este já era.
Breve nostalgia
Não devia. A lógica indicava um dia triste, deprê mesmo. Afinal, ontem sai do jornal quase meia noite e menos de oito horas depois já tinha que estar lá de volta. A manhã estava cinza, fria e chovia. E eu, atrasada.
Mas, mesmo com tudo contra, amanheci com aquele leve bom humor, uma doce nostalgia, e lembrei dos meus amigos.
Penso que passamos por amigos ao longo da vida. Há sempre os bons, os muito bons e os dispensáveis. Há aqueles que, ao cruzarem com você, te acompanham para sempre, sem perder um capítulo de sua vida. E há os que nunca serão amigos de verdade: serão só personagens, às vezes até importantes, mas de um período.
Mas hoje lembrei-me dos meus amigos de alma. Que todos os outros me perdoem. Mas há pessoas que conhecemos e passam a fazer parte da gente.
Gosto de pensar que são meus amigos de alma porque me enxergo neles. Uma reação, um jeito de olhar ou falar, um movimento de corpo, tudo é familiar. Sei quem sou através deles. E sei o que eles dizem através de mim. Às vezes nem precisamos falar. Apenas sabemos uns dos outros. Esses são amigos raros.
É um grupo que teve sua base forjada nos mesmos sonhos. Não importa se os sonhos não viraram realidade. Não importa se ficamos anos sem nos falar. Quando nos reencontramos, é como se o tempo não tivesse passado. E quando estamos juntos, somos um só. "É sua turma, querida", diz a também querida Ana.
Ao reencontrá-los, volto a me entender. O que é confuso, fica límpido. E o coração que pesa, deixa de pesar.
terça-feira, abril 11, 2006
Um dia
o corpo deitado na cama...
a brisa batendo nos seios...
os sons da casa:
o cachorro comendo
alguém no banheiro
a respiração da criança
o tictac...
os sons da rua:
ônibus
caminhão
latido
a nuca, as costas e os pés nos lençóis...
o cabelo molhado...
um pezinho infantil na costela...
à tarde...
só tensão, raiva e dor
à noite...
o peso do corpo sobre os ombros
abro os olhos e vejo:
unhas dos pés pintadas contra um teto manchado
relaxo
respiro
te abraço
sábado, abril 08, 2006
Transbordar
Transbordando de sentimentos e sentimentalismos
Penso em você a cada minuto
Acordo e durmo com você no meu coração, a meu lado, na minha mente
Um sentimento tão bom, tão simples, tão meu
Sentimento que não sei nem se quero compartilhar com alguém
Que me esquenta por dentro, que me deixa toda dolorida, com uma vontade louca de chorar, mas sem lágrimas para derramar
O que é isso? É o mais puro amor que pode existir, eu sei
Amor que parece não ter espaço na vida real
Só sei que, quando te vejo, o que parece que vai explodir, de repente se acalma, sem pressa de acontecer
segunda-feira, abril 03, 2006
"Quem é você?"
Você apareceu não sei de onde e tentou me arrancar do meu esconderijo...
Eu lá, atrás da coluna negra, encolhida, nem vi teu rosto.
Senti teu abraço, teu calor, tua barba mal feita roçando o meu rosto e ouvi seu apelo: "Sai daí".
Mas te senti e não te vi. Não te reconheci.
Os meus olhos estavam encharcados, os meus óculos embaçados e minha maquiagem já devia estar borrada.
Você tentou me tirar de lá...
Você me seguiu? Como descobriu que estava ali? Ninguém mais me viu...
Meus íntimos não me viram.
Sai do meio daquela multidão sem dar sinal a ninguém...
Fui me afundar em um lugar só, a batida fazendo vibrar meu corpo... esquecer...
"Sai daí", você pediu. "Eu nem sei quem é você", retruquei.
"Eu não estou te dando uma cantada".
"Eu sei".
Eu sempre soube...
domingo, abril 02, 2006
Pelo menos um fruto
Se esse blog um dia eu apagar e esquecer, pelo menos um fruto ele teve: de tanto encher a Dani , ela também voltou a escrever.
Estão, aí vai mais uma dela. Um poema que eu não sei o título:
"como se estivesses junto a mim, eu te saúdo.
não ouso olhar de lado,
para que eu não fique de frente com a verdade
ensaios de um sorriso amargo e fútil,
o faz-de-conta, a insistência, o inútil passatempo.
a impaciência disfarçada em letargia.
um vago olhar que não admite a agonia.
a mesma sala, a janela, o mesmo canto.
silente canto a madrugada principia.
em vão o desdenhar. nada convenço.
é tudo aqui. é tudo imenso. tudo agora.
se calo, a minha mente me ignora.
e embora não lamente, sei que falo.
inalo o que evapora do ambiente,
outrora tão da gente a perfumá-lo
te trago mais pra mim, no pensamento,
e invento que o presente é o passado,
que a chuva na janela não existe,
que o beijo inda divide o mesmo trago,
as mãos não se deixaram à própria sorte,que a fala vem da mímica das línguas bailando pela química das bocas,
que as pernas se assemelham aos nossos braços no tanto dos abraços que nos
damos, que os olhos que são teus, são meus iguais, pois vêem só nós dois e ninguém
mais
...tudo o pensamento dulcifica.
mas o que fica é esse gosto amaro
pela certeza de um não-momento
contando o tempo de uma noite em claro."
sábado, abril 01, 2006
O esconderijo perfeito
Outro dia escarafunchei a memória para contar-lhe o pouco que guardei da minha avó. Minha avó que morreu quando eu tinha pouco mais de 4, ela não tinha nem 60, mas de quem eu tenho as mais doces lembranças. Ela era miúda, mais ainda que eu, diz meu pai, mas pra minha visão infantil ela era muito grande. Fecho os olhos e sinto ainda seu cheiro acre, a vejo pela cozinha mexendo nas panelas, sinto o gosto de sua macarronada com carne moída e me vejo encantada com a cor de seu arroz com colorau.
Me colocava em cima de um cadeira pra consertar minhas roupas (eu ficava da altura dela) e dizia “Quieta, menina, senão eu te espeto”, enquanto ajeitava a barra no meu vestido que nunca era novo, era sempre reformado de alguma menina mais velha... Lembro de seu cabelo armado e cinzento, de suas mãos morenas e enrugadas, dos seus óculos, da sua saia abaixo do joelho, também cinza....
Mas lembro principalmente de vê-la chegando em minha casa. E é a história predileta da Bia, que morre de rir quando eu conto, talvez porque nessa hora ela imagine que é exatamente como eu era.
Morávamos em um sobradinho no fim de uma vila particular na Água Rasa (nome sempre intrigante e sonoro pra mim... Água Rasa... Rasa por quê? Qual riacho deveria ser esse, em que canal de esgoto deve ter se transformado...).
Meu quarto tinha a janela pra frente, meu castelo, de onde eu via a ruazinha de paralelepípedos que levava até o pátio final da vila. Daquela janela eu via aquela figura miúda e gigante chegando, seguida pelo moleque de cabelos raspados na nuca, como se usava naqueles tempo, bermuda nos joelhos, camisa branca e óculos de aro preto, meu tio Carlinhos, irmão caçula do meu pai, que era o irmão mais velho.
Só aquela visão já me excitava, me enchia de felicidade. Vê-la da janela, preparar-lhe uma surpresa.... A avó vinha nos ver, eu e meu irmão mais velho. Mas hoje acho que vinha principalmente me ver, a única menina daquela mulher que tinha tido cinco filhos, todos homens, e que tinha tido o infortúnio de perder a primeira vida feminina com seu sangue (minha irmã), morta na mão de um médico famoso, mas inábil.
Aquela bebê que morreu poderia ter permitido a ela, mulher-avó, realizar seu provável sonho de costurar vestidinhos com rendas e comprar bonecas e exercitar mimos delicados. Porque os meninos deviam ser criados com mais dureza e as meninas podiam ser sempre mais delicadas. A menina aliviaria a aspereza de sua vida.
Mas a morte inesperada adiou seu provável sonho em seis anos, até que eu nasci, num mês de muito frio. E fui mesmo muito mimada na infância, por avós, tios e tias... Sempre por ser mulher e caçula e miúda e rouca e por andar na ponta dos pés. Cada ano, enquanto eu crescia, sempre havia um novo motivo para um pouco mais de mimo....
Mas era a minha avó chegando naquela viela e eu me escondia no melhor lugar da casa: embaixo do lençol. É engraçado como acreditava que desaparecia. As crianças acreditam. A Bia repete a brincadeira e acredita... Mesmo sob o lençol, a cama, pra criança, é lisa, sem rugas ou obstáculos. E eu ficava na expectativa ouvindo seus passos subirem a escada, e minha avó entrava no quarto, e perguntava por mim, e alguém dizia que eu tinha saído, e ela se sentava sobre mim, e eu ria, e dizia “Vó, estou aqui”, e ela se fingia de surpresa e ria, e nos abraçávamos e beijávamos, e, e, e.
Não sei por quê, mas dia desses contando essa história pra Bia não consegui deixar de chorar (choro agora ao escrevê-la). Deitadas na cama, a Bia gargalhando e as minhas lágrimas escorrendo sem parar, sem que eu conseguisse evitar... “Por que você está chorando, mãe?”. “Acho que é saudades da minha avó, Bia”.
Ela não disse mais nada, não perguntou mais nada, só ficou me olhando, com aqueles olhinhos de jabuticaba. E eu achei bom. Não saberia explicar se é saudades da avó, bisavó dela, ou daquela menina que tinha talvez 3 anos e que acreditava que o lençol sobre ela era o esconderijo perfeito. Porque os esconderijos perfeitos não existem. E também não existe mais a menina. Existe só alguém que eu sempre achei que conhecia, mas que me surpreende a cada dia.
domingo, março 26, 2006
Na beira do rio
Foi na segunda-feira. A primeira vez veio num pesadelo. Eu dirigia na Avenida dos Estados, meu caminho diário para o trabalho, quando por impaciência resolvi ultrapassar o carro da frente. A falta de paciência é o meu ponto fraco, onde a vida mais me testa. Por mais que eu queira tudo com urgência, tenho sempre a impressão que a vida trabalha muito devagar comigo.
Então, fui tentar ultrapassar o carro da frente, meu carro se precipitou para ao rio e voou sobre ele. Via o rio podre embaixo de mim e eu, desesperada, tentando virar o carro para a direita, como se ele fosse um avião, mesmo sabendo que minha imprudência faria eu me esburrachar sobre outro carro.
Era como se o sonho me mostrasse que, com a minha pressa para coisas da vida, eu estava prestes a cair no esgoto, morrer e matar (Nossa!!! Como fui dramática agora!!! mas não vou apagar o já escrito não...). Minha alma, então, literalmente caiu no meu corpo, que já nem respirava na cama de tanto pavor. Acordei num susto. Eram umas 3h da manhã. Suava frio e dormir de novo foi um sacrifício.
A lembrança do pesadelo me acompanhou durante todo o dia. Coisa difícil. Sonhos normalmente não me abalam. Mas esse... À noite, uma tempestade caiu na cidade. Lembrei da madrugada, do pesadelo, das enchentes do Tamanduateí e resolvi ser prudente. Esperei. Sai do jornal bem tarde e segui meu caminho.
Em Santo André, o chuva voltou a apertar, mas achei que estava tudo bem. De repente, na mesma beira do Tamanduateí, percebi que estava no meio da água. Um carro passou ao lado e aquele aguaceiro fedendo esgoto me cobriu até o teto. Há tempos não passava tanto medo real.
Foi só então que olhei para o rio. Ele estava no limite do transbordamento. Acho que rezei por todos os deuses, santos e anjos. Se transbordasse, eu não conseguiria rodar. A água (jogada pelos carros que passavam ao meu lado) ainda me cobriu mais duas vezes. A cada vez era como se eu estive dentro de uma onda. Quando saí daquele trecho, fiquei imaginando que o cheiro de esgoto ia ficar no carro o resto da vida. Mas não ficou. A chuva lavou antes mesmo de eu chegar em casa.
Sempre me perguntam porque insisto no caminho na beira do rio. Amigos e parentes preferem a Anchieta ou até mesmo o centro de São Caetano. Eu continuo a insistir na feia Avenida dos Estados. Conheço cada um de seus buracos. Mesmo com a chuva, não gosto de fazer outro caminho.
Acho que é o rio. Segui-lo me faz bem. Ele hoje é um esgotão, eu sei, todos sabem, mas acho que, numa emergência, posso pegar uma transversal à direita e me safar. A Anchieta me parece um deserto se tiver que parar no acostamento. São Caetano é como um cenário. Também evito cruzar a Heliópolis, quando lembro que foi lá que passei o primeiro arrastão de minha vida.
Ultimamente, de tanto que insistem, até tenho testado outros caminhos. Outro dia, peguei a esburacaba Presidente Wilson e depois a nova avenida, que cruza a abandonada indústria Matarazzo. É como cruzar uma cidade fantasma. E, no final, a gente cai de novo na Avenida dos Estados, onde eu me localizo, sem medo.
sexta-feira, março 24, 2006
E é sexta-feira...
Vítima desse infeliz rodízio de carros implantado pela Prefeitura de São Paulo, eu acabo madrugando no jornal mesmo sem necessidade. Para não levar uma multa daquelas, acordo às 5h, saio de casa às 6h e antes das 7h estou aqui, tomando pingado e comendo um pão com manteiga no boteco. Tenho sono o dia inteiro e, no fim da tarde, me obrigo a fazer tudo correndo pra não levar uma multa na volta pra casa. E, quando saio do jornal, tenho a impressão que estão todos me olhando com ar crítico e pensando assim: "Hum, como vai embora cedo, aquela folgada..." Quando estou muito atrasada, ainda fico desviando dos pontos onde, sei, estão os malditos marronzinhos... Pareço uma ladra em fuga. Há humor que aguente isso?
Só que essa sexta-feira é a pior do mês. Ela ainda é véspera de plantão.
Plantão é o osso dessa minha profissão. Amanhã e depois são os dias que eu vou roer meu osso. E depois trabalhar mais uma semana inteira, me arrastando todas as manhãs, até o outra sexta de sono, correria, e etc e tal...
Escrever esse monte de bobagens já um sinal de mau humor. Mas é só um desabafo... Que sempre faz bem... no fim das contas...
terça-feira, março 21, 2006
A Ex-Mulher
Ela tinha cabelos claros, no tom dourado. E olhos também claros, talvez azuis, talvez verdes, talvez cor de mel, não sei bem. Acho que tinham o mesmo tom do cabelo. Mas lembro que eram grandes, sempre esbugalhados e brilhantes quando falava, e isso foi o que mais me impressionou nela. A vi apenas três vezes e sempre foi em seu olhar que eu me fixei. Na primeira vez, o olhar era de submissão. Na segunda, de desespero. E na terceira, vinha carregado de uma frieza, quase uma ameaça.
Foi no intervalo entre o nosso primeiro e segundo encontros que ela de boa vontade se apresentou a mim: “Oi, eu sou a Maria. Sou a ex-mulher do João”. Ela falou aquilo como se fosse uma sina, uma profissão: “Eu sou a ex-mulher!” E ao mesmo tempo com tanta naturalidade que eu me assustei. Porque ao atribuir a si mesma a posição de “ex-mulher” ela se destituía do que dela era mais importante, o ser mulher. Era como se ela só existisse a partir dele, através dele, daquele homem que ela imaginava ainda amar. E, por ela, eu senti pena, o pior dos sentimentos.
Não que a culpa fosse dela. Em se tratando de casais, não há culpas individuais. Eu, sem querer, sem ao menos conhecê-los direito, conhecia bem a sua história. Não que eu fizesse questão de saber. Na verdade, nunca procurei saber. Mas tenho um curioso dom: fico sempre sabendo do que não procuro saber. Não preciso especular, não preciso perguntar. Às vezes demora dias, às vezes anos, mas cedo ou tarde as pessoas vêm a mim e me contam, como se eu fosse alguém para quem fosse sempre interessante contar sobre a própria vida e a vida alheia. E outras vezes nem preciso que me contem. Como uma visionária, eu olho, observo por instantes e simplesmente sei.
Então, sabia da história deles. Sabia que um dia se amaram, não por uma paixão avassaladora, mas se amaram. Soube que ela tinha por ele grande admiração e ele, por ela, carinho e respeito. Mas como os amores feitos de admiração, carinho e respeito são mornos, um dia ele, que era mais consciente de suas vontades, decidiu partir. E ela não se conformou. E, mesmo não morando mais na mesma casa, continuou a cuidar dele. Levava suas contas ao banco para pagar, orientava a empregada, checava a sua geladeira, comprava até as suas cuecas. E ele, por compaixão, permitia. E ela não perdia as esperanças de um dia voltar a dividir com ele a cama. E ele tinha a certeza que isso nunca mais aconteceria.
(Abro um parênteses aqui para dizer que nem a nossa Língua Pátria a ajudava. Me explico: minha amiga não tinha muitas opções no nosso Português. Aqui, é comum entre os casados chamarem-se de marido e mulher. Se uma mulher falar “esse é meu homem” isso é tido como vulgar. Ela o chama de marido, o que é mais formal. A formalidade da palavra na nossa sociedade com certeza sumiria se todos soubessem que em latim marido (maritus) significa “o macho”, mas quase ninguém sabe disso. E, apesar de sermos a maioria cristãos, acaba pesando sobre nós o significado da tradução hebraica, onde a palavra marido (baal) se aproxima mais dos substantivos “dono” e “patrão”. E o mais revoltante é que é natural um homem chamar a sua companheira de “minha mulher”, o que significa dizer aquela que me pertence. Nos tempos de hoje, chamá-la de esposa, ou a que desposo, é que é antiquado.)
E pensando nela, e no significado das palavras, tentei me colocar no lugar de Maria. Eu definitivamente nunca me apresentaria como “a ex-mulher”. Acho que diria algo assim: “Oi, prazer, eu sou Maria. Ele, João, é meu ex-marido”. Falaria do jeito certo para que percebessem que eu não sou anexa a ele. E quem me ouvisse entenderia que aquele tinha sido sim o meu homem, que eu o amei e que, no fundo, de alguma forma, ainda o amava, mas de uma maneira leve, afetuosa. Que tinha sido sua mulher, mas que por conta do passar da vida a vontade de ficar junto esfumaçou-se. Que ele percebeu primeiro e eu, não tendo como negar, mesmo com dor, cedi. E que, agora também livre, estou pronta para procurar outros amores. Sem ser submissa, sem desespero e sem o medo que acompanha sempre quem ameaça.
sábado, março 18, 2006
Viva a banda Calypso!
Conhecemos hoje o RBD. Conhecemos mesmo, eu, a Bia e o Mauro. Festa de aniversário de criança, perifa, o repertório é sempre suspeito. Oscilou entre Xuxa, RBD, Gino & Geno, Teodoro & Sampaio e Banda Calypso.
Mas fomos apresentados ao RBD, ou Rebeldes, garotos protagonistas da novelinha do SBT, que involuntariamente mataram três pisoteados há mais ou menos um mês num shopping perto da Represa do Guarapiranga.
A aniversariante ficou super feliz de ter ganho o DVD de presente. Ai meu Deus, vamos ouvir!! A meninada parou para assistir, dançar, babar nas garotas e garotos (mexicanos???) de cabelos espetados e pintados (um deles parecia o Pequeno Príncipe, pode??).
A Bia foi junto (Que medo!!!). Parou na frente do telão, mas atrás da fila de meninas que sabia a dança na ponta dos pés. Mas não conseguia dançar. Nunca tinha visto aquilo. Isso é uma vitória para nós, pais talvez caretas, mas que tentam ser "politicamente corretos" e "culturalmente acadêmicos", mas que no limite são censores mesmo. No meio da segunda dança, largou aquilo e foi pro parquinho. Ela é meu orgulho!!!
Assistindo, passei a entender um pouco da moda adolescente. As três meninas do RBD usavam microssaia com bota e bustiê. Nada muito diferente do que as chacretes faziam há 30 anos.
Mas o que mais me chamou a atenção foi o bustiê com sutiã à vista.
Sempre achei um horror essa moda que mostra o sutiã. Mesmo que ele tenha a mesma cor berrante da blusinha, sempre achei um horror. Cresci sofrendo para esconder o sutiã. A alça de silicone foi o máximo que se inventou para se manter o sutiã escondido (tá certo que pra muita menina ficava pior a emenda que o soneto: o silicone apertado na carne fazia ela parecer mais com um salsicha amarrada...).
Aí, nos últimos tempos, vejo uma avalanche de sutiãs berrantes, aparecendo pra fora das camisetas cavadas. No começo achei que era a libertação feminina, mas aos poucos comecei a pensar que aquilo era mesmo puro mau gosto. A culpa é do RBD, só pode ser!!! As três gurias, mesmo com o bustiê (ou top, como preferirem), fazem questão de mostrar seus sutiãs, cruzando as costas, que podiam estar livres, lindas, bem mais sensuais. Que moda mais sem classe!!!
Das opções da noite, prefiro mesmo o Calypso. A bota pra cima do joelho com minissaia a la chacrete é a mesma, mas pelo menos o bustiê é amarrado, a cava nos seios é bondosa, até apetitosa, fica muito mais bonito. ... E não usam o sutiã... E é nacional! Do Pára (sai do eixo Rio-São Paulo-Salvador) e é dançante, rebolante, como a antiga lambada (lembro de eu e o Rai dançando lambada nas arquibancadas do Pacaembu durante um comício do Lula, na primeira campanha: Lulalá...que saudades...da dança, me entendam).
Foi ótima a noite. Aniversário na perifa (com churrasco duro, chopps quente e salgadinho frito e frio) é sempre uma delícia....