domingo, setembro 07, 2008
Cléo e Théo
Ela gosta dele, ele gosta dela, são da mesma raça, os dois virgens, pretinhos e alegres.
Mas ele tem um defeito difícil pra ela encarar: é enorme! Um cão amoroso, mas pesado, desajeitado, que não sabe como chegar naquela menina miudinha, delicada e leve como uma pluma.
Os dois têm a mesma altura e comprimento, mas a largura é desproporcional. Eles brincam e brincam, e mal latem um para o outro quando estão brincando, deitam e e rolam, até a hora do vamos ver... e a coitada desaba. Literalmente cai! E late de raiva, mostrando os dentes pra ele: "Vai com calma!"
O dia começou com a gente indo levar a Cléo pra casa do Théo. "No território do macho é mais fácil!", alguém nos disse.
No sábado, os dois já haviam passado a tarde em casa, mas nada... Mas hoje, enquanto estávamos na padaria tomando café da manhã, ela ficou lá na garagem dele, grudada na grade, se sentindo refém: "Mãe, Bia, me tirem daqui!", parecia que gritava quando nos viu de volta. Decidimos, então, levá-lo pra brincar na nossa casa: "Sabe como é, no quintal grande, com mais espaço, os dois podem se acertar!", eu disse pra 'mãe' do menino.
O dona do Théo também estava animada com o encontro. "É que também não aguento mais. Só ando de calças compridas agora! Ele não para de grudar nas minhas pernas!", me disse, com um sorrizinho.
Mas, ao mesmo tempo, a senhora, que tem lá seus 65 anos, se sentia meio traída por ele. "Ontem, quando ele voltou da sua casa, ficou tão deprimido... É por causa dela. O Théo sempre deita comigo de noite, mas ontem não quis nem saber de mim. Eu chamei e ele só ficou lá, no canto. É que nem filho, sabe? Quando arruma uma namorada esquece da mãe!"
"É, deve ser isso mesmo!!!", eu respondi, me divertindo.
Em casa soltei os dois no quintal. Mas o moleque é tão gordo que nem conseguia subir a mureta que a Cléo pula com a maior agilidade. E parece tão atrapalhado que entra com as quatro patas dentro do pote de água. "Deve ser o calor", eu penso, enquanto a Bia não pára de rir.
Uma tarde toda e eles ficaram lá, entre tapas e beijos. Mais nada... nada mais sério.
No fim da tarde, o garoto já estava ansioso pra voltar pra sua casa.
"Olha, não deu certo hoje de novo. Amanhã a gente pode tentar de novo! E ele parece que já estava esperando a senhora aqui na porta! Tava ansioso mesmo", eu disse pra 'mãe' dele, quando ela chegou pra buscá-lo.
"É que esse cachorro não me larga. É muito grudado em mim, não te disse!", ela respondeu, feliz da vida.
Pelo menos traída a senhorinha não vai se sentir mais.
sábado, agosto 23, 2008
O que é a paixão, doutor?
Marie Claire - O que é a paixão?
Robert Neuburger - É o abandono da vigilância. A paixão invade, pode fazer com que você negligencie os filhos, o trabalho, tudo. A paixão se organiza dentro da ansiedade e da urgência. O sentimento primordial é a necessidade absoluta do outro.
MC - O que provoca esse estado? O encontro com alguém especial?
RN - Não, esse estado precede o encontro com a pessoa que vai se transformar no objeto da paixão. Corresponde à necessidade de se sentir vivo. Geralmente, as pessoas se apaixonam quando estão se sentindo mal, insatisfeitas consigo mesmas e com os outros. Nessas situações, uma paixão faz a pessoa sentir que está vivendo intensamente. Claro que não se pode negligenciar a escolha da pessoa por quem se vai ficar apaixonado, mas o mecanismo passional vem antes. É acionado quando começamos a desejar algo que nos traga uma nova energia vital. A paixão toca no que existe de mais profundo na existência de cada um. É uma autoterapia excelente e um antidepressivo muito eficaz.
MC - É raro a paixão durar.
RN - Ela está ligada à vida e à morte. Ter amado passionalmente permite aceitar a morte. Mas não se deve ultrapassar a dose. Há um aspecto mortífero na paixão. Os apaixonados tendem a ir além de suas forças, com uma percepção alterada da realidade. O resto do mundo não existe mais, e isso não pode durar para sempre. Depois, tudo vai depender da maneira como a pessoa aterrissa: devagarinho, com lembranças maravilhosas, ou com amargor e arrependimento. A menos que a paixão se transforme em amor duradouro. E aí começa outra história.
* Por Isabelle Maury, da Marie Claire França
Tradução: Ana Ban
sexta-feira, agosto 22, 2008
Na minha nuca
Uma se veste com um anjo bom, toda de prata. A outra usa uma roupa marrom escuro, meio avermelhado, brilhante também. Uma fala assim:
- Ele não te ama, ponha isso na sua cabeça!
A outra replica:
- Ah, ele a ama sim. Tenho certeza!
Uma me dá bronca:
- Você já andou tanto pra frente! Não vai recuar agora, né?
E a outra argumenta e passa a mão na minha cabeça:
- Tá querendo pensar mais? Pensa, você faz bem...
Eu adoro é ficar de fora da conversa delas, elas brigando debaixo do meu nariz, ou atrás do meu pescoço, na minha nuca, e eu só observando. Olho pra uma e depois pra outra, às vezes rindo, outras brigando: "Dá pra parar de falar você duas?"
Não adianta. Meu protesto é em vão. Elas nunca páram. Ainda bem.
- Muda de cabelereiro e faz um corte bem fashion!
- Não, não, deixa ele crescer!
- Ficaram ótimos estes óculos.
- Na verdade, acho que você escolheu mal.
- Eu te disse que isso não ia dar certo!
- Ela fez o que achou que devia!
- Chuta o balde!
- Vai com calma.
- Liga.
- Desaparece.
- Confia.
- Desiste.
- Esquece.
- Insiste.
Elas se parecem mesmo com o anjo e ao diabinho dos desenhos animados, a boa e a má consciência de cada um. Nunca sei direito quem é quem. Elas vivem trocando de lugar. A prateada fica marrom. A marrom fica prateada. Depois, quando presto atenção de novo, voltam como num estalo ao seu outro estado. Só sei que nenhuma delas é má de coração. E nenhuma é boa demais. Mas sei que as duas só me querem bem.
-
Papo cabeça
- Nada demais. Só dormi, andei e trepei!
- Orra! E quer melhor?
-Ép! Acho que tá bom, né?
...
quinta-feira, agosto 07, 2008
Uma noite sem fim
A festa foi boa. Cheguei só, de táxi, minha amiga na porta à minha espera, vamos beber que é por isso que estou aqui. Conhecidos, beijos, oi, tudo bem, me dá cá um abraço, cadê a cerveja?
No pátio aberto, quem está faz apenas o social. Já sabe tudo o que vai rolar lá dentro, o que vai ser dito e o porquê. Lá dentro, um monte de gente, muitos interessados, outros quase dormindo, o pessoal que foi mesmo trabalhar.
Olha aqui: esta é minha amiga, jornalista. É, eu sou, mas estou de férias. Onde é que vende a cerveja? Tem trocado? Nossa, quanta gente! Tudo bem, daqui a pouco isso aqui acaba e gente estica. Você que ir pra onde? Tanto faz, hoje eu estou por sua conta. Viu aquele cara? Ele é interessante. Não é o seu tipo? É, não achei, não. Meu Deus, você por aqui? Você vê, por mais que queira sair do ABC, acabo voltando pra cá. Que saudades. Olha, essa aqui é minha amiga, minha "cumadi". Então é você, sempre quis te conhecer. Estou com fome, tem churrasco aqui? Lá fora, vamos lá.
Vou comprar mais uma e elas somem. Quando vejo, estão as três, num canto em pé, conversando um monte, em uma rodinha bem feminina.
Pergunta: o que falam mulheres maduras reunidas numa rodinha quando se encontram?
De seus homens, claro.
Ainda está com ele? Sim, é meu terceiro marido. Não sabia que tinha tido um segundo. Ah, eu lembro agora, ele era o homem mais lindo da redação. Lindo mais cruel, querida, muito cruel. E você, há quase 20 anos com o seu. É, pra você ver. Mas não quero mais dar pra ele. É, daí é difícil. Eu quebrei o cabaço e fui num sexshop comprar umas coisinhas. Mas meu namorado se nega a usar... Que babaca ele, não? Se fosse um homem mais velho usava. E eu que separei ontem e faço 40 amanhã. Estou arrasada... Aquele ali é um escroto, falso que só. Chega. Vamos? Um beijo, vamos sair mais dia desses, parabéns, coragem. O celular tocando na bolsa.
Cadê meu celular? Atende aí? Já estamos aqui, vocês não vêm?
No boteco tem mais mulher madura, com homens maduro, outros nem tantos, meninas, bichas e tudo o mais. Mais cerveja.
Me dá um croquete, vamos sentar lá fora, arruma umas mesas. Já estou aqui, sentada, esperando vocês. Tem algo melhor pra comer aqui? Come a batata assada que é mais saudável. Então dá uma, com berinjela que eu adoro.
Pergunta: o que falam mulheres maduras com homens maduros reunidos numa mesa de bar?
Das outras mulheres maduras que não estão lá. E falam também de seus ex-maridos, e filhos, e namorados. E dão pitaco na vida de quem está na mesa.
Não dá pra entender o que aquela lá tem que atrai tanto homem. Porque ela é muito feia, é vulgar, ninguém gosta dela. É, mas o fulano disse que até aquele outro, aquele bonitão meio gordo, pagava um pau por ela. Não acredito, ele parece tão inteligente. E ela mesma me disse que o cara era pegajoso, mas pagava algumas contas pra ela, então, tudo bem, ela aguentava ele. Outro dia, nem te conto, sumiu num bar e quando voltou disse que tinha ido dar uma. Ali mesmo, no meio do bar? Não sei, acho que sim. O maior bafão. Conheço você de uma festa, sou amigo do seu amigo. E ele, é viado ou não? Não sei. Já viu ele com mulher. Nunca, mas nem com homem. É, mas o cara é muito boa gente. E vocês, são skinheads? Carecas do ABC? Pô, não ofende. Esse aí, querida, não combina com você. O outro lá é melhor. Sempre fui assim, louca, batalhei pra criar meus filhos. Vamo'mbora que meus filhos não param de ligar. Pede a conta, eu deixo vinte, tchau.
Deitada em casa tudo isso vem sem muita ordem, até que eu durmo. Durmo? Não. Eu acordo de hora em hora, a madrugada não acaba. Levanto, bebo água, vou ao banheiro, deito de novo. Com frio, me cubro pra pouco depois chutar o edredon. Cinco horas, cinco e meia, sei lá, o despertador toca. Ele acorda pra ir trabalhar. Não tem a curiosidade de olhar no outro quarto, será que ela está aí? Com certeza está, as botas estão no corredor, a roupa jogada no banheiro. Ele assume o banheiro e eu continuo deitada. Ele sai do banheiro e eu não aguento, levanto, vou pra cozinha.
Bom dia. Bom dia. Fez café? Fiz.
Uma xícara, duas. Vou comer torrada com geléia e manteiga, tudo diet, tudo light. Vou esquentar o leite, tomar com café, perdi o sono. Ele se toma banho, se troca, eu ainda na cozinha, comendo e lendo o Unidade. Li inteirinho. Vou ao banheiro, palavras cruzadas. O dia ainda escuro. Ele sai e o sono não vem. Meu Deus, essa noite, essa balada não acaba. Tá, vou ler mais, na sala agora, escolho um livro velho, leio a dedicatória "Nós não queremos mais o paraíso, mas continuamos dispostos a continuar reencarnando", escolho um conto. Deu errado. Não veio o sono. Só mais e mais excitação. Preciso dormir, vou tomar mais café com leite, e mais um, e mais torrada. Vou deitar com ela, na minha cama, eu a abraço de costas e consigo dormir. São sete e meia.
:-/
terça-feira, agosto 05, 2008
Beijo de língua
"Bia, ele está com ciúmes de mim com você. Mas não tem motivo. Não sou nada dele. Quase nunca me vê. É tão difícil eu vir aqui", eu disse.
Então, só para testar, a Bia resolveu sair do meu colo para deixar o caminho livre para o garotão. Sem tirar os olhos dele, e com um sorrizinho maroto nos lábios, ela se sentou ao meu lado meio escondida e ficou esperando a reação dele. A Bia queria ver o circo pegar fogo.
O menino não perdeu tempo. Deu o primeiro e o segundo passos e, na seqüência, colocou sua pata esquerda e pesada no meu colo, depois a outra, e começou a avançar sobre o meu peito. Em segundos o bocão negro dele estava a um centímetro do meu nariz! Eu afastei o meu rosto, gritando.
"Vítor, socorro! Tira o Angus daqui porque ele quer me dar um beijo de língua: vai me lamber! Argh, que bafo!"
O boxer nunca mais me perdoou. Ofendido, foi sentar no seu tapetinho bordado à mão, de costas para a gente, e durante o resto da noite não olhou mais para mim. Que cachorrão mais temperamental! Magoou de vez! Mas até que devia ter aceitado o beijo de língua que queria me dar. Foi o único que me ofereceram aquela noite.
;-(
domingo, agosto 03, 2008
Registro
Entristecido, porém. Ninguém quer saber mais disso. Pra quê? Uma punheta basta. E de porre. Mas uma só. Mais que uma dói a mão. Dá trabalho.
Ontem cantaram Sentimental pra mim. Tenho que cantar e cantar pra não desistir. Não desistir de mim. E tentar transformar o sentimento. De novo. Geminiana eu sou. E esse é o meu desejo
Sentimental, sentimental
Um coração saliente
Bate e bate muito mais que
sente
Fica doente
Mas é natural, natural
Que num cochilo de agosto
Surja um outro alguém do sexo oposto
Do sexo oposto, outro alguém
Ontem vi tudo acabado
Meu céu desastrado
Medo, solidão, ciúmeHoje eu contei as estrelas
E a vida parece um filme
Gemini, gemini, geminiano
Este ano vai ser o seu ano
Ou senão, o destino não quis
Ah, eu hei de ser
Terei de ser
Serei feliz
Serei feliz, feliz
Façam muitas manhãs
Que se o mundo acabar
Eu ainda não fui feliz
Atrapalhem os pés
Dos exércitos, dos pelotões
Eu não fui feliz
Desmantelem no cais
Os navios de guerra
Eu ainda não fui feliz
Paralisem no céu
Todos os aviões
É urgente, eu não fui feliz
Tenho dezesseis anos
Sou morena clara
Atraente
E sentimental.
terça-feira, julho 29, 2008
Em suspenso
Não que eu estivesse em um lugar completamente isolado. Mas não tinha net em casa, lá não chega jornal e, assistir a um mundo pela só TV é como viajar sempre por um mundo irreal.
Como acreditar inteiramente no que diz o Datena, o JN ou a Marcia Goldsmith??
Os dias lá são cheios de crianças, sorvetes e doces.
As tardes repletas de páginas e mais páginas de livros. Há tempos não lia tanto.
E o calor não estava insuportável.
Santo descanso. Nunca foram tão boas as férias.
Nem no frio do Sul, nem nas praias do Nordeste.
A simplicidade me conquistou este ano.
Por uns dias, deixei de ser eu.
Mas, bem, estou de volta.
Mãos à obra!
.
domingo, julho 13, 2008
Já estou com saudades
Só com amor é possível querer continuar.
Sem esse afeto que já estava lá antes de tudo, e que sobrevive ao tempo e à toda palavra amarga, não teria como ouvir, se magoar e mesmo assim estar disposta a retomar.
O bom disso tudo é que a gente aprende a reconhecer o que realmente importa.
E aprende a esperar o tempo de cada um.
Porque, se eu demorei a perceber, não posso exigir a rapidez do outro.
Já estou com saudades.
domingo, julho 06, 2008
Crescendo
- Mãe, mãe, adultos não ficam um tempão no telefone?? Então, hoje eu fiquei falando um tempão com as minhas amigas no telefone, mãe...
- E daí, Bia?
- Fiquei um tempão com uma e depois com outra... Que nem um adulto! Não é legal??
Seu programa preferido na TV se chama...
Rebeldes,
ela diz que adora fazer...
compras,
e já escolheu as roupas que hoje são minhas e que, quando ela crescer, quer que sejam dela... Estão lá todos os meus sapatos altos...
E, quando está só, ela diz que tem... tédio!
Agora, ela descobriu a flauta doce. Meus ouvidos andam doendo.
De verdade, me surpreendo a cada dia. E é delicioso...
Estou adorando esta fase da Bia!
domingo, junho 22, 2008
A história da Helô (Parte 1)
Tudo bem, vou escrever uma história triste, mas é uma história que tem que ser contada um dia.
Não estou sofrendo, não estou remoendo, não cai em depressão por causa disso, mas não nego que traduzir o que passa na minha alma e na minha mente em letras legíveis alivia o meu espírito. É como tornar concreto o pensamento. Ele fica palpável, ao alcance da minha mão. E eu o supero. Então, vamos lá. Peguem seus lenços de papel.
----Parte 1
Quando cheguei lá ela já havia partido. Eu soube exatamente o momento. Primeiro veio o telefonema: "Vi, vem pra cá que a Helô está internada."
Sai do jornal como uma louca, e segui a pé em direção ao metrô, mas não andei nem 20 metros e a minha própria cabeça girou. Era como se eu, no meio da multidão anônima, estivesse sendo observada por todos. Uma zueira no ouvido, uma falta de sentido de direção e a certeza de que não era possível seguir a pé. Voltei pra trás, pro jornal, e pedi por favor um carro (Dias depois percebi que foi exatamente neste momento de angústia e de vertigem que ela partia) .
O motorista foi pronto e seguimos correndo pro hospital. Há oito anos, celular era uma bosta e nem todo mundo tinha. Mas consegui ligar pro irmão do Mauro, que passou o telefone pra ele. Não sei que horas eram, mas era de tarde, o fim da tarde. O carro voava na avenida dos Estados e o Mauro do outro lado da linha:
"Como ela está?", perguntei.
"Vi, vem pra cá", ele respondeu.
"Eu tô indo, mas como ela está?", insisti.
O silêncio, a certeza:
"Mauro, ela morreu, não foi?"
Foi assim que eu soube. Por telefone, no meio da Avenida dos Estados, entre São Paulo e São Caetano, num sabadão de plantão, início de um fim de semana prolongado de Sete de Setembro, ao lado de um estranho.
O motorista era um negro alto, enorme, nem lembro o nome, daqueles que parece que só podem ser contratados para fazer segurança de show. Sem olhar pra ele senti que seus olhos marejaram. Os meus estavam secos. Ainda. Ao meu lado, ele expressou uma raiva misturada com pena, e uma vontade de fazer algo a mais por mim... Mas aquele gigante não sabia o que fazer (Ninguém saberia). E fez o que achou útil. Acelerou.
Então, eu disse:
"Pode ir devagar. Agora não adianta mais correr."
E não trocamos mais palavra. Era 4 de setembro de 1999.
quinta-feira, junho 12, 2008
42 lágrimas
Nem o meu suor, nem o meu sexo,
nem o meu fluido, nem o meu gozo,
nem o meu amor.
Nada de mim hoje será nosso.
Nada de mim hoje vai lhe bastar.
Nada.
Talvez amanhã.
Mas talvez nunca mais.
terça-feira, junho 10, 2008
Outra dimensão
fecho os olhos e, com a música ao fundo,
saio do chão.
Eu flutuo.
É como se eu pudesse deixar lá o meu corpo
e sair para outra dimensão.
Eu volito.
E, conforme me movimento sem sair do lugar,
também se movimenta o Som.
Ele não está mais à minha frente.
Ele está à minha volta, ao meu redor.
Eu o Sinto e o percebo sobre a minha cabeça,
nas minhas costas,
como que rodando e roçando o meu corpo.
Entro em êxtase. Páro de respirar por instantes.
Abro os olhos.
Onde estou?
Onde estão todas as outras?
Olho para trás e lá estão elas, viradas para frente,
prestando atenção ao que ele diz.
Me volto, meio constrangida, mas feliz.
Estou inteira. Estou íntegra. Estou aqui.
Ninguém percebeu minha viagem particular.
Continuo pulando e correndo, flutuando na água,
mas agora de olhos abertos, olhando pra frente,
olhando para dentro, olhando para mim.
sexta-feira, junho 06, 2008
Em paz
Já tinha desacostumado a acordar de madrugada, sair de casa antes do sol raiar, me encher de cachecol e gorro para enfrentar o gelo da manhã desse começo de inverno, pedir pão com manteiga e pingado pro Régis...
É bom variar a rotina de vez em quando.
Mas, o melhor de tudo é sair do jornal com o dia ainda claro, poder curtir o entardecer e até arriscar beber umas, jantar fora com a moçada e ter chance de dormir na cama de casal abraçando a Bia "nas costas", como ela diz...
É! é bom mesmo mudar a rotina.
Hoje, sexta-feira, estou destruída. Meus olhos pesam, já decidi dar o nó na aula amanhã pra fazer tudo o que preciso e ainda encarar o plantão, mas tudo bem.
Adoro me sentir assim, em paz...
Mario Quintana
O dicionário de Mario Quintana...
"Deficiente" - é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as
imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de
que é dono do seu destino.
"Louco" - é quem não procura ser feliz com o
que possui.
"Cego" - é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de
fome, de miséria. E só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
"Surdo" - é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo,
ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer
garantir seus tostões no fim do mês.
"Mudo" - é aquele que não consegue
falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
"Paralítico" - é quem não consegue andar na direção daqueles que
precisam de sua ajuda.
"Diabético" - é quem não consegue ser doce.
"Anão" - é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a
pior das deficiências é ser miserável, pois "Miseráveis" são todos que não
conseguem falar com Deus.
...
Bem, nesta última parte eu faço um aparte. Deus aí pode ser algo como "coração", já que nem todo mundo é obrigado a acreditar em um Deus, mas coração e intuição todo mundo tem.
...
terça-feira, maio 27, 2008
Roberto Freire
"Do amor pode-se fazer uma necropsia, nunca uma biópsia. Se eu examiná-lo,
paro de amar. O amor não é para ser entendido, mas sentido, experimentado."
"...quando se ama, não se está pensando em segurança, duração, controle, posse,
pois isso corresponde à forma com que o autoritarismo capitalista familiar ou de
estado se expressa no plano pessoal e afetivo. Se sou um libertário, desejo que
tanto eu como meu parceiro vivamos o amor em liberdade, na emoção, no espaço e no tempo. É o amor em sí mesmo que comanda a intensidade, a beleza, a forma e a
duração do nosso amor, em cada um e entre os dois, jamais o contrário."
quarta-feira, maio 21, 2008
Bruxas e Bruxinhas
Antes, ela chorava de verdade, lágrimas escorriam do seu rosto.
- Não é não, mãe, não é!
- Mas, Bia, eu sou sim. Até nome de bruxa eu tenho, sabia? Viviane, nome de bruxa, bruxa! E você é uma bruxinha!!!!
- Pára, mãe, não sou, você não é bruxa! - ela brigava e vinha me empurrar. E eu, má como só uma bruxa, ria e ria e ria.
Esta semana estamos lá, lendo um livro deitadas da cama. Livro sobre uma festa em que só podiam ir bichos, fadas e.... bruxas.
- Oba, eu posso ir. Afinal, sou uma bruxa, você sabe!
E recomeça a ladainha.
- Não é!
- Sou!
- Não é!
- Sou!
Então, ela percebe que pode mudar o jogo. E faz o desafio.
- Se é, faz então desaparecer a.... - ela procura algo pelo quarto - esta televisão!
Me surpreendo, já orgulhosa. E não perco rebolado. De fato, penso: "Ela está crescendo."
- Fácil, fácil!
Movimentos de mão teatrais, palavras "mágicas" inventadas na hora, olhar fixo na TV e, tcharam!!!!
- Viu? A televisão sumiu! - fantasio.
- Ah, mãe, sumiu nada. Olha a televisão aí? - aponta rindo.
- Só você que está vendo a TV aí, Bia. Pra mim, ela sumiu!
- Ahhh, tááá!! Então, eu sou uma bruxinha mesmo. Porque sou a única que tô vendo ali televisão que você acabou de fazer desaparecer!!
É, ela tá crescendo mesmo.
domingo, maio 11, 2008
Trocando as telhas
Vamos varrer o quintal, colocar as folhas e os galhos que caíram das árvores em um saco plástico e deixar lá fora para o lixeiro levar?
Vamos tirar a lama e secar o térreo da casa, que inundou, colocar os móveis nos seus lugares?
Secaremos as vidraças, abriremos as janelas para o ar entrar e expulsar daqui o cheiro de cachorro molhado?
Lavaremos as roupas que se molharam e mofaram e vamos colocá-las no varal para elas secarem ao sol?
E, finalmente, subimos no telhado para trocar aquelas telhas quebradas? Por causa delas, uma goteira se formou bem em cima de nossa cama, o colchão encharcou e nem dormir juntos a gente pode. E, engraçado, que minha prepotência nem deixou eu imaginar que existiam telhas quebradas no nosso telhado. Estou com saudades do seu calor.
Podemos, sim, fazer tudo isso. Tem só que sair dessa paralisia e tomar coragem. Respirar fundo e começar.
Há vantagens em tudo isso, eu vejo. Eu sempre vejo a luz no fim do túnel, o bem no meio da inevitável confusão que vem com a tempestade.
O ar fica mais fresco, a gente aproveita e também joga fora o lixo que deixou acumular por tanto tempo, por causa da incerteza sobre se um dia a gente ia ou não usar de novo.
Vai dar muito trabalho essa limpeza, eu sei. É difícil e cansativo recolocar tudo no lugar, ou decidir os novos lugares das velhas coisas (É que a gente nunca se livra totalmente das velhas coisas). Mas pensar na casa limpa, clara e fresca é sempre um incentivo. Um alento.
..
sábado, abril 26, 2008
Dez minutinhos
Bem, mas até hoje a sinto despeitada quando fala comigo:
- Central de vigilância, bom dia.
É, geralmente passa da meia-noite quando eu telefono.
Ao escutar o meu "Boa noite, é a Viviane da rua V.. C..", ela responde um "Boa noite" seco, sempre seguido por um 'tchi'. É tão baixo o seu 'tchi', mas dá pra eu perceber a sua má vontade. Esse 'tchi' parece um: "Ah, que saco! Que vontade de xingar essa mulher que me pede segurança!"
Tudo isso só no seu 'tchi'.
O mais irritante é que ela sempre pergunta o número da casa. Todo dia! E eu respondo: "É a 360". E aí ela pergunta qual é o carro. E eu penso: "Que porra! É o Pálio e ela ainda não guardou!" Mas respondo educada: "Pálio azul marinho."
- Quanto tempo?
- Daqui uns 10 minutos.
- Ok - e ela desliga o telefone.
Fico imaginando como ela é. Magrinha e muito miúda, com os cabelos tingidos de castanho claro já meio desbotados, sempre presos em um rabo de cavalo, e vestindo um terninho surrado, às vezes preto, àz vezes azul claro. Ou seja, deve ser horrorosa.
Gostava mais do rapaz que atendia antes. Ele era mais animado. Mais esperto também. Já respondia, assim que ouvia minha voz:
- Oh Viviane, daqui 10 minutinhos, né? Ele vai estar lá!
Simples assim. Sem rodeios.
Outro dia a mocréia não foi trabalhar. Deve ter sido a folga dela. E era o rapaz que estava ao telefone. Fiquei até contente de não escutar a voz metálica. Ele me atendeu assim:
- Ooooh, tudo bem. É o 360, né? (Pensei: "Nossa, que memória. O cara lembra o número de casa e faz um mês que não fala comigo!")
- É isso. Dez minutos e eu estou lá, tudo bem?
- Tuuuudo bem! Ele vai estar lá, tá?
- Tchau.
- Tchau.
Esse deve moreno e meio gordinho. Um pouco mais alto que eu. E não deve usar barba. Roupas? Sempre calças jeans, uma camiseta e por cima um casaco ou um colete. Quando usa camisa, o último botão está invariavelmente aberto (porque é impossível fechá-lo), mostrando um pedaço desagradável de sua barriga. Acho que ele é assim.
Só há um detalhe em tudo isso: desde que a moça começou a atender, nunca mais o segurança deixou de aparecer na minha casa nos 10 minutos combinados. Com o Boa Praça, várias vezes eu fiquei rodando em volta do quarteirão até o motoqueiro chegar. Sei lá, pode ser coincidência, mas não deixa de ser curioso. A moça é antipática, mas até que é eficiente. Já o moço....
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quarta-feira, abril 23, 2008
Começo que não acaba
Alguém aí sentiu a terra tremer?
Eu senti. Sensação que se tem quando se levanta rápido da cama de manhã - um bambear. Pequeno tremor. Um delícia de tremor, aliás.
Mas estou cansada. Não temos um dia de trégua.
Devia dar graças à Deus. Afinal, a Isabella saiu um dia do foco, mas o terremoto provocou outro tipo de abalo.
Todos ficam mais enlouquecidos, mas agora em dose dupla. São dois focos. E, ainda por cima, não vamos para o céu, porque não paramos de rir do padre maluco, que se meteu numa aventura sem sentido.
Esse começo de ano não acaba... Será esse o ônus de ter o Carnaval mais cedo, coisa que eu tanto festejei?
O mundo pode parar pra eu descer?
Alguém pode me socorrer?
A impressão que tenho é que as horas e os dias estão confusos. Hoje, não sabia se era terça ou quarta. Por um momento achei que era quinta. E não é primeira vez que sinto isso. Será efeito do feriado? Parece que já estamos em outubro, tanta coisa que já aconteceu este ano na minha vida e na vida do mundo. Mas é só abril, quase maio, aliás. E, em menos de um mês (Não, dois. Olha aí a confusão, não disse?), faço 42. Imagino o que pode vir no meu inferno astral.
E venho pensando nisso tudo enquanto dirijo de volta pra casa. Quase uma da manhã, o que pode acontecer, eu penso? Nada. Mas não é que vem lá um carro na contramão na Avenida dos Estados!!! Penso: eu já estou vendo coisas... Mas não, é um carro na minha direção mesmo. Sorte que desviou antes de me alcançar. Acho que eu não teria reflexos para evitar um choque. Ele entrou na viela de uma favela. Nem na madrugada estou livre das palpitações.
Então, tenho ou não motivos para estar farta deste começo de 2008?
segunda-feira, abril 21, 2008
Da dúvida à saída
Não, eu não tenho dúvidas. Eu, por hora, só não tenho saída!
:-/
PS: "O Mundo Perfeito" está du caralho. Coloco aqui o último post que li. Maravilhoso.
sábado, abril 19, 2008
Divagações
São coisas que eu não sei dizer. E por que deveria saber?
De repente, só o desejo de ser rasa, básica, o desejo de não querer.
...por que tenho a pretensão de ser densa, forte, objetiva, clara?
Por que penso tanto?!!
Por que simplesmente não deixo estar, não espero rolar, não páro de perguntar, de querer saber, de tentar explicar?
Por que não fumo um?!! Unzinho só!!
O que importa se os outros são tão diferentes, ou indiferentes, ou fazem as coisas de forma que não entendo, ou não apreendo?
Por que deixo de lado a minha intuição e coloco lá, no seu lugar, a minha razão?
Por que deixo quebrarem o meu coração?
Por que insisto em colocar palavras onde, às vezes, só cabem olhares?
E na outra ponta da corda, quem é que está? Eu o conheço?
E do outro lado do muro, o que pretendem? Estão lá, me espreitando? Me olhando através do buraco feito a prego? Será?!!
E por que tenho que achar que pretendem algo? Por que tenho que supor?
Me coloco no seu lugar? Ou fico o tempo todo tentando encaixá-los no meu ideal? No meu "mundo real"?
Estou certa ou estou errada?
Talvez, de fato, me falte a capacidade de entender. A humildade de querer compreender.
De fato, talvez me falte a capacidade de me perdoar, me falte a capacidade de confiar...
;-/
sexta-feira, abril 18, 2008
Que seja hoje
O fato é que ninguém aguenta mais o caso Isabella. Pobre garota! Com certeza vai virar santa, ser responsável por algum milagre cantado por algum maluco de plantão logo logo.
Hoje, espera-se, será um dia decisivo: os "suspeitos" vão depor. Acredito que não há jornalista na ativa nessa chamada "grande imprensa" que não esteja louco para que esse caso, que já virou nosso inferno, acabe logo. Se eles confessam, praticamente acaba. O resto é rescaldo.
Por quê?
Porque são plantões intermináveis nas portas de DPs, ICs e etc, em busca de um detalhe, um indício, uma declaração de um parente, um amigo, uma testemunha. É uma competição irracional para "ter acesso" a laudos preliminares, depoimentos sigilosos, informações confiáveis. Todos pressionados para ter o que as TVs e a internet já estão divulgando e algo a mais. Na edição, a preocupação para dar tudo, todos os detalhes, da maneira mais clara, com o melhor texto, a melhor ilustração, a melhor foto. E ficar até tarde na redação, até que a última frase do Jornal da Globo seja proferida pelo William Waack e que o risco de furo esteja definitivamente anulado. Isso por pelo menos mais um dia.
Às vezes me pergunto pra que tudo isso? Faz parte, eu sei, mas pra que serve, no final?
É excitante estar neste turbilhão, é bom saber antes o que todos só saberão no dia seguinte ou até dias depois, mas é triste perceber que também alimentamos a maluquice das pessoas. Há uma turba de gente enlouquecida, perseguindo, xingando e ameaçando o casal, seus amigos e parentes que não têm nada a ver com o pato. Gente como uma mulher que ontem deixou quatro filhos pequenos em casa e andou quase duas horas de condução para colocar um cartaz no portão da casa da família do rapaz os xingando de 'assacinos' (nem escrever ela sabia). Dá vontade de perguntar pra esta dona de ela não tem um tanque de roupa pra lavar em casa.
Na outra ponta da história, há os santificadores, crédulos e de bom coração, que já pedem milagres, acendem velas e criam ongs da paz oportunistas em nome da menina Isabella.
De nosso lado, jornalistas de plantão, está ficando só o cansaço. Estamos esgotados e estressados com o trabalho dobrado que veio com o caso. Fora o clima, porque o assunto é pesado, é triste, é mesmo uma história inacreditável.
Já é um fenômeno de mídia. Em quase 20 anos de trabalho (nossa!!! quase 20 anos!!!) não lembro de um caso que tenha rendido tanta manchete, tanta página nobre dos jornais, tanto espaço nos noticiários da TV, com equipes grandes na cobertura, durante tantos dias seguidos. Já são quase 20 dias. Nem os ataques do PCC mereceram essa atenção.
E será um fenômeno a ser estudado por comunicólogos, psicanalistas, sociólogos, etc, e etc. Logo logo alguém fará uma tese à respeito. Depois haverá um filme. Eu mesma já bolei um roteiro bem sinistro, como se no caso tivesse mesmo o "terceiro elemento". Mas essa é uma outra história.
2008 será pra sempre dividido entre antes e depois do caso Isabella.
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segunda-feira, abril 14, 2008
Tempestade na madrugada
Antes de dormir de novo, consegui pensar: será que, enfim, o outono chegou??
Acho que sim. A chuva vinha e voltava, para minha felicidade.
Depois do almoço, quando dirigia para o jornal, fui observando o céu cinzento. Cúmulos nimbos escuros na minha cabeça, cercados por outras nuvens mais claras e com um pouco, muito pouco de azul do céu que ainda teimava em sair. Adoro dias assim. Meio cinzentos, úmidos, com vento não congelante e um pouco de azul celeste.
Hoje, no caminho fiquei com medo do rio. O Tamanduateí estava mais cheio que o comum. Sempre penso que posso perder a direção e mergulhar na correnteza marrom. Não é o medo de morrer afogada. Mas é o de sobreviver cheia de berebas e coceiras que o bosteiro com certeza vai me deixar.
:-)
domingo, abril 13, 2008
Entre Suzana e Lya
Mas Lya Luft volta a escrever ficções e não dá pra negar a sua sensibilidade quando se trata de analisar a alma do ser humano. Ela deu semana passada uma estrevista ao Caderno 2 sobre o seu novo livro, que fala sobre a incomunicabilidade, e me deixou um bocado curiosa. Num trecho da entrevista, ela diz porque o assunto a fascina: "a palavra que você não disse quando devia ter falado e a palavra que você disse quando devia ter-se calado. A grande dificuldade nos relacionamentos humanos baseia-se em grande parte na incomunicabilidade, da forma que você vê o outro e como isso pode provocar o preconceito."
É, talvez eu volte a ler Lya Luft.
Mas, por enquanto, estou mesmo interessada é em terminar de ler Suzana Flag. Esta me inspira menos emotividade, mas, em compensação, me deixa muito mais crua.
:-)
sábado, abril 12, 2008
A estranha na foto
Mas o barato de organizar as fotos é mesmo revê-las. Como ainda sou antiguinha, não tenho a tal da máquina digital, nada do que registro é apagado. Hoje, encontrei fotos que simplesmente já tinha esquecido. Velhos amigos e amigos velhos. Situações felizes, outras estranhas e até constrangedoras.
Mas fiquei assustada mesmo ao encontrar uma minha, de uns cinco ou seis anos atrás. Não porque me achei diferente ou mais nova. Mas fiquei assustada simplesmente porque não me reconheci nela. É como se aquela não fosse eu. Nada nela se parecia comigo.
Voltando ainda mais no tempo, o coerente seria continuar a não me reconhecer nas imagens. Mas não. Nas fotos de 15, 20 anos atrás, lá estou de novo, brilhando. E de novo estou lá, nas mais recentes. E resplandescente, eu diria. Só naquela, ou naquelas, de um determinado período que não me achei.
Isso parece loucura, talvez. "É fruto do seu amadurecimento", devem dizer os terapeutas de plantão, que colocam tudo na conta do tempo. Mas não sei se é isso. Como diz uma amiga minha, tem gente que só consegue amadurecer em um aspecto da vida, o profissional por exemplo, mas continua um adolescente bobo em outro, como no emocional. Quem não conhece alguém assim?E ainda não sei se é esse o meu caso. Tento porque tento que não, mas vai saber, né? É muito difícil reconhecer a própria imaturidade.
Mas o fato é que eu fiquei pensando durante o resto da tarde e também à noite sobre o porquê desse estranhamento. E, pensando nela, naquela que não reconheci, acho que, sem muita consciência, ela tentava ir contra a sua própria natureza. Ou contra os seus próprios sentimentos e vontades e instintos e intuições. É só isso que eu posso imaginar.
De toda forma, ela já passou e fico feliz que tenha participado da minha vida e passado. E sei que não há mais risco dela voltar, porque agora tenho consciência dela. Naquela época, nem a percebia. E também sei que dela, apesar do estranhamento, sinto um orgulho danado. Como também de todo o resto.
PS: a Bia acabou de me dar um coração. No fundo, não é isso que vale? Ganhar, sem pedir e nem imaginar, um coração do jeito que for pra tomar conta?
Ganhei o meu dia.
Mais um dia.
:-)
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sexta-feira, abril 11, 2008
Só um segundo
Páro, respiro fundo, sinto o ar encher o meu peito e ele se abre... Há dor.
Há tempos eu não me sentia tão frágil. Tem sido um começo de ano diferente. Intenso.
E não é apenas um motivo.
São emoções à flor da pele, decisões inadiáveis, trabalhos intermináveis, histórias desgastantes, provas de paciência, de competência, de amor...
É como se a cada dia eu tivesse que aprender na marra algo que deixei pra lá em algum momento, teimei em não ver antes, descobri tardiamente, não quis aceitar...
Sinto uma dor real no peito e o ar, às vezes, parece que não vai conseguir entrar. Tenho que me apoiar pra conseguir respirar. Hoje ele entrou com facilidade. O ar.
Alguém poderia me dizer que eu preciso ir ao médico. Mas não é nada disso.
Nunca fui uma pessoa infeliz, depressiva, pesada. Mas sei que tenho estado triste ultimamente. Peço aos meus que me perdoem. E que tenham paciência. Isso não é infelicidade. E nem sinal de desistência, desespero, desesperança. É só um sinal desse período, que no futuro terá sido só um momento, nada mais do que um segundo.
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sábado, abril 05, 2008
Na beira do rio
Mas, veja só: na Avenida dos Estados, na beira daquele bosteiro em que se transformou o Rio Tamanduateí, há uma árvore tão florida, que dá gosto - toda rosa....
Não, isso não vai mudar o meu humor! Não hoje.
Mas, pelo menos, vai me fazer respirar fundo e desenhar um sorriso cínico no rosto ao lembrar que a natureza, por si só, acaba por fazer a vida se renovar.
E, com sorte, melhorar.
quinta-feira, abril 03, 2008
Chuva na Manhã
Espero que amanhã o tempo melhore. E meu desejo é puro oportunismo. Amanhã é sexta-feira e, excepcionalmente, vou entrar no trabalho às 7h. Se acordar com chuva é difícil, madrugar e enfrentar o trânsito dessa cidade ainda é pior.
E, à noite, se tudo der certo, o bar me espera para afugentar de vez qualquer tipo de sensação de tristeza.
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quarta-feira, abril 02, 2008
Angústia
Mesmo que acostumada a tratar com tragédias diárias de todo tipo, não dá pra ficar indiferente quando paro e penso no momento da menina, no que ela passou naqueles poucos minutos que antecederam à sua morte, o seu lançamento pelo ar.
E quem teria coragem de segurar uma garotinha frágil no colo, enfiá-la em um buraco no meio de uma tela de nylon cortada e a jogá-la? Que tipo de ser humano é esse?
Nestes últimos dias só temos falado disso no jornal, buscando fotos da garota, depoimentos de amigos e parentes, tentando, por nós, descobrir o culpado. Será mesmo um bandido que entrou no prédio? O pai seria capaz? A madrasta, afinal, sempre é a madrasta, com a carga de maldade que o nome e os contos de fada lhe conferem... Poderia ser ela?
De madrugada, voltando pra casa, não dá pra não pensar nesse caso, fazer associações (afinal também tenho uma menininha), criar teses que podem ser base de um roteiro sinistro para um filme menos B. Espero que minhas teses sejam todas erradas.
Fica na barriga um frio de angústia, no peito a sensação de brevidade da vida e na cabeça a certeza de que há pessoas que têm um buraco no lugar do coração.
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domingo, março 30, 2008
Canção de Ninar
Ela pede quase todo fim de semana que eu não estou de plantão e a ajudo a tomar banho.
A brincadeira é embrulhá-la na toalha e aconchegá-la no colo como eu fazia quando ela era nenê.
Nunca cantei as músicas clássicas de ninar. As achava assustadoras: "boi da cara preta" a "cuca vem pegar", definitivamente, não combinam com meu estilo.
Aí, nem sei bem de onde veio a idéia, mas comecei a cantar Como Uma Onda, de Lulu Santos.
E, acreditem, não tenho nenhum disco ou CD do Lulu Santos, mas esta música me pareceu perfeita pra ninar um bebê. A balançava como o movimento do mar, da onda...
A Bia está cada vez maior. Não consigo mais nem ficar de pé com ela no colo. Mas, mesmo aos 7, ela curte a brincadeira. Fecha os olhos e canta a música de cor. Só hoje eu achei a canção pra ela escutar o original.
Bem, procurando o vídeo da música, achei vários. Acima, uma construída não sei por quem, mas com desenhos infantis. Tem mais a ver com a Bia e este post. Mas encontrei a versão com Caetano (tem até legenda em inglês) e a mesma com o Tim Maia... Fantástico!!!
...
Nada de Caixa-Forte
O prédio onde eu morava, na Antonio Bastos, havia sido todo reformado. Reconstruído, eu diria. Virou um prédio cinza, um tipo de caixa-forte de vidros fumê blindados, cercado de seguranças por todos os lados.
Eu não morava lá, mas trabalhava. E, pra variar, estava atrasada, me perdendo pelos caminhos até chegar ao lugar para apresentar um projeto.
Quando cheguei, porém, a caixa-forte tinha sido invadida por ladrões. A porta da frente estava trincada, mas mantinha a sua função: estava lá, ninguém havia passado por ela. Mas o elevador havia sido destruído, algo tinha sido levado.
Ninguém entendia como tinham invadido o prédio, já que a porta da frente estava inteira.
No meio do sonho rolou mais um monte de coisa que não lembro direito.
Mas a sensação que ficou não foi nada boa.
Acordei um tanto triste.
Mas, tudo bem. A vida é isso aí.
..
quarta-feira, março 26, 2008
Chão de Giz
Ouvi sem querer duas vezes esta música esta semana. Assim, no rádio, o que é bem incomum...
Daí, vim procurá-la pra colocar aqui.
Deu saudades de uma menina que conheceu essa canção quando mal tinha feito 13.
Uma menina que mesmo sem entender nada do que dizia a letra, se emocionava com a canção.
E deu saudades de uma moça que tentava cantar a música no meio da noite, sentada numa escada ao som do dedilhar de um violão meio rouco. A moça sonhava em ser cantora enquanto enchia a cara de vinho barato.
Vou anexar as duas versões que gosto.
Zé Ramalho e Elba
Só o Zé Ramalho
Escolha a sua.
....
Ter amigos dá trabalho
Então, agora, boa noite. Vai pra cama que eu vou te cobrir.
Um beijo.
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E, no dia seguinte
Sabe, mãe, foi fácil falar com o Augusto. Eu cheguei pra ele e perguntei: Augusto, sabe ontem? Você não esqueceu alguma coisa? E ele respondeu: Ah, Bia, desculpa!
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terça-feira, março 18, 2008
Um epitáfio para dois funerais
Eu quis enganar a dor da morte. Quis ser mais dura do que ela, superá-la, mostrar a ela o quanto eu podia ser forte. A desculpa era proteger. Como se com minha proteção aquela perda não atingisse mais ninguém. Não me dei o direito de chorar, não me dei o direito de gritar. Fiquei lá, recatada, correta, admirada. Curtindo a dor nas madrugadas, mas amanhecendo com um sorriso no lábios. A imagem que me vem hoje é de algo despedaçado por um tsunami, mas em pé. É admirável mesmo.
Por que fiz aquilo? Era o melhor, eu achava. Mas não era e teve um preço.
Agora, a dor da morte que enfrento vem e puxa a outra, aquela que tentava ficar lá, escondida no fundo do meu coração. Dores iguais por motivos diferentes.
Preciso fazer dois funerais. Mas só consigo escrever um epitáfio.
"Nunca vou esquecer os teus olhos
Grandes
Negros e
brilhantes
Cílios longos, longos cílios
me fixando, sem
piscar
Me dizendo amor
me dizendo calma
me trazendo paz no meio do
turbilhão
Nunca vou esquecer teu hálito acre
Tua pele macia
Teu corpo contorcido de dorQueria fazer minha a tua dor
Seu brilho,
seu
brilho
Às vezes morro de saudades
Hoje sei que está aqui porque te
chamo
Porque te que quero perto
Você foi luz na minha vida
Na minha casa
No meu caminho
Nasceu de mim
Me atravessou e
partiu
Teu rastro, tua paciência, linha de emoção
que eu persigo
Hoje sei que tenho que te deixar partir"
................
Talvez com isto meu coração fique mais leve e eu consiga parar de chorar.
segunda-feira, março 17, 2008
Don't Worry, Be Happy, Angel
domingo, março 09, 2008
Segunda via
Se a mulher é violentada, o comentário é:
"Mas olha a roupa que ela estava? Vestida deste jeito só podia querer isso mesmo!"
Se a garota ou o cara se apaixonam e o caso não dá certo, a verdade mais que certa é:
"Eu te disse que ia quebrar a cara! Não soube escolher! Todo mundo sabia que x não prestava. Era só olhar!"
Se estouram o vidro do seu carro no farol e levam sua bolsa, a bronca é assim:
"Sua bolsa estava no banco, não é? Não sabe que não pode?"
Foi uma chamada assim que eu levei hoje. Foi uma pena, porque o dia estava perfeito.
Passei o dia no zoológico com as meninas. Bia, Mari e Helô, três belezinhas correndo pelas alamedas buscando leões, lobos, macacos, pássaros e tudo o que elas tinham direito. Piquenique debaixo das árvores, lanche caseiro. A Val junto dando uma força. Cinco meninas-mulheres curtindo a liberdade-feminina impossível quando o mau-humor e falta de paciência masculinos estão por perto.
( Cada vez mais me convenço que as mulheres não mais livres sem culpa. E isso vem desde a infância, me parece. )
É difícil manter o sinal de alerta o tempo todo. E nessas, eu, que vivo tensa com medos de roubos e assaltos, relaxei. Deve ter sido entre o macaco-prego e o chimpanzé, depois do sorvete de maracujá com calda de abacaxi. Mas só percebi na lojinha de tranqueiras, na hora de pagar pela girafa de pelúcia. Cadê a minha carteira? Já era! Que raiva! Só não acabou com o meu dia porque, de fato, ainda haveria muito mais neste dia.
No posto policial, o sermão:
"Mas, onde estava a sua carteira?"
"Na bolsinha do lado de fora da mochila", eu respondi, já sabendo o que viria em seguida.
"E de que jeito a senhora estava levando a mochila", ele me olhou, com um ar de reprovação.
"Nas costas, eu sei, não podia, mas me distrai."
"Mas, minha senhora, no zoológico, inda mais num dia como hoje, tinha que tomar mais cuidado."
É, eu sei, eu sei. Em dias como os de hoje, a gente vive tendo que tomar cuidado com tudo, para não ser roubado, para não ofender, para não se machucar e não se decepcionar com quem a gente confia e acredita. Mas, acontece, que é bom relaxar e esquecer um pouco que estamos nos dias de hoje.
Dá pra tentar viver um pouco sem medo?? Ser feliz é tão errado assim?
Bem, é certo que no zôo ninguém me ajudou. Se quisesse, ia fazer um BO num DP lotado da região. Ou pela internet, que é o que eu acabei de fazer.
Amanhã, vou atrás da segunda via do documento.
Pena que nesta vida não exista segunda via de coração.
..
sexta-feira, março 07, 2008
terça-feira, março 04, 2008
Primeiro dos 10 chamamentos
"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento"Como eu invejo os
grandes poetas....
sexta-feira, fevereiro 29, 2008
Calda de morango quente
Você é
doce
doce
doce
Como o sorvete de creme
Mergulhado na calda de morango
Quente
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Primeiro plano - Original
Por que não? Se a opção imediata é pela solidão eu devo me acostumar a tocá-la com mais freqüência. E no sexo solitário pode haver mais prazer do que no sexo sem amor.
Na cabeça, lembranças de toques sutis e delicados, palavras doces, situações que emocionaram. Isso basta, eu me pergunto? Se no momento é o melhor que eu posso fazer por mim, sim, basta.
A emoção é um sentimento cruel. Nos abraça, nos chacoalha, vira as nossas vísceras do avesso. Mas é um tipo de dor que não queremos deixar de sentir. Quando não há mais a emoção, a vida perde o sentido.
E eu a busquei tanto que decidi interromper o meu caminho longo e sem emoção.
E isso assusta. Mas fiquei mais assustada no começo, quando eu recomecei sentir. Quando eu percebi que existia a emoção aqui dentro e lá fora, entre as pessoas reais, mas que, ao meu lado, o que tinha era o hábito do convívio e só. Nada de troca. Nenhum interesse. Nem curiosidade. Só afeto respeitoso e a construção de uma imagem equivocada.
E me envergonhei quando me dei conta de tudo isso. O cotidiano fácil, seguro, cheio de certezas nos envolve ao longo da vida e, quando nos damos conta, o sentir ficou em segundo plano. Em que porcaria de mulher moderna eu estava me transformando?
Mas se o movimento é doloroso, ele também é necessário. Estou tão certa da minha opção que tenho até orgulho. Porque a opção foi tão pensada, tão maturada... O caminho foi tão cheio de altos e baixos, descobertas e decepções... Tentativas de recomeços... Reencontros e afastamentos... Levei anos pra chegar até aqui, mas sempre dando sinais, pedindo socorro, lançando avisos...
Mas há situações que não mudam. Há pessoas que não estão preparadas para mudar e nem querem. Cada um tem o seu tempo e eu não me importo se, agora, estou precisando atropelar alguém. Me sinto mesmo um trator.
E é engraçado como nada acontece da noite para o dia.
O limite se deu e não há agora uma segunda via. Também não há como voltar atrás. Não há culpados, nem responsáveis. Só existe uma pessoa, eu, pensando, querendo, desejando e decidindo o que é melhor pra mim. Sem mais nenhum medo.
E sou capaz de chorar de contentamento ao perceber que, pela primeira vez, vou de fato colocar a minha vida nas minhas mãos. Mesmo que para isso o sexo também tenha que ser solitário por algum tempo.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Como uma máquina
A gente devia ser assim, como uma máquina. Simplesmente desligar automaticamente quando um problema no meio do caminho surgisse. Salvar o que foi iniciado para, em seguinda, religar e continuar de onde se parou.
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
A Dite e os sapatos
Todos se surpreenderam. E eu a abracei... que saudades... Eu não sabia que estava com tanta saudades dela. Não imaginava o quanto!
Era surpreendente porque todos a vimos morta. Nós vimos como ela foi definhando e como estava envelhecida quando se foi. Mas, agora, ela tinha 31 e dizia quando via alguém: não, eu não morri. E aquilo era tão natural. Não era nada assustador. Todos estavam felizes, em confraternização. E, para cada um que chegava, eu, como uma criança da casa, fazia questão de mostrar: olha, olha quem está aqui! E novamente expressões de surpresas, abraços, felicidade.
Eu não sei como cheguei naquele lugar. Quando vi, estava naquela casa, que era pequena, mas estava cheia de gente conhecida. Mas tinha que partir e, de novo (essa sensação sempre vem) estava sem sapatos. Alguém na casa me deu dois pares: um sapato lilás claro, meio transparente, bico fino e um pequeno salto; outro preto, completamente baixo. Ambos eram de plástico. Mesmo assim, sai descalça, com os dois pares em uma sacola.
Na rua, de noite, olhei o trânsito, que era frenético. Via luzes dos carros que riscavam a escuridão. Duas grandes avenidas se encontravam no ponto onde eu estava, uma praça na parte baixa de dois morros. Mas a minha noção de sentido estava completamente perdida e não sabia para qual lado seguir: direita ou esquerda. Tinha que pegar um ônibus, ir para o Centro, mas os ônibus subiam e desciam as ruas, que eram ladeiras, e eu não conseguia me mexer.
Aquele lugar, eu sabia, já havia sido uma favela enorme - Mauá agora está bonita, eu pensava, mas ainda assim é Mauá, é assustadora. Foi aí que encontrei a garota. Ela não parava de falar, e me deu o sentido: o Centro é para lá (à esquerda), pegue tal ônibus. Perdi ainda um ônibus e, no próximo, ela subiu comigo, sempre falando, falando, que conhecia não sei quem no jornal, que estudava, que estava voltando da escola, que isso, que aquilo.
Foi só então, no ônibus, que decidi vestir os sapatos. Mas, na confusão de subir, entrar no ônibus, um pé do par preto se perdeu, caiu no chão, eu ainda olhei pra trás, tentei encontrar, mas não consegui. Então, coloquei o lilás. Mas era o preto que queria. Esse sapato lilás com essa meia soquete não combina, ainda pensei. Deve ser por isso que está meio apertado. Pensei em voltar pra, procurar o sapato que ficou pra trás, certamente caído na sarjeta, mas não dava mais.
E a menina não parava de falar, enquanto o ônibus seguia e eu observava meu pé com meias soquete no sapato lilás e transparente.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Pássaro na sala
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
Vontade da partilha
"Há já muitos gajos que sabem que nós, as que nos julgamos imperfeitas, temos de dar largas à imaginação e ao intelecto e a crescer noutros sentidos. Menear o rabo e dar a cabeleira dá resultado enquanto se tem rabo e cabeleira. E enquanto aquilo se põe em pé só com a visualização de um rabo. Mas isso acaba ... as relações que nos aquecem a alma são aquelas que duram para além das aparências e em que o calor e acolhimento de um corpo (e da alma) valem muito mais do que a sua perfeição física. E a vontade de partilha não acaba aos 40 anos. E a perfeição física começa a acabar aqui."
quarta-feira, janeiro 30, 2008
Primeiro semestre
Será que em fevereiro eu consigo sair do chão? Tem alguém aí, plis, pra me dar a mão?
Em fevereiro vou me tratar. Devo passar mercúrio nos cortes, enfaixar o braço, engessar a perna, cuidar da cabeça. Serei obrigada a descansar, eu penso. Será que terei um colo? Um café com leite na cama pela manhã? Algúem que me ajude a tomar banho?
Em março, com o corpo ainda dolorido, eu tenho que poder levantar, andar pela sala. Até abril, vou até o quintal olhar pro céu. Só aí devo parar de chorar. O mal, se é que foi mal, já foi feito.
Maio, que pena, é frio. Mas vai ser nesse mês que vou voltar pra rua. Talvez pro trabalho. Acho que já vai dar pra beber um vinho, tomar um conhaque, um belo porre seria o ideal.
Em junho, juro, estarei de novo zero-bala, tentando, é lógico fugir de outro bonde que me atropela.
segunda-feira, janeiro 14, 2008
Mais um papo
Mas consegui ver em você somente um bom amigo, aquele que me obrigava a ouvir o que eu já via, mas não queria enxergar.
Chorei por causa de tuas palavras mais de uma vez, senti ódio de você, mas nunca por mais do que cinco minutos.
Agora me assusto ao pensar que não o terei mais por perto pra me obrigar a escutar o que já sei mas não quero saber.
Com teu desaparecimento vislumbro o fim de um ciclo. Mergulho na minha alma. E me obrigo a não me esconder mais. Curioso efeito.
Me vejo obrigada a assumir o que sei, a exercer em mim o papel que você exercia, de ser impertinente, insistente, buscar a perfeição.
Mas também olho a sua vida por outro ângulo, percebo o que admiro mas também o que não quero ser. Tenho medo de acabar por trilhar a parte do seu caminho que num certo momento foi a mais fácil. Não sair do lugar por causa da vida. E era o que mais te fazia infeliz nos últimos anos. Sem sair do lugar, você acabou por não ter nenhum lugar.
Continuaremos sempre a ser a bons amigos.
Vamos nos ver ainda por aí.
O tempo é mais curto do que a gente imagina.
Saudades, PB.
sábado, janeiro 05, 2008
A árvore
depois vermelhas
aí vem o azul
e então o laranja.
Vêm lentamennnnte
com calma em princípio
como uma
maaa...rooo...la.
De RePeNtE eNLOuQuEcEm MiNhA ViSãO
CONGELAM!
E retomam o ritmo lento...
Paranovamentecorreremalucinadas!
Se misturam e
Todas juntas
Vão de novo
Desacelerando
Desaceleraanndo
Desaceleraaannndo
Até que voltam à completa PAZ do
Veerde
Vermeeelho
Azullll
e Larrraaanja.
quinta-feira, janeiro 03, 2008
2008
Inspiração baixa, mas espírito feliz, porque de volta à casa, à lida normal, aos cheiros e temperaturas conhecidos, ao ritmo meu....
(O calor é engraçado... nos torna mais permissivos, mais sensuais, mais sonolentos... Dormi nos últimos sete dias como nunca. E só. Fiquei na vontade da permissividade... nem tanto da sensualidade.)
Volto da terra do calor infernal, do lugar onde o suor brota sem nenhum esforço, onde o ar pesa desde a madrugada até o anoitecer, onde o ventilador é amigo inseparável, onde as pálpebras caem sem nenhuma culpa e o regime se dá uma trégua...
Casa de mãe é sempre um paraíso, quando reina a paz. E, desta vez, a paz estava lá. Vou sentir até saudades do Ano Novo de 2008.
De satisfação, encho a cara com cevada. Daqui a pouco vou beber um vinho...
Lá também enchia a cara, mas nada como o porre em casa própria. Mesmo na casa da mãe, o porre tem que ser recatado, não dá pra falar um monte, pai e mãe e tia não estão acostumados a ver a boa moça perdendo as estribeiras.
(Entro em janeiro achando que não há mensagem possível pra mim neste início de 2008. E não fiz pedidos nem promessas de início de ano.
Tenho medo de ter desejos para 2008. 2007 foi além das minhas expectativas e ainda tento administrar o que meu veio, entender, curtir, agradecer. Porque sou supersticiosa e, aos céus, sempre acho prudente agradecer... )
Quero só que a vida continue como está, que eu consiga completar o que comecei e deixar feliz quem comigo ficar... Acho que é isso. Só isso. Será muita pretensão pra quem não tem pedidos de início de ano?
Expectativa baixa.
Mas estou feliz como nunca.
Acreditem!
quarta-feira, dezembro 26, 2007
Coisas do Natal
Uma pedra leve de carregar
E o doce sempre a eternizar
Adoro o verde, o preto e o sabor do chocolate
Verde é calma, é equilíbrio
Preto é harmonia entre corpo e alma
Chocolate é amor
Feliz foi o Natal!
Feliz será 2008!
segunda-feira, dezembro 10, 2007
A pele de peças
Ela pode ser doce, terna. E pode também ser dura, indiferente. Em segundos sai de um estado de espírito para outro. Não admite que se diga a ela o que tem de fazer. Por isso, não aceita o que a Ana lhe diz daquele jeito estúpido que só quem conhece o seu coração a perdoa de pronto. Está quase a nos enxotar de lá quando ou começo a falar. Digo o mesmo que a Ana, mas de outro jeito. Digo que ela tem que sair de lá, daquele isolamento, daquele mundo inexistente.
A encontramos sem querer. Procurávamos o seu irmão e nem sabíamos dela. O rapaz, casado, morava em um bairro distante da minha cidade, perto do meu pedaço, numa daquelas raras casas que ainda guardam jardins e quintais com árvores. Fui porque a Ana me pediu. No terreno, eram tantas as árvores que o ambiente era escuro. Não havia flores, só umidade da mata. Eram duas casas velhas, mas com várias paredes de vidro ou janelas gigantes. Não sei bem. Mas eram sujas e mal cuidadas. Antes de chegar lá, eu no volante, descemos ladeiras conhecidas, cruzamos a Carijós. Não sei porque a Ana precisava dele. Ele não queria ser encontrado. Mas foi a moça alta, de cabelos negros, que passou tentando não ser vista, muito parecida com viúvas de filme de guerra, que acabou sendo o nosso tesouro. A cercamos, tentanto convencê-la não sei do quê. A mim, como disse, ela chegou a ouvir. Quase a convenci. Mas ela voltou a se esgueirar quando percebi seu segredo. E acordei no momento em que ela me atravessava com seu olho direito, de vidro. Na justa hora que sua máscara certamente se desmancharia. Com a máscara, ela pareceu assustadora, mas no fundo eu sabia que ela era apenas uma mulher solitária.
domingo, dezembro 09, 2007
O lindo rostinho dela
Encontrei Maria Dejanira a primeira vez em um ônibus da minha escola. Íamos a uma excursão de estudantes. Meu professor levou a namorada. Mulher bonita, segura, liberal se comparada com as mulheres mais velhas que eu conhecia até então. Mas era quieta, ria com a molecada adolescente, mas não se metia nas brincadeiras.
Os meninos da minha turma eram abusados, adoravam falar bobagens. E, para brincar com o professor, diziam que, para tirar boa nota na prova, tinham até que beijá-lo na boca. E todo mundo dava risada. Até que Dejanira resolveu aparecer. Parou insinuante ao lado da poltrona do casal e soltou a bomba: “Se é assim eu já passei, né, ‘fessor’?”
O silêncio foi total. A namorada do professor ficou vermelha de raiva e fulminou a menina. Entendeu que era provocação, e todo mundo esperando o escândalo da moça. Mas o professor só apertou forte a sua perna, como que implorando para ela não fazer nada. E nada aconteceu de mais grave.
Anos depois, encontrei uma amiga num café. Jandira estava furiosa. Tinha acabado de ter uma discussão feia com a ex-secretária de seu noivo. Confiava em Rodrigo, mas aquela mulher intrometida a tirava do sério. "Meu noivo era o gerente da empresa, e, por trabalhar com ele, ela acha que mandava ali, que podia tanto quando ele." E começou a me contar o quanto a mulher dava palpites na vida pessoal do patrão e, de tabela, na dela também.
"Rodrigo sofreu uma cirurgia no final do ano, e ela me ligava para contar o que ele fazia de errado em relação à saúde. Depois, começou a dizer que eu e ele tínhamos que sair mais para ele se divertir, já que Rodrigo trabalhava muito. E, por fim, acabou insinuando que tinha de ir junto!"
Por causa das intromissões da secretária, Jandira chegou a brigar com o noivo e pedir para ele despedir a moça. “Ela era tão atrevida que espalhou pela empresa um boato que eles tinham um caso. E eu ficava com ciúmes, porque ela é bonita, tem presença”. O clima entre ela e o noivo por causa da secretária estava mais que azedo, quando ele e a moça foram demitidos. “Quer saber, fiquei aliviada, porque ela não ia mais me encher.” Mas qual não foi a surpresa de Jandira quando a garota ligou para ela para reclamar que Rodrigo não a procurava mais, não atendia seus telefonemas, e que queria voltar a trabalhar com ele. “Eu surtei, Vivi. Marquei um encontro com ela e disse que o Rodrigo também ia, para eles conversarem. Quando ela chegou no bar, estava toda emperequetada e feliz: ‘Cadê o Rodrigo?’, ela me perguntou”.
“E o que você fez?”, perguntei, já ansiosa para saber o fim da história.
“Acabei com o lindo rostinho dela.” Ah! O nome da secretária: Maria Dejanira.
sábado, dezembro 08, 2007
No Night So Long
Esguio e moreno.
De tanto medo do que sentia da Pequena Menina Doida, desapareceu.
Não entendeu o que significava passear com ela-mulher de braços dados por entre as alamedas centenárias...
Então, se escondeu.
Deve estar sob a saia de sua mãe baiana.
Coitado! Não sabe o que perdeu!
sábado, dezembro 01, 2007
Madrugada
Tenho preferido as madrugadas às manhãs nos últimos tempos.
Não porque não goste do sol e da sua claridade.
Mas é no silêncio da madrugada que eu consigo me encontrar... te encontrar.
Corpo doído, cansaço de um trabalho intenso e adorado, mas meio sem sentido.
Me pergunto, onde está o meu tempo?
Quero ele de volta.
O trabalho consome minha "criativa idade" e só na madrugada eu recupero um pouco do meu sentido...
sexta-feira, novembro 30, 2007
Linda Flor
A fantástica história da professora de artes culinárias que dividia a cama entre o marido vivo e o marido morto a fazia delirar. Era uma fantasia secreta que alimentava.
Dentista, Linda sempre olhava para o seu marido Olavo e via nele todo o jeitão do farmacêutico Teodoro Madureira que na história só gostava de transar com dia e hora marcados. Olavo era um aplicado contabilista e, na sua lista de prioridades, o sexo estava lá pela sexta colocação: primeiro era o trabalho, e depois, na ordem, vinham o escritório, o carro, o cachorro, o tênis no clube às quartas e sextas e a visita à mãe, todo domingo, no asilo. Sorte de Linda que eles não podiam ter filhos (como Flor, ela era estéril) e, por exceção à regra, Olavo não gostava de futebol. Sem isso, o sexo seria muito mais raro. Mas, a estabilidade do casamento a deixava tranqüila e ela se contentava em só imaginar que um dia poderia ter um Vadinho como o do livro.
Nas suas fantasias, ela queria aquele homem safado, que a virasse do avesso de tanto lhe dar prazer, mas que também lhe trouxesse à vida um pouco do sofrimento e da insegurança que aparecem quando não se tem certeza da lealdade e do amor. Era isso que Linda buscava. E além disso, como não acreditava em fantasmas como era o Vadinho do romance, imaginava que tal indivíduo ainda tinha de ser "invisível" - entrar e sair sorrateiramente da sua casa e da sua cama sem ser percebido.
Linda já tinha filho grande quando Duda apareceu na academia onde ela malhava. Parecia um sonho aquele rapaz. Tinha até o hálito do Vadinho dos seus sonhos, era malandro como ele, lhe falava obscenidades no ouvido e a fazia esquecer completamente da existência de Olavo, que a essas alturas da vida só transava uma vez a cada 20 dias. E ela mergulhou na sua fantasia como sempre desejou e fez o que pode para aproximá-la ao máximo da sua realidade. O queria dentro de sua casa, com ela na maior parte dos momentos. E Duda virou amigo de Olavo.
Os dois se viam todos os dias e também trocavam mensagens e torpedos. No seu celular, quando ela chamava, era o nome Vadinho que ela via no visor. Ela também começou a assinar e-mails que escrevia para ele como o codinome Flor. Ia tudo muito bem, ela vivia em paz com seus "dois maridos", quando a tecnologia os traiu. O e-mail que era para ter sido apagado, por uma desses motivos que só os nerds explicam, ficou lá, gravado em uma pasta de memória.
Foi uma declaração de amor que Joana leu naquela noite. Endereçada ao e-mail de Duda, seu marido, uma tal de Dona Flor o chamava de Vadinho. Joana era uma mulher apaixonada pela vida mas que não admitia ser enganada. As malas do marido foram parar na rua, sem direito ao perdão. E, pela mesma porta tecnológica, a cópia do e-mail de Flor a Vadinho foi para na tela de Olavo.
A fantasia de Linda acabou aí. Olavo quis a separação e, sem ele, ser Dona Flor não tinha a menor graça. Às vezes vê Duda, mas agora o romance perdeu toda a graça. Duda que gostava da aventura, também não encontrou seu rumo. Sem casa, nunca tem para onde voltar. Joana e Olavo é que acabaram amigos.
quarta-feira, novembro 14, 2007
Que dia engraçado!
Hoje foi um dia engraçado! Trânsito fluindo bem no começo pra depois travar de um vez e me deixar cozinhando no carro durante uma hora justo num trecho que eu faço em menos de 10 de minutos. Coisas de Sampa. E, apesar de afobada e quase chorar de raiva, não fiquei de mau humor. À noite, já nem lembrava mais do sufoco.
Foi o dia em que tudo deu errado mas que, mesmo assim, tudo deu certo.
Perdi a viagem na troca do presente, parei no trânsito, atrasei a chegada, atrasei a coluna, esqueci a sacolinha dos carentes, o boy esqueceu do meu lanche, os chefes me chamaram pra uma "conversa", não li em tempo as agonias da Ana, o estilista adiou a minha visita, levei um não sobre o almoço com a secretária, o email não chegou, a resposta não veio, o encontro não rolou.
Mas, no fim do dia, estava tudo em seu lugar.
Edição fechada, pré-pauta pronta, boas idéias pro dia seguinte, boteco aberto pra ganhar um copo de chope pago pela amiga de bom coração. O outro amigo que há tempos não via pra me dar um abraço. Penso na Bia me pedindo um beijo pela manhã, querendo só abraços e me derreto. Entre os altos e baixos do dia, um bom comentário sobre a nova crônica, uma pergunta sobre a última, uma fã simples revelada no meio da minha gente. E me dou o direito de curtir minhas saudades, quantas saudades!
Sinto de novo que, mesmo quando não sei bem ao certo o que acontece, tenho que dar atenção ao que uma tal de intuição assobia no meu ouvido, meio sussurrando: "está tudo bem."
Queria sempre conseguir levar a vida assim: sem pesos, sem rancores, sem temores nem tremores.
Só levando. Um dia atrás do outro, esperando que o outro seja sempre melhor.
sábado, novembro 03, 2007
Estranho encontro
Ato falho, Freud explica
Ela não se surpreendeu. Na verdade, ela ficou com uma raiva enorme, muita raiva, e fez o retorno com o carro enquanto tentava lembrar o que havia perdido desta vez. Não foi grande coisa: um óculo de sol, carteria de motorista, documentos do carro e, aí!, aquela blusa de lã preta nova! O óculos de sol tinha grau, custou uma grana alta! Que raiva!.
E, enquanto vasculhava a sua memória e, ao mesmo tempo, tentava encontrar a delegacia de polícia mais próxima, viu os meninos de longe, correndo com sua bolsa. Pensou em virar o carro de novo e surpreendê-los, mas conteve o impulso. Não valia a pena...
Foi aí que olhou pra sua mão. Estava sangrando. "Quatro assaltos e pela primeira vez eu me machuco". E chorou.... Chorou de nervoso e de medo. "Justo nesta semana que estava indo tudo tão bem!"
Na delegacia pediu pra parar na vaga onde a placa avisa "reservado para autoridades." E o policial, possivelmente penalizado com tantas lágrimas, deixou. Saiu do carro, se sentou na sala de espera e se preparou para o inevitável chá de cadeira que iria passar.
Foi só então que ligou pro marido que, sabia, deveria estar com a filha, sainda da casa de sua sogra. "Oi. Estouraram o vidro de novo no farol e estou na delegacia." "Pô, de novo? Você tá bem?" "Estou. Me cortei um pouco, estou sangrando, mas estou bem!"
E, então, do outro lado da linha, veio a frase mais chocante do dia: "Ah! Então, vê se resolve tudo rapidão aí e vem pra casa."
Ela teve um ataque de pânico. Pânico mesmo, medo do que ele achava que ela era. Tão forte, tão independente, tão eficiente que era capaz de resolver tudo, tudo rápido. "Como rápido? Você tá louco? Eu estou numa delegacia!"
"Ah, tá! Desculpe. Não quis dizer isto." Mas disse.
Nem menção de ampará-la. Nem menção de socorrê-la. Ato falho. Freud explica.
quinta-feira, novembro 01, 2007
O Passado
Sempre trouxe comigo o meu passado. Não é saudosismo. Me orgulho dele como algo que me formou e me fortalece. Nada que passei me envergonha ou me estristece. Hoje fiquei feliz ao ler um artigo do psicanalista Contardo Calligaris, sobre o filme "O Passado". Diz ele, "não há amnésia que possa acalmar o passado... nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével."
Sempre acho engraçado quem tenta esquecer o passado, enterrá-lo, como se ele não existisse, que se ele fosse só dor. E cito, de novo, Calligaris: "Sobretudo os amores, por mais que acabem, continuam vivendo, subterrâneos, dentro de nós, porque, bem ou mal, são essas as vivências que mais nos formaram e transformaram."
quinta-feira, outubro 18, 2007
Anjos que voam
Está admirada? Digo que é por isso que a gente pode se abraçar e se beijar - voar de felicidade - sem se preocupar com o que a multidão pensará de nós...
Somos anjos, darling.
Estamos anjos.
Você que diz o que pensa pra depois se arrepender
...eu que deixo o sentir me tomar sem me censurar
.......ela que permite ao estranho lhe sacudir sem fugir
Nós somos anjos.
Vislumbramos nosso espaço e poucos nos entendem.
Mas quem nos acompanha não se arrepende.
segunda-feira, outubro 01, 2007
Espanto
O manobrista veio hoje me agradecer: "A senhora não sabe como eu fiquei contente. E a minha mãe, então. Ficou muito satisfeita! Ficou melhor do que eu esperava!"
Ele ganhou o dia dele, quiçá a semana...
Pra mim, são 10 centímetros apenas, ou nem isso. Uma nota falando que um cara lá na Zona Norte resolveu distribuir milhares de doces pra criançada em homenagem a Cosme e Damião. Pra mim, o que esse cara faz é muito mais importante do que o texto impresso num papel que ao meio-dia já estará embrulhando peixe.
Mas pra'quela comunidade, aquela rua, aquela vizinhança, a nota quase no pé da página é a glorificação e o reconhecimento de um trabalho que já vem há alguns anos. "Até saiu no jornal!", alguém lá deve ter dito, com orgulho.
Mal sabem eles que só entrou porque não tinha nada melhor, que era a primeira na lista das que poderiam "cair" e que, pra nós lá, publicar ou não, não teve a menor importância. Ninguém se sentiu melhor ou pior por isso.
Pra gente, ele é um cara em 100 mil, que teve só a sorte de ter um vizinho que é manobrista da garagem onde os funcionários do jornal guardam seus carros. O rapaz é boa praça, perguntou se era possível noticiar, me deu o telefone do dono do feito num papel amassado e eu, por uma lembrança repentina durante uma crise de desespero por causa da falta de notícias, pedi pro estagiário ver o que era.
Isso é o que chamamos de dia-a-dia. E, mesmo sabendo de tudo isso, ainda me espanto.
Talvez não devesse, mas ainda bem que me espanto. Me sinto mais viva e feliz com o espanto.
quarta-feira, setembro 19, 2007
Na claridade
Falta, agora, as janelas serem abertas
E o vento bater, fresco, em nossos rostos.
segunda-feira, setembro 17, 2007
Por cinco minutos
O olhar fixo está naquele grupo de pessoas que acorda na manhã cinzenta da cidade. O chuvisco de São Paulo gela o ambiente.
Um a um, vão saindo de barracas feitas de lona meninas e meninos de pele dourada, meio manchada, despenteados, de roupas largas, amassadas e rasgadas, rostinhos sujos.
Mulheres esguias e grosseiras, que um dia foram bonitas, também estão por lá com suas saias rodadas. Uma delas que está um pouco mais longe fica de cócoras e usa uma caneca de alumínio brilhando, cheia de água fria, para lavar um bebê de pouco mais de um ano. É um pequeno andante, que ela solta em seguida para vê-lo cambalear até cair desajeitado no meio da grama batida.
Os homens morenos usam botas, calça jeans envelhecida, camisa meio aberta mostrando parte do peito e na cintura um facão. Estão reunidos numa rodinha, conversando baixo, mascando fumo, ameaçadores.
Uma fogueira aquece o café perto da barraca maior. Uma senhora velha, de cabelos cinza, toma conta do fogo. A fumaça desenha mais fantasias no ar, deixa todo o ambiente mais misterioso.
O menino maior se aproxima da calçada, da avenida, e olha os carros passando devagar, praticamente parados no congestionamento. Entre os carros de vidros fechados está o de Alba. "É impossível imaginar o que ele pensa", fala sozinha a moça ao volante. O menino se volta de repente e joga longe um pedaço de madeira que tem na mão, numa brincadeira. Mas Alba se assusta. "Ele quer nos atacar!", grita, sem que ninguém a ouça.
É que a imagem destoa do resto da cidade, Alba pensa.
"Essas crianças precisam de cuidado!", ela imagina com lágrimas no olhos. Teve ímpetos de parar o carro para enfrentar toda aquela gente estranha só para tirar os pequenos do meio da bagunça. Mas, de repente, Alba percebe outra coisa.
"Parecem crianças felizes...", se assusta, após olhar de novo para a cena com outros olhos e enxegar todos juntos, compartilhando o café, sorrindo e brincando ao lado dos parentes mais velhos.
Uma curva e o pescoço dela se esforça para não perder outros detalhes do grupo. Até que não é possível ver mais nada. Os prédios já escondem os ciganos. E a cena toda não durou mais do que cinco minutos.
E só então Alba volta para o trânsito e para si.
Olha o espelho retrovisor, o ajeita para ver o reflexo do seu rosto, retoca o batom, ajeita a franja lisa e loira, respira fundo, acelera e esquece completamente de tudo o que sentiu.
quarta-feira, setembro 12, 2007
A chave e o estranho
e deixou a chave da casa
com um estranho
para que ele entrasse e nos visse nuas
Pouco importa quem ele seja!
Pouco importa que você o conheça!
Esse homem-criatura
entrou aqui com seus olhos transparentes
pele lívida e sorriso cínico!
E eu vou arrancar dele a chave e, assim,
nem ele e nem você poderão entrar aqui de novo.
Nunca mais.
quinta-feira, setembro 06, 2007
De alto a baixo
E, desesperada, ela pensou: você não vai morrer. Com cuidado, pegou aquele imenso órgão ensanguentado e o colocou de volta no peito aberto. E ele a olhou com gratidão e alívio. Do lado de fora, ficou apenas o corte, ainda aberto, é certo, mas o pior já tinha passado. Os dois se levantaram e seguiram em busca de socorro. Faltava ainda a sutura. Iria ficar uma imensa cicatriz cruzando o peito dele de alto a baixo. Mas isto não tinha a menor importância.
domingo, setembro 02, 2007
terça-feira, agosto 28, 2007
Horóscopo do dia
Para que a preocupação, se tudo segue em seu curso? O problema que sua alma
enxerga nesse curso é não tê-lo decidido por si mesma. Porém, pense bem: como
você poderia decidir o curso das coisa ainda permanecendo na indecisão?
terça-feira, agosto 14, 2007
Sem errar a mão
Primeiro, era um arrepio na espinha a cada falta de equilíbrio, mas agora é difícil esconder o orgulho da performance perfeita. Volteios e freadas precisas...
Ela ainda chora porque não consegue alcançar o armário mais alto, e reclama porque não sabe escrever direito. Mas descobre a cada dia que as calças estão mais curtas e festeja porque a 'prô' avisou que vai ter aulas de letra de mão!
Ela me abusa, me 'explora', preenche todos os meus espaços, marca meus compromissos, faz a minha agenda, define o meu roteiro diário. Muitas vezes eu, impaciente, transbordo, me revolto, grito e esperneio, tentando encontrar no meio de tudo um espaço só meu.
Mas ela é o meu espaço, meu empurrão, meu esteio, meu sorriso, meu choro, meus momentos de reflexão. E, como ela depende do que sou, me seguro pra não cair na vida, não mudar de vez o rumo e não errar pra sempre a mão.
segunda-feira, agosto 13, 2007
Frio interminável
Minuanos no rosto, a pele doendo, vermelha, trincada, prestes a sangrar.
Mas, por recompensa, as cores de gorros, luvas, cachecóis e sobretudos, as emoções de trenós e cavalos no meio de matas e a noite regada a vinho seco e bom e fondue, a cama aquecida de carinho e edredon. O calor do merecido e caro descanso.
Pouco tempo e vem o frio da terra, cinza, úmido e fedido. Mas, enfim, é este o chão que lhe pertence.
A chuva fina que deprime, o desânimo do não ter e nem saber o que fazer e a coragem de ficar apenas sob o velho cobertor xadrez, vendo filmes infantis durante a tarde, curtindo um ócio merecido e uma espera interminável. Vinho só o doce e barato. Sopa, só congelada. Calor? Só o de dentro, formado por fantasias inconfensáveis.
E agora, é este frio interminável de manhãs escuras que nunca clareiam naquela sala, as mãos e os pés como gelo que não derrete, no peito o ar rasga e dói: ele falta e te desrespeita.
A fricção é inútil e mesmo as blusas se amontoam em seu corpo sem nenhum resultado.
À noite, a água do chuveiro deve ferver, o aquecedor deve estar no seu limite máximo e o pijama deve se parecer com roupa de palhaço. É o único aconchego, o melhor. O calor vem da raiva, mas há consolo no abraço.
E, em tudo, também há a lágrima que, se cair, virá fria, ácida ou amarga, como o seu tempo.
domingo, agosto 12, 2007
Exame médico
Sem palavras eu não existo, ou sou invisível.
Sabe quando você vai ao médico, ele te olha, te mede, escuta o teu coração, faz anotações numa ficha, assina uma guia, uma receita e demora pra te olhar e dirigir a palavra? E quando abre a boca é pra ser tão frio e técnico que só te paralisa?
É esse silêncio "ético" e "profissional" que eu odeio.
E outros tantos também:
o silêncio para não se comprometer,
o silêncio pra não apoiar,
o silêncio pra te deixar na dúvida,
o silêncio pra te derrubar,
o silêncio apenas pra concordar e não ter trabalho de discutir.... há uma lista deles.
Prefiro quando me xingam.
Grite comigo! Diga que estou errada! Se defenda!
Mas não me deixe sem ouvir sua voz, ler sua palavra.
E não permita que eu fique em silêncio!
O meu silêncio nunca é opção.
É medo, é dúvida, é dor.
Ele voltou
Às vezes, a gente cala por dentro, e ando meio assim nos últimos tempos. Não ter onde escrever (pelo menos não ter o lugar onde gosto de escrever) veio até bem a calhar...
O fato é que hoje ele voltou num susto sem eu fazer muito esforço, ou melhor, nenhum esforço. A vida é assim mesmo... As situações se colocam sem a gente entender direito e muitas vezes se resolvem sozinhas, quando a gente menos espera.
segunda-feira, junho 18, 2007
Tardes de Outono
Um sinal e eu não me controlo
Uma palavra que se transforma em lágrima
Um olhar que me enfurece
Outro que me derrete
É assim que a vida tem me tocado
E é isso que talvez você não aproveite...
Não percebe que isso é bom em mim!
Adoro as tardes de Outono...
Tardes como as de ontem que me fazem lembrar...
Caminhadas pelas ruas da cidade
"Cabelo ao vento, gente jovem reunida..."
Tenho saudades das sensações
E fico feliz por senti-las de novo
Desta vez sozinha, no carro,
O vento bate no rosto, o sol vermelho me acalma
Respiro fundo, fecho os olhos...
E chego feliz ao anoitecer!