quarta-feira, novembro 14, 2007
Que dia engraçado!
Hoje foi um dia engraçado! Trânsito fluindo bem no começo pra depois travar de um vez e me deixar cozinhando no carro durante uma hora justo num trecho que eu faço em menos de 10 de minutos. Coisas de Sampa. E, apesar de afobada e quase chorar de raiva, não fiquei de mau humor. À noite, já nem lembrava mais do sufoco.
Foi o dia em que tudo deu errado mas que, mesmo assim, tudo deu certo.
Perdi a viagem na troca do presente, parei no trânsito, atrasei a chegada, atrasei a coluna, esqueci a sacolinha dos carentes, o boy esqueceu do meu lanche, os chefes me chamaram pra uma "conversa", não li em tempo as agonias da Ana, o estilista adiou a minha visita, levei um não sobre o almoço com a secretária, o email não chegou, a resposta não veio, o encontro não rolou.
Mas, no fim do dia, estava tudo em seu lugar.
Edição fechada, pré-pauta pronta, boas idéias pro dia seguinte, boteco aberto pra ganhar um copo de chope pago pela amiga de bom coração. O outro amigo que há tempos não via pra me dar um abraço. Penso na Bia me pedindo um beijo pela manhã, querendo só abraços e me derreto. Entre os altos e baixos do dia, um bom comentário sobre a nova crônica, uma pergunta sobre a última, uma fã simples revelada no meio da minha gente. E me dou o direito de curtir minhas saudades, quantas saudades!
Sinto de novo que, mesmo quando não sei bem ao certo o que acontece, tenho que dar atenção ao que uma tal de intuição assobia no meu ouvido, meio sussurrando: "está tudo bem."
Queria sempre conseguir levar a vida assim: sem pesos, sem rancores, sem temores nem tremores.
Só levando. Um dia atrás do outro, esperando que o outro seja sempre melhor.
sábado, novembro 03, 2007
Estranho encontro
Ato falho, Freud explica
Ela não se surpreendeu. Na verdade, ela ficou com uma raiva enorme, muita raiva, e fez o retorno com o carro enquanto tentava lembrar o que havia perdido desta vez. Não foi grande coisa: um óculo de sol, carteria de motorista, documentos do carro e, aí!, aquela blusa de lã preta nova! O óculos de sol tinha grau, custou uma grana alta! Que raiva!.
E, enquanto vasculhava a sua memória e, ao mesmo tempo, tentava encontrar a delegacia de polícia mais próxima, viu os meninos de longe, correndo com sua bolsa. Pensou em virar o carro de novo e surpreendê-los, mas conteve o impulso. Não valia a pena...
Foi aí que olhou pra sua mão. Estava sangrando. "Quatro assaltos e pela primeira vez eu me machuco". E chorou.... Chorou de nervoso e de medo. "Justo nesta semana que estava indo tudo tão bem!"
Na delegacia pediu pra parar na vaga onde a placa avisa "reservado para autoridades." E o policial, possivelmente penalizado com tantas lágrimas, deixou. Saiu do carro, se sentou na sala de espera e se preparou para o inevitável chá de cadeira que iria passar.
Foi só então que ligou pro marido que, sabia, deveria estar com a filha, sainda da casa de sua sogra. "Oi. Estouraram o vidro de novo no farol e estou na delegacia." "Pô, de novo? Você tá bem?" "Estou. Me cortei um pouco, estou sangrando, mas estou bem!"
E, então, do outro lado da linha, veio a frase mais chocante do dia: "Ah! Então, vê se resolve tudo rapidão aí e vem pra casa."
Ela teve um ataque de pânico. Pânico mesmo, medo do que ele achava que ela era. Tão forte, tão independente, tão eficiente que era capaz de resolver tudo, tudo rápido. "Como rápido? Você tá louco? Eu estou numa delegacia!"
"Ah, tá! Desculpe. Não quis dizer isto." Mas disse.
Nem menção de ampará-la. Nem menção de socorrê-la. Ato falho. Freud explica.
quinta-feira, novembro 01, 2007
O Passado
Sempre trouxe comigo o meu passado. Não é saudosismo. Me orgulho dele como algo que me formou e me fortalece. Nada que passei me envergonha ou me estristece. Hoje fiquei feliz ao ler um artigo do psicanalista Contardo Calligaris, sobre o filme "O Passado". Diz ele, "não há amnésia que possa acalmar o passado... nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével."
Sempre acho engraçado quem tenta esquecer o passado, enterrá-lo, como se ele não existisse, que se ele fosse só dor. E cito, de novo, Calligaris: "Sobretudo os amores, por mais que acabem, continuam vivendo, subterrâneos, dentro de nós, porque, bem ou mal, são essas as vivências que mais nos formaram e transformaram."
quinta-feira, outubro 18, 2007
Anjos que voam
Está admirada? Digo que é por isso que a gente pode se abraçar e se beijar - voar de felicidade - sem se preocupar com o que a multidão pensará de nós...
Somos anjos, darling.
Estamos anjos.
Você que diz o que pensa pra depois se arrepender
...eu que deixo o sentir me tomar sem me censurar
.......ela que permite ao estranho lhe sacudir sem fugir
Nós somos anjos.
Vislumbramos nosso espaço e poucos nos entendem.
Mas quem nos acompanha não se arrepende.
segunda-feira, outubro 01, 2007
Espanto
O manobrista veio hoje me agradecer: "A senhora não sabe como eu fiquei contente. E a minha mãe, então. Ficou muito satisfeita! Ficou melhor do que eu esperava!"
Ele ganhou o dia dele, quiçá a semana...
Pra mim, são 10 centímetros apenas, ou nem isso. Uma nota falando que um cara lá na Zona Norte resolveu distribuir milhares de doces pra criançada em homenagem a Cosme e Damião. Pra mim, o que esse cara faz é muito mais importante do que o texto impresso num papel que ao meio-dia já estará embrulhando peixe.
Mas pra'quela comunidade, aquela rua, aquela vizinhança, a nota quase no pé da página é a glorificação e o reconhecimento de um trabalho que já vem há alguns anos. "Até saiu no jornal!", alguém lá deve ter dito, com orgulho.
Mal sabem eles que só entrou porque não tinha nada melhor, que era a primeira na lista das que poderiam "cair" e que, pra nós lá, publicar ou não, não teve a menor importância. Ninguém se sentiu melhor ou pior por isso.
Pra gente, ele é um cara em 100 mil, que teve só a sorte de ter um vizinho que é manobrista da garagem onde os funcionários do jornal guardam seus carros. O rapaz é boa praça, perguntou se era possível noticiar, me deu o telefone do dono do feito num papel amassado e eu, por uma lembrança repentina durante uma crise de desespero por causa da falta de notícias, pedi pro estagiário ver o que era.
Isso é o que chamamos de dia-a-dia. E, mesmo sabendo de tudo isso, ainda me espanto.
Talvez não devesse, mas ainda bem que me espanto. Me sinto mais viva e feliz com o espanto.
quarta-feira, setembro 19, 2007
Na claridade
Falta, agora, as janelas serem abertas
E o vento bater, fresco, em nossos rostos.
segunda-feira, setembro 17, 2007
Por cinco minutos
O olhar fixo está naquele grupo de pessoas que acorda na manhã cinzenta da cidade. O chuvisco de São Paulo gela o ambiente.
Um a um, vão saindo de barracas feitas de lona meninas e meninos de pele dourada, meio manchada, despenteados, de roupas largas, amassadas e rasgadas, rostinhos sujos.
Mulheres esguias e grosseiras, que um dia foram bonitas, também estão por lá com suas saias rodadas. Uma delas que está um pouco mais longe fica de cócoras e usa uma caneca de alumínio brilhando, cheia de água fria, para lavar um bebê de pouco mais de um ano. É um pequeno andante, que ela solta em seguida para vê-lo cambalear até cair desajeitado no meio da grama batida.
Os homens morenos usam botas, calça jeans envelhecida, camisa meio aberta mostrando parte do peito e na cintura um facão. Estão reunidos numa rodinha, conversando baixo, mascando fumo, ameaçadores.
Uma fogueira aquece o café perto da barraca maior. Uma senhora velha, de cabelos cinza, toma conta do fogo. A fumaça desenha mais fantasias no ar, deixa todo o ambiente mais misterioso.
O menino maior se aproxima da calçada, da avenida, e olha os carros passando devagar, praticamente parados no congestionamento. Entre os carros de vidros fechados está o de Alba. "É impossível imaginar o que ele pensa", fala sozinha a moça ao volante. O menino se volta de repente e joga longe um pedaço de madeira que tem na mão, numa brincadeira. Mas Alba se assusta. "Ele quer nos atacar!", grita, sem que ninguém a ouça.
É que a imagem destoa do resto da cidade, Alba pensa.
"Essas crianças precisam de cuidado!", ela imagina com lágrimas no olhos. Teve ímpetos de parar o carro para enfrentar toda aquela gente estranha só para tirar os pequenos do meio da bagunça. Mas, de repente, Alba percebe outra coisa.
"Parecem crianças felizes...", se assusta, após olhar de novo para a cena com outros olhos e enxegar todos juntos, compartilhando o café, sorrindo e brincando ao lado dos parentes mais velhos.
Uma curva e o pescoço dela se esforça para não perder outros detalhes do grupo. Até que não é possível ver mais nada. Os prédios já escondem os ciganos. E a cena toda não durou mais do que cinco minutos.
E só então Alba volta para o trânsito e para si.
Olha o espelho retrovisor, o ajeita para ver o reflexo do seu rosto, retoca o batom, ajeita a franja lisa e loira, respira fundo, acelera e esquece completamente de tudo o que sentiu.
quarta-feira, setembro 12, 2007
A chave e o estranho
e deixou a chave da casa
com um estranho
para que ele entrasse e nos visse nuas
Pouco importa quem ele seja!
Pouco importa que você o conheça!
Esse homem-criatura
entrou aqui com seus olhos transparentes
pele lívida e sorriso cínico!
E eu vou arrancar dele a chave e, assim,
nem ele e nem você poderão entrar aqui de novo.
Nunca mais.
quinta-feira, setembro 06, 2007
De alto a baixo
E, desesperada, ela pensou: você não vai morrer. Com cuidado, pegou aquele imenso órgão ensanguentado e o colocou de volta no peito aberto. E ele a olhou com gratidão e alívio. Do lado de fora, ficou apenas o corte, ainda aberto, é certo, mas o pior já tinha passado. Os dois se levantaram e seguiram em busca de socorro. Faltava ainda a sutura. Iria ficar uma imensa cicatriz cruzando o peito dele de alto a baixo. Mas isto não tinha a menor importância.
domingo, setembro 02, 2007
terça-feira, agosto 28, 2007
Horóscopo do dia
Para que a preocupação, se tudo segue em seu curso? O problema que sua alma
enxerga nesse curso é não tê-lo decidido por si mesma. Porém, pense bem: como
você poderia decidir o curso das coisa ainda permanecendo na indecisão?
terça-feira, agosto 14, 2007
Sem errar a mão
Primeiro, era um arrepio na espinha a cada falta de equilíbrio, mas agora é difícil esconder o orgulho da performance perfeita. Volteios e freadas precisas...
Ela ainda chora porque não consegue alcançar o armário mais alto, e reclama porque não sabe escrever direito. Mas descobre a cada dia que as calças estão mais curtas e festeja porque a 'prô' avisou que vai ter aulas de letra de mão!
Ela me abusa, me 'explora', preenche todos os meus espaços, marca meus compromissos, faz a minha agenda, define o meu roteiro diário. Muitas vezes eu, impaciente, transbordo, me revolto, grito e esperneio, tentando encontrar no meio de tudo um espaço só meu.
Mas ela é o meu espaço, meu empurrão, meu esteio, meu sorriso, meu choro, meus momentos de reflexão. E, como ela depende do que sou, me seguro pra não cair na vida, não mudar de vez o rumo e não errar pra sempre a mão.
segunda-feira, agosto 13, 2007
Frio interminável
Minuanos no rosto, a pele doendo, vermelha, trincada, prestes a sangrar.
Mas, por recompensa, as cores de gorros, luvas, cachecóis e sobretudos, as emoções de trenós e cavalos no meio de matas e a noite regada a vinho seco e bom e fondue, a cama aquecida de carinho e edredon. O calor do merecido e caro descanso.
Pouco tempo e vem o frio da terra, cinza, úmido e fedido. Mas, enfim, é este o chão que lhe pertence.
A chuva fina que deprime, o desânimo do não ter e nem saber o que fazer e a coragem de ficar apenas sob o velho cobertor xadrez, vendo filmes infantis durante a tarde, curtindo um ócio merecido e uma espera interminável. Vinho só o doce e barato. Sopa, só congelada. Calor? Só o de dentro, formado por fantasias inconfensáveis.
E agora, é este frio interminável de manhãs escuras que nunca clareiam naquela sala, as mãos e os pés como gelo que não derrete, no peito o ar rasga e dói: ele falta e te desrespeita.
A fricção é inútil e mesmo as blusas se amontoam em seu corpo sem nenhum resultado.
À noite, a água do chuveiro deve ferver, o aquecedor deve estar no seu limite máximo e o pijama deve se parecer com roupa de palhaço. É o único aconchego, o melhor. O calor vem da raiva, mas há consolo no abraço.
E, em tudo, também há a lágrima que, se cair, virá fria, ácida ou amarga, como o seu tempo.
domingo, agosto 12, 2007
Exame médico
Sem palavras eu não existo, ou sou invisível.
Sabe quando você vai ao médico, ele te olha, te mede, escuta o teu coração, faz anotações numa ficha, assina uma guia, uma receita e demora pra te olhar e dirigir a palavra? E quando abre a boca é pra ser tão frio e técnico que só te paralisa?
É esse silêncio "ético" e "profissional" que eu odeio.
E outros tantos também:
o silêncio para não se comprometer,
o silêncio pra não apoiar,
o silêncio pra te deixar na dúvida,
o silêncio pra te derrubar,
o silêncio apenas pra concordar e não ter trabalho de discutir.... há uma lista deles.
Prefiro quando me xingam.
Grite comigo! Diga que estou errada! Se defenda!
Mas não me deixe sem ouvir sua voz, ler sua palavra.
E não permita que eu fique em silêncio!
O meu silêncio nunca é opção.
É medo, é dúvida, é dor.
Ele voltou
Às vezes, a gente cala por dentro, e ando meio assim nos últimos tempos. Não ter onde escrever (pelo menos não ter o lugar onde gosto de escrever) veio até bem a calhar...
O fato é que hoje ele voltou num susto sem eu fazer muito esforço, ou melhor, nenhum esforço. A vida é assim mesmo... As situações se colocam sem a gente entender direito e muitas vezes se resolvem sozinhas, quando a gente menos espera.
segunda-feira, junho 18, 2007
Tardes de Outono
Um sinal e eu não me controlo
Uma palavra que se transforma em lágrima
Um olhar que me enfurece
Outro que me derrete
É assim que a vida tem me tocado
E é isso que talvez você não aproveite...
Não percebe que isso é bom em mim!
Adoro as tardes de Outono...
Tardes como as de ontem que me fazem lembrar...
Caminhadas pelas ruas da cidade
"Cabelo ao vento, gente jovem reunida..."
Tenho saudades das sensações
E fico feliz por senti-las de novo
Desta vez sozinha, no carro,
O vento bate no rosto, o sol vermelho me acalma
Respiro fundo, fecho os olhos...
E chego feliz ao anoitecer!
quinta-feira, maio 24, 2007
Nosso novo movimento
vou tomar a sopa com o seu tempero,
falar sobre os seus sonhos
brilhantes e verdes e,
no final,
antes de dormir,
vou tentar ardentemente traduzir
as idéias e promessas que
surgiram nos cantos
de nossas imaginações em contos singelos,
sempre pretensiosamente sinceros...
e eternos!
quinta-feira, maio 17, 2007
Vamos celebrar as canções
Ainda bem!
Must Be Talkin' To An Angel, by Eurythmics, me dá cócegas nos pés e uma vontade louca de dançar.
Me vejo dançando na sala, janelas abertar pro sol entrar, a Bia rodando no meu colo, na rua as pessoas passando e olhando, o som no último, mas estou só no meu próprio carro, de cara pra luminosidade do céu azul... E é o que basta!
"La da di da-da da-da da
Da-da da-da
La da di da-da da-da da
Da-da da-da, yeah"
Parece bobagem isso, mas não é! Depois de dias de trabalho intenso, o cansaço, as dores e o mal estar me deixam tão frágil, tão triste, que perco a noção do que sou eu ou do que sinto falta. Ou de quem sinto falta. Aí, um convite à celebração é um bom sinal:
"No one on earth could feel like this
I'm thrown and overblown with bliss
There must be an angel
Playin' with my heart, yeah
I walk in to an empty room
And suddenly my heart goes BOOM
It's an orchestra of angels
And they're playin' with my heart, yeah"
domingo, maio 13, 2007
Registro - Mapa Astral
"De acordo com o cálculo do Mapa Natal, no exato momento do nascimento
de Viviane, a lua encontrava-se no signo de Áries. A posição da lua no Mapa
Natal fala sobre a nossa vida emocional e a forma como vivemos e expressamos
os nossos sentimentos. O signo lunar revela ainda características sobre a
maternidade, apontando como a mulher lida com este lado importante e
marcante de sua vida. A mãe com o signo lunar em Áries é toda sinceridade.
Apressada, às vezes impaciente, mas quase uma criança na manifestação
espontânea de seu amor. O melhor lado que ela tem a oferecer ao mundo é a
fé: a crença de que as coisas podem e devem ser melhores do que são. A mãe
com a lua em Áries também é, demasiadamente, voltada para o imediato, para o
'curto prazo'. Sua vida é uma sucessão de momentos vivos e intensos como os
de alguém que deseja sorver a vida até sua última gota. Para ela, tudo é à
flor da pele. É uma criatura aventureira, mas sabe se dedicar muito bem à
tarefa de ser mãe."
Ele não tem mãe
- Mãe, por que você tem de trabalhar no Dia das Mães?
E eu já não aguentava mais responder:
- Porque o papa está aqui, filha. E eu tenho de trabalhar. Todo mundo lá no jornal tem de trabalhar.
Juro, ela já tinha feito a pergunta umas duzentas vezes. Aí, hoje de manhã, eu não aguentei mais:
- Bia, pára de me perguntar isso. Eu já te respondi. O papa está aí. Não quero mais ouvir esta pergunta!
A garotinha calou alguns segundos. E, então, disparou:
- Tá bom, mãe, vou perguntar outra coisa, então:
Por que o papa tinha que vir para cá justo no Dia das Mães???
- (rs, rs, rs)... é porque ele não tem mãe, Bia. Ele com certeza não tem mãe.
O reverso
E eu tive de encará-la de novo!
E eu te achei tão linda, tão linda....
Te invejei por inteiro
Teu porte, tua segurança, tua voz
E me entreguei em tuas mãos
sem te conhecer...
mal sabendo teu nome.
Fui obrigada a confiar...
Esquecer o meu medo
e, no final, te admirar
E agradecer
quarta-feira, maio 02, 2007
Sob os holofotes
E daí se essas pessoas me vêem chorar e percebem que não sou tão forte?
"Isso é uma bobagem, não tem nada demais, mas a gente respeita você!", ela diz...
Respeito... pouca gente sabe o que essa palavra significa...
Vergonha...
Vergonha por cada lágrima minha que você vê!
Inda bem que não verei mais nenhum de vocês!...
(Mas vocês talvez me vejam, e me reconheçam!)
E você, senhor charmoso, de barbas e cabelos longos, você eu com certeza verei e lembrarei que falou comigo como se eu fosse uma criança.
E talvez fosse isso mesmo o que eu aparentava... uma criança assustada, nua, com uma touca ridícula na cabeça, meias nos pés e holofotes na cara.
"Qual é o seu nome? Você sabe?"
"E a sua profissão?"
"Sabe onde mora?"
"Quem está com você?
Eu estou só! A minha companhia é só um empréstimo!
Porque no fundo, estou sempre só!
E acabou!
quinta-feira, abril 26, 2007
Pretinho básico
Sentada no sofá, vendo desenho animado, a Bia olha, avalia e dispara:
- Mãe, você parece uma velha com esse vestido... Não combina.
A garotinha de 6 anos me pegou no fígado! Há meses eu já estava com a sensação de que aquele vestido de crepe tinha mais cara de senhora-senhora do que de jovem-senhora-que-não-gosta-de-se-vestir-na-modinha-mas-que-também-odeia-cafonices. Mas mantinha por teimosia o vestido pendurado no armário. E, nesta fase dos 40, qualquer menção à velhice me deixa louca de raiva.
E explodo:
- Pô, Bia, eu já desconfiava que esse vestido me envelhecia, faz tempo que não uso, mas você tinha que falar assim na lata??!! Me arrasou!!
A garotinha se desculpa:
- Não, não, mãe! Tá bom, tá bonito, vai com ele!
- Não vou. Quer saber? Vou tirar ele agora e dar pra alguém. Ó, vou tirar e dar pra Val (é a babá) levar pra mãe dela! Vai servir direitinho na dona Maria!
E a menina sussurra baixinho:
- Na minha avó também ia ficar bom...
Explodi de novo, mas desta vez de tanto dar risada...
domingo, abril 22, 2007
Pergunta da Bia...
Por que você vai no estádio ver futebol e, quando chega em casa, liga a
televisão para ver futebol??
sexta-feira, abril 20, 2007
Vontades
Ouvindo só o que dizem as minhas próprias dúvidas
Quero olhar essa tela e já ver tudo escrito
E só ter o trabalho de transpor o meu saber para o seu olhar
Quero falar baixinho
E sentir que o outro ouviu o meu grito
Quero te contar tudo sem falar palavra
Para você ter certeza que estou ao teu lado
Quero abrir a janela e respirar o cheiro de biscoito
E me sentir ainda como uma criança
Quero fechar os olhos e me sentir flutuando
Quero ter direito à minha solidão
Quero que você me pegue de surpresa
De um jeito que eu não possa lhe dizer não
Quero deitar agora como se fosse para sempre
Para encontrar bracinhos finos procurando o meu pescoço
O que é um bom jeito de dormir em paz
quarta-feira, abril 18, 2007
sexta-feira, abril 13, 2007
Rua da Marquise, 901
Já olhei no guia, já olhei na net, já dei uma googada, e não encontrei nada parecido.
É a coisa mais louca que eu já sonhei! Um endereço. Um lugar que eu não sei qual é!
Por que Marquise?? O que é uma marquise? Um lugar onde a gente pode se abrigar!!!
Por que 901? Tenho que consultar uma numeróloga. No limite, é 1 (9+1=10 ou 1). Na numerologia o 1 é Início, a Força, mas também o Egocentrismo....
Já sonhei com beijos, com encontros, com brigas, com amassos, com a água invadindo meu carro, quase me afogando, com fugas desesperadas pela mata, houve época em que sonhava desesperadamente que estava sem sapatos, me dava conta que não tinha sapatos, mas um endereço.........
Não sei mais onde procurá-lo. Mas acho que é lá, neste lugar que não sei onde é, é lá que eu vou encontrar aquele espelho do outro sonho... Nele eu me mirava enquanto chorava... e a outra-eu, a imagem, com a maior naturalidade, desenhava um sorriso no rosto. E eu, chorando, era obrigada a segui-la, meio a contragosto, teimosa por querer continuar a sofrer, mas sabendo que ela, a outra, é que estava certa.
Sem falar palavra, ela dizia pra mim: 'sorria, garota, porque tudo, tudo vai terminar bem!'
segunda-feira, abril 09, 2007
A velhice
Passei todo o feriado encarando tudo isso... Tentando observar o outro e a outra e não ver o meu futuro. Imaginar que comigo pode ser diferente.
Mas, dificilmente será. Não há muito o que fazer pra ser diferente. Me pergunto como não ser atropelada pelo tempo ou pela doença, pelo amargor, pelo abandono ou pela solidão. Algo disso inevitavelmente alcança cada um de nós em algum momento da vida.
Não sei a fórmula para escapar. É difícil não ter medo.
Mas, olhando como meus tios e tias estão, lembrando o que fizeram e como chegaram até hoje, o que me toca mais é a memória que guardo da integridade, da curiosidade, da bondade e da criatividade que tinham. Me orgulho disso, me orgulho por ter conhecido e convivido com cada um deles.
Hoje eles estão trôpegos, inseguros, esquecidos, frágeis, mas não consigo vê-los com piedade, mas sim com respeito e muito afeto.
Será que merecerei algo assim quando chegar aos meus 70 ou 80??
terça-feira, abril 03, 2007
O velho trem
Ele me aquece a alma quase sempre solitária.
Não adianta estar rodeada de gente quando a solidão faz parte da gente.
Escuto no trânsito Back On The Chain Gang (The Pretenders), saio cantando... Fico feliz.
Uma foto
Uma trégua
Dias felizes
Mas agora Back On The Chain Gang..........
Migalha
Queria lhe dar mais.
Ele mereceria toda a sua atenção, todo o seu tempo, todos os seus pensamentos...
Mas ela não consegue.
É incapaz e, por ser incapaz, já chegou a sentir culpa.
Porque ele... ele está sempre ali.
Ele a considera tanto, ele a quer tanto e ele a respeita tanto,
que a comove.
E, pior, ele não lhe cobra nada.
Quando ela o dispensa, ele aceita.
Quando ela adia os seus encontros, ele entende.
Quando ela lhe pede um favor, ele faz.
E não faz por submissão, porque ela não o obriga.
Nem para agradá-la, porque ela não é um tipo que se adule.
Ou mesmo por falta de amor próprio, porque ela nunca o ofende.
Ele apenas faz porque sente prazer.
E ela apenas aceita.
E cala sobre o que não sente.
E, se ele percebe, prefere fazer de conta que não vê.
Ela já tentou amá-lo como ele a ama.
Mas não consegue.
Simplesmente porque, por ele,
não sente nem a atração que vem pelo corpo
e nem a paz que vem pela alma.
Sente apenas afeto sincero,
mais parecido com gratidão.
quarta-feira, março 28, 2007
Maridão
Vem sempre com uma maledicência, uma insinuação de que ele, o marido, é um bem de consumo, uma coisa, um objeto que precisa ser preservado a qualquer custo, manipulável ao belprazer da mulher, algo de segunda categoria.
É ainda pior quando vem assim a fala: "Essa é pra segurar o maridão!". Quem precisa segurar o quê, cara pálida? Por que as pessoas acham que toda mulher quer "segurar" o outro, quer manter alguém pra sempre grudado do seu lado, como se a sobrevivência dela dependesse disso? Seria por que a solidão é assustadora para maioria?
Sei que há mulheres que temem a solidão. Eu também tenho medo às vezes... Mas, Deus, não dá pra se agarrar no medo! Será que não percebem que tem gente diferente. Eu sou diferente! Conheço dezenas de mulheres diferentes.
Odeio quando me perguntam: "cadê o maridão?" O que me irrita é essa necessidade de posse e controle que a maioria tem.
As pessoas são únicas, independentes, não nasceram ligadas. Se encontram, se apaixonam, se amam, ficam juntas, se separam. Faz parte. Cada passo pode doer, de dor ou de prazer, mas é a intensidade de cada passo que dá a graça dessa coisa chamada vida.
E ficar com alguém é mais do que "segurar". É primeiro conquistar, depois dividir, ser cúmplice, manter prazeres e ainda passar por cima de dissabores. E isso sim é difícil!
O que me deixa ainda mais indignada é a falta de consideração com o outro, o marido, como se ele não tivesse parte nisso, fosse alguém estúpido e sem vontades, à disposição da mulher.
Então, vamos combinar: eu não tenho "maridão". Tenho amigo, companheiro, parceiro, namorado, marido, amante ou homem. São nomes melhores, que dizem muito mais de uma relação do que o estúpido "maridão".
Hoje estou com ele. Amanhã, quem sabe?
domingo, março 25, 2007
Lua @ Sol
Sempre me achei mais Sol que Lua. Tenho a pretensão de aquecer a Terra, de esquentar o mundo, todo mundo...
Às vezes me assusto com a repercussão do que falo, um brilho que não alimento, que me segue como se não fizesse parte de mim, me empurrando, assoprando no meu ouvido o que devo fazer. Me assusta também o bem querer de tantos. Nunca acho que o mereço.
Porque, no fundo do meu coração, carrego essa tristeza lunar, entro em paradas escuras e saio ferida e me sentindo perdida. Mas nunca arrependida. Nunca a ponto de desistir e também nunca pronta para esquecer.
Tenho mesmo essa
"esperança no amanhecer,
no devir,
no fruto ou na renovação..."
Pretensão é a palavra. Minha pretensão de ser alguém de quem eu nunca me envergonhe.
quinta-feira, março 15, 2007
Reconciliação
Entro devagar. Odeio respingos pra todos os lados, divisão de problemas com os outros, forma de demonstrar autoconfiança, mas é só autoafirmação.
Respiração profunda, olhos abertos, me estico e sigo.
Num susto, me surpreendo ao ver no fundo minha sombra. Ela me segue livre, como que desprendida de mim. Sua aura é própria. Ela está lá, refletida no azulejo escuro, fazendo cada movimento melhor do que eu mesma.
Apuro a visão e sinto cada onda que se forma com nossos toques. Mudo de posição, olho pra cima, a luz do sol fraco passa através do teto translúcido.
Percebo meus braços, mãos e dedos. Eles vem e vão, surgem e desaparecem e me empurram para a parede.
A água morna me envolve toda, com se fosse um corpo masculino, e eu vou imaginando que ela é. Um corpo bom, grande, que me cobre inteira, me toma e me proteje. Sem ele, na saída, é só frio.
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8. Viro e sigo de novo.
O sol se vai, agora só há refletores ofuscando meus olhos.
- Senhora, é hora de sair.
Acabou o meu prazer.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
Meninas e irmãos
"- Bia, você não tem vontade de ter irmãos?
- 'Magina, que já
é difícil pro's meus pais aguentar uma filha viva e uma
morta, imagina se fossem duas vivas e uma morta.
Imagina...
- Sabe, é bem legal ter um irmão. Mas é chato quando chegam e falam
'Nicole,
vem olhar seu irmãozinho que eu preciso fazer isso', 'Nicole, vem ficar
com
seu irmão que eu preciso fazer aquilo'... "
Detalhe: a Bia sabe da história da irmã, mas nunca falei pra ela sobre filha viva ou morta... A construção é só dela.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
O Outro
Mas te reencontro como é várias vezes
Imagino que te encaro, que converso
E tento não enxergar em você o que gostaria que fosse
Me esforço para colocar uma pedra sobre nós dois
Mas as sensações escorrem por baixo dela
Líquidas, elas se renovam a cada dia
Me volto pra dentro, me encaro, quero parar
Não sou mais a mesma, você nunca mudou
É um alguém estático no tempo
Você não se recicla
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Pelas beiradas
Dói igual a um buraco no estômago que persiste durante muito tempo
Primeiro vem a dor aguda, insuportável, que tira a razão da gente
Depois, a dor desaparece e a fraqueza toma conta do corpo, da mente, da palavra
E vai aumentando...
aumentando...
aumentando....
Fica um tipo de letargia e é até possível esquecer dela
A gente esquece a dor
E o que a sacia, o que lhe corta, o seu sabor
Quando, enfim, se tem o alimento, não dá para comer tudo de um vez
Dá enjôos ver aquele excesso
O rosto se contorce de náusea
A língua não sente o sabor
Tem que se comer aos poucos, pelas beiradas
Primeiro o mais leve, um pouco mais a cada dia, sem pressa
Até o corpo se acostumar de novo com o outro
Eu já senti tanta saudades que, agora, já não sinto mais nada
Ela só não mata como a fome
Mas entristece e desgasta a alma
segunda-feira, janeiro 22, 2007
Shock!
Shock é dança, é Smiths, é angústia, é noite antiga.
Shock já passou, acabou (por algum motivo que eu desconheço esse nome sempre me escapa e sempre me reencontra).
Shock! Agora eu não esqueço mais!
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Ménage à trois
Pois alguém pode me dizer por que aquelas duas mulheres ficaram falando sobre vibradores e sexo em grupo na frente daquela beata? A garota mal conseguia tirar os olhos da louça que lavava enquanto escutava a conversa, encabulada. Ela não tinha nem como sair da cozinha. Porque se saísse daria muita bandeira. E ela ficou, roxa de vergonha!
Eu te digo porque as duas fizeram isso: foi pura diversão. As duas nem combinaram. Mas, 'putas velhas', perceberam a falta de experiência da outra, que parecia mesmo não gostar na 'coisa'.
E, como se já tivessem usado algum instrumento a mais na cama ou mesmo fossem praticantes do 'ménage à trois', discorreram sobre o assunto como duas experts. E era puro teatro.
- Fui numa loja de produtos franceses e encontrei lá um vibrador que era uma graça. Era rosa e tinha até de formato de coelho!!
- Jura! Sou louca pra ter esse.
A coitada da beata nem abria a boca. Na verdade, mal respirava.
- De vez em quando a gente convida outra pra passar a noite lá em casa. Acho muito bom. Mas queria mesmo que fosse outro.
- Ah, isso é bem legal mesmo. Mas meu marido não gosta muito!
Duas cínicas essas donas. São tão 'normais' que dá até dó. Uma terceira pessoa na cama daria um divórcio. Nunca nem pegaram num vibrador. Nem fazem direito o papai-e-mamãe. A preguiça é uma constante e a dor de cabeça sempre a melhor desculpa pra dizer não.
Mas se sentiram o máximo cutucando a menina recém-casada, que era virgem até o matrimônio e sempre acreditou que sexo era só bom pra fazer bebê.
Na hora que a beata conseguiu se livrar a cozinha, elas se sentaram na mesa e morreram de rir.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
Não
A agulha fina sugando a minha vida.
Não sinto dor, só a invasão.
E penso: o seu olhar terno me amolece.
Por uma vida você me oferece a sua mão.
E eu a afasto e digo não.
Você reclama e diz: 'você sempre diz não.'
Isso virou piada.
Eu aqui, meio virada, curtindo essa profunda solidão.
A vertigem passou, o nó foi desatado.
Agora, uma nova fase, um novo quarto.
'Me siga, tire a roupa, ponha um avental.'
'Deite, relaxe, ela já vem.'
Tudo é rápido, gelado, anti-séptico.
Pego o carro, quero ir embora, vou comer.
A vida corre. E eu, por você.
Sem você.
domingo, dezembro 31, 2006
A melhor parte chegou
A cidade vazia é a melhor parte desse plantão.
Enfim, 2006 acabou. O fim de ano chega tranqüilo, de um jeito que nem pude vislumbrar há alguns meses. Está como praia no fim de tarde.
Nada como o tempo mesmo para transformar situações, consolidar sentimentos e fortalecer convicções. E nada melhor do que ele para limpar a neblina que às vezes insiste em atrapalhar a nossa visão.
Os sentimentos continuam vibrando, como no início de 2006.
Mas o coração está pacificado, leve.
Escrevo aqui o que estou pensando, nessa solidão que é o Réveillon em um plantão. Solidão, mas com muita gente em volta. Pessoas sem vínculo para comemorar datas especiais, mas unidas por um osso imposto pelo trabalho. Faz parte.
E escrevo sem compromisso, como num confessionário. Como que sussurrando algo, que só eu escuto.
Não tenho desejos ambiciosos para 2007.
Mas quero muito continuar a me surpreender a cada dia. Comigo e com o mundo.
E, numa daquelas certezas esquisitas que às vezes sinto, sei que 2007 vai ser melhor que 2006.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Pós-Natal
Preciso desse ar que diz que a serra está próxima, e o mar logo ali.
O calor infernal ficou para trás.
As tardes empapadas de suor, eu jogada num canto da casa íntima, porém estranha.
Membros inertes, cabeça pesada e confusa, ócio até saudável,
Mas que desesperadamente eterno!
Adoro essa terra!
Chego aqui e me delicio com o barulho na rua,
Com as milhares de luzes amarelas e brancas,
Com os prédios enormes, lindos e feios,
Com as construções bizarras,
Com os outdoors, os luminosos,
Com confusão diária da minha vida comum.
No meu quintal, de madrugada,
Respiro fundo, fecho os olhos e levito com o cheiro de biscoito.
Abro os braços, estou aqui.
Estou em casa.
domingo, dezembro 10, 2006
Ardil - Red Rose
A flor vermelha se destacava de longe.
Quando a menina acordou e abriu a janela encontrou lá a rosa roubada, rubra, sua favorita. Nas folhas verdes, declarações de amor escritas com caneta fina preta. “Rosa de amor só vale se for roubada”, ela havia dito a ele na noite anterior.
E ele fez o seu capricho. Pulou o muro da casa da vizinha, baixo, feito mesmo para ser pulado, e arrancou a rosa, sem antes se machucar com seus espinhos.
E a deixou feliz.
A menina da metrópole se encantou com esse costume do interior. E, até por ser da metrópole, lhe choviam pretendentes. E ela decidiu namorar o que cumprisse o ritual. E ele cumpriu. A risca. “Meu amor, minha flor, você é tudo, você é linda, você quer ser minha?” Que tudo era aquilo para aquela menina!!! Declaração de amor tosca, infantil até, mas era o máximo naquele momento.
Foi seu primeiro namorado. Seu primeiro grande amor. Ela 15, ele 18. Ela linda, ele tímido. Ela virgem, ele no ponto. Ela da cidade grande, ele do interior.
A paixão foi tão avalassaladora que toda cidadezinha se envolveu. Todos torciam por eles.
O pai na cidade grande se assustou. “Se souber de algo que estrague sua reputação você não volta pra lá”, ameaçou. A parentalha se ocupou de protegê-los. As tias os levavam para as suas casas, não os deixavam namorar nas praças, na escada da igreja, nas esquinas. Os beijos mais íntimos eram dados dentro de saletas, nas varandas das chácaras, longe dos olhos maldosos. “Esse casal é lindo”, diziam, melosos.
Mas as férias acabaram e ela partiu. E ele ficou, prometendo amor e fidelidade eternos, chorando de saudades na porta do ônibus. Meses de namoro por cartas quase diárias eles tiveram.
Mas os hormônios da adolescência não param de ferver. E um dia chegou a carta derradeira: “Desculpe, mas me apaixonei por outra aqui. É melhor terminarmos.”
A traição é um tipo de navalha que entra no coração das pessoas. E foi a dor de uma navalhada que ela sentiu com aquela carta.
Não que estivesse só e fosse absolutamente fiel. Na verdade, já estava com outro na grande cidade, nos bailes de domingo já havia trocado beijos e mais beijos com vários e se sentia bem menos apaixonada do que nas férias. Mas a mulher traída, mesmo a adolescente, é terrível e ardilosa.
Ela chorou uma semana trancada em seu quarto e depois o esqueceu. Só sobrou o capricho que logo logo seria realizado.
Ele, por sua vez, comeu o pão que o diabo amassou na cidadezinha do interior. Filho da terra, se apaixonou por uma filha da terra, grande amiga da namoradinha da grande cidade. Mas nem o amor sincero os redimiram. Viraram traidores. A cidadezinha ignorante os maltratou e eles viraram um casal de parias. Ninguém os convidava pra nada, todos os consideravam traidores da jovem virgem da cidade. Mal sabiam que ela, na metrópole, já não chorava mais. Só tinha a raiva das traídas.
E quando, lá perto de um Natal, ela voltou pra cidadezinha, não sossegou enquanto não o reencontrou. Chegou e foi direto ao baile da cidade, onde todos estariam. Estava linda como nunca. E ele, quando a viu, quase enlouqueceu. E ela esperou até o fim. E ele levou a namorada pra casa. E ela fingiu que partiu, mas ficou lá, à espreita, no portão da casa dele, encostada em uma árvore. E, quando ele chegou, lá estava ela. Cínica, irônica e linda, perguntou chorosa? “Mas, por quê?” E ele não soube responder. Que falsa ela era. Já estava com outro, ou outros, e ele só queria ser feliz na cidadezinha do interior. Mas ela não sossegou até seduzi-lo e arrancar-lhe um longo beijo. Arrancaria mais se soubesse como. Mas ainda era virgem e um tanto inexperiente.
Despedida? Não. Vingança. Ela estava vingada da outra, que um dia tinha sido sua amiga naquela cidade do interior.
Ela dormiu feliz aquela noite. Seu sono foi profundo. Ele não dormiu. Sua consciência pesava. Como são bobos esses rapazes... Até hoje sua consciência pesa por causa daquele beijo no meio da madrugada na frente do seu portão.
Vinte anos se passaram. O casal foi perdoado pelos da cidadezinha. Se casaram em grande estilo, tiveram filhos lindos. Ele tem um bom emprego, a mulher cuida da casa. Ele vive a vida dos homens justos e normais, sem sustos ou aventuras. Parecem felizes.
Ela teve vários homens, se divertiu pela vida, rodou o mundo, mas um dia também cansou e resolveu arriscar a normalidade. Casou e teve filhos. Enfim, sossegou. De vez em quando, volta à cidadezinha e o encontra por acaso, em alguma esquina, na casa de algum parente. E ela ainda se diverte, porque até hoje ele não tem coragem de encará-la como alguém comum. Talvez a vergonha da traição, talvez o medo da mulher saber do último beijo, talvez o arrependimento de ter optado pelo comum e conhecido pouco do mundo. Quem vai saber?
Ela já não se importa mais. Mas não consegue vê-lo de longe ou de perto sem desenhar no seu rosto um sorriso um tanto quanto vitorioso.
sábado, dezembro 09, 2006
Poema emprestado
Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás
domingo, dezembro 03, 2006
Ele de novo
É só que às vezes me toma um silêncio ensurdecedor.
É contraditório porque, lá dentro, as vozes não calam.
O silêncio só se faz pra fora.
Nada sai de casa. Isso me desespera.
Parece que é de novo a paciência a me testar.
quarta-feira, novembro 22, 2006
Sonho pra San
Já que você quer falar de sonhos, vou te contar um sonho meu.
Sabe, não sou de dar muita bola pra sonhos. Ou melhor, de me impressionar com o seu significado, porque não vejo neles premonição, mas desejo, e quando a gente sabe o que quer não precisa deles. Eles às vezes confundem mais do que ajudam.
Mas até que um deles, há um ano mais ou menos, me incentivou a procurar amigos dos velhos tempos e foi bom. Na época, sonhei que voltava para Santo André onde eu fazia teatro, mas ela já não era mais a mesma. Como a vida que muda, a cidade naquele local havia sido 'urbanizada'. O local estava uma beleza, por sinal. Era uma praça arborizada. Nunca saí de Santo André, você sabe, mas pra mim é como se estivesse fora daqui sempre. Acho que é porque estudo e trabalho sempre rolaram fora daqui. Aqui é o meu refúgio noturno, meu lado família, minha parte mais íntima. O público está em Sampa.
Voltando ao sonho: não conhecia mais ninguém, mas quase todos que me viam me conheciam, lembravam de mim. A casa onde ensaiávamos era, no sonho, um tipo de hexágono, com uma sala ao centro e várias salas em volta, todas com portas pra esta sala central. Entrei e fui olhando cada cômodo e perguntando pelas pessoas, que naquele exato momento não estavam lá. E de repente, chegam várias, que eu não lembrava mais, quem eram, mas me conheciam. E me virei e lá estava o meu amigo, bem diferente por sinal. Quase não o reconheci, mas ele abriu a boca, falou algo que não lembro e eu acordei.
O sonho me emocionou tanto que resolvi procurá-lo. É engraçado que, no reencontro, acho que descobri que mudamos todos daquela turma, mas não muito. Lá no fundo, temos todos ainda nossos velhos defeitos, tentando superá-los quando o admitimos, mas também nossas melhores qualidades.
O sonho do sono me parece mais aquilo que queremos do que aquilo que vai se realizar. O sonho acordada me parece mais real, mais perigoso, mas mais prazeroso também. Eu, você sabe, ando sonhando demais. Mas prefiro assim. Sabe, amiga, sempre tive urgência de tudo, mas ultimamente tenho parado pra respirar. A vida me obriga a isto. E sinto que não devo ter mais pressa de nada, mas isso é difícil, porque implica eu mudança profunda. Só não posso parar de sonhar.
Agorinha, colocando a Bia pra dormir, só conseguia pensar no quanto é grande este amor que sinto por ela. Isso parece um sonho e é tão real. E disse que queria beijá-la aos montes e a danada, de olhos fechados, se aproximou ainda mais pra ficar perto dos meus beijos, ameaçando um sorrizinho maroto. É mais que um sonho, não é? É nessas horas que você acha que pode até morrer porque, até agora pelo menos, conseguiu fazer tudo que devia e podia do melhor jeito que sabia. É como o seu Chico lá no seu blog, dividindo sonhos com você.
Bem, se eu morrer hoje, você sabe onde estão os meus segredos e pra quem entregar, ok?
Mas, tranqüila, não vou morrer não. Sou vaso ruim.
Hoje não vamos nos ver, eu acho. Se voltar cedo, a gente toma um café.
Beijos
domingo, novembro 19, 2006
Sem virar o pote
E o ciúmes é diferente para cada um. Uma prima tinha ciúmes de qualquer outra mulher que se aproximasse do seu marido. Era como uma doença. Hoje ela está chata e só, e ele está feliz com outra. Não é um bom exemplo.
Tipo Carrie Bradshow, em Sexy and the City, sai por aí outro dia checando como as pessoas sentem o ciúmes. Velha mania de racionalizar tudo. Foi um bom exercício.
Achei um cara casado que curte sexo com a mulher e mais alguém. Ótimo exemplo. Tudo bem desde que fossem duas garotas e ele sozinho. "Outro cara na cama com minha mulher, sei não..." "Mas e se ela se apaixonasse pela outra?", perguntei. Ele nunca tinha pensado nisso e não conseguiu responder. Travou. Acho que deixei ele com a pulga atrás da orelha.
Um casal de amigos aceita a troca de casais, desde que tudo esteja muito transparente. Mas ela tem ciúmes, me contou, um ciúmes sutil. Ela se incomoda quando a outra mulher ou o outro homem não percebem o seu lugar. "Quando eles acham que podem mudar alguma coisa entre nós. Eu e o meu marido, nós nos amamos".
"Tenho ciúmes quando vejo que conversou com outra no orkut, quando outra está perto dele e até dos amigos", disse uma menina que conheço. Isso é doentio, achei. Mas é muito comum.
Eu mesmo senti essas coisas há 20 anos e fugi sem olhar pra trás. Naquela época, eu achava que tínhamos que dar o direito ao outro de ficar com outras pessoas. Mas não tive estômago para aguentar o tranco. Na época, foi o melhor que podia fazer por mim: sair fora.
Ouvi várias histórias, mas a melhor veio de uma figura tranqüila, que aparentemente vive de bem a vida. Nunca imaginei que sentisse ciúmes de alguém. Ela falou assim:
"Eu decidi aceitar o convite pra tomar uma cerveja com eles. Era um desafio e tanto. Eu sabia que ele estaria com a namorada. Fui pensando como me sentiria, quantas vezes me imaginaria subindo no pescoço dos dois. Mas vamos lá, coragem, eu pensava. Você tem que superar, já que só podem ser amigos mesmo. Cheguei e sentei estrategicamente na frente da garota. Estranhamente não senti nada. Ou melhor, sentia pena. A cada palavra que ela soltava eu pensava: o que ele viu nessa mulher. Ela não é nem bonita e nem inteligente. A voz é esganiçada. E as idéias, dispensáveis. Eu olhava pra ela, olhava pra ele, e não sentia onde aquela história se encaixava. Me sentia bem por não ter ciúmes, vitoriosa mesmo. Foi aí que aconteceu o imponderável. De repente, o celular dele tocou. Atendeu e passou pra ela, falando um nome. ‘Oi, meu amor, a mamãe já vai pra casa’, ela disse algo assim. 'Droga', eu pensei! 'É o filho da garota, ligando no celular dele, que droga!' Olha aí, Vivi, foi isso, não tive ciúmes dela logo de cara, mas tive ciúmes daquela situação tão íntima que, com o telefonema, percebi que existia entre os dois. O chão saiu debaixo dos meus pés. O boteco estava fechando, todo mundo indo embora, e eu também aproveitei a deixa. Amiga, entrei naquele carro destruída. Chorei até chegar em casa."
"Mas, baby", eu respondi, "podia não ser nada disso. Vocês já tinham bebido, pode ter imaginado coisas...".
"Eu sei, Vivi, mas é disso que eu estou falando. Eu não sei o que está acontecendo ali".
Concluo que o ciúmes é, mais do que sentimento de posse ou de amor, como muita gente defende, é algo sobre a nossa falta de segurança. Temos ciúmes quando não sabemos o que se passa. O ciúmes vem daquilo que não conhecemos.
Par Perfeito
É só o da pele que vai lhe bastar?
É só isso que de mim pode esperar?
Pelo sexo você vai sempre me amar?
Eu cada dia mais longe de você?
Você cada dia mais ligado a mim?
Para onde eu posso te levar?
O que vai fazer se eu te deixar?
Você já experimentou pensar em não me amar?
Que carinho você quer me dar?
O café, o almoço, o consolo?
Um filho, a razão, a palavra final?
A casa, o carro, o trabalho?
O que mais posso eu querer?
Um coração para eu me aproximar?
Uma companhia apenas para estar?
Uma memória pra não esquecer?
Uma paixão para compartilhar?
Que caminho podemos nós trilhar?
O vinho, a cerveja, o filme e cada um num sofá?
Juntos e distantes e viciados neste lar?
Para qual final queremos nós caminhar?
Em qual lugar nós vamos parar?
Até onde nós dois vamos aguentar?
terça-feira, novembro 14, 2006
Casquinha
Mas bem que seria bom tirar um do outro aquela casquinha divertida.
Pensamentos safados completamente fora de época?
Tranqüilo!
São só pensamentos, pura imaginação...
Um pouco de fantasia não faz mal a ninguém.
Você, provavelmente, nem vai saber, nem vai me ler.
Mas bem que seria especial.
Te ver sempre me dá saudades e coragem.
Saudades de algo que não chegou a ser, mas que, mesmo assim, foi muito bom.
segunda-feira, novembro 06, 2006
Passagem
Mãos macias os protejem...
Os envolvem...
Deslizam pelas linhas, sulcos, montanhas.
São explorados com delicadeza.
O corpo trepida e se desmancha sob o lençol. Nu.
A mente viaja para um tempo inexistente.
Com as pálpebras fechadas, a visão negra.
A garganta fechada.
Os olhos a traem e desprendem gotas tão salgadas quanto amargas.
Tudo é dor!
sábado, novembro 04, 2006
Isso é Saramago
"O sexo é. Especular sobre a importância e o significado dele não levará a
outra conclusão: o sexo é, e não só é, como tem as suas razões. Não discutamos
com o sexo, ele acabará sempre por ganhar a partida. Às vezes, para justificar
as nossas tentações, dizemos que a carne é fraca. E não se repara que se a carne
cede é porque o espírito já havia cedido antes..."
Não tem nem o que falar. Ele deu uma breve entrevista por correio eletrônico para o Estadão de hoje. Está ótima. Quem quiser ler a íntegra é só checar.
terça-feira, outubro 31, 2006
Esquina
O barulho parecia ensurdecedor. Mas eram só os seus ouvidos. Um caminhão, um ônibus, carros passando pela avenida, movimentos banais como o cotidiano, e ela empurrando o carrinho de sua bebê. Pequena criança.
Decidira dar um passeio com a menina - primeiro passeio - empurrando o carrinho por aquelas calçadas desniveladas e inadequadas. Ela avança insistente até a esquina. Lá, em um metro quadrado, ela se perde.
O que lhe tomou? Que sensação foi aquela? O barulho de dentro era mais forte que o barulho de fora. Ela enxergava os movimentos editados em takes rápidos. Tudo superlativo, como se ninguém a visse e ela percebesse tudo. E se sentiu profundamente só.
No carrinho, a nenê não chorava, mas a olhava de um jeito estranho, como uma estrangeira pedindo auxílio. Ela não conseguiu avançar. Dava passos desconexos, olhava para o alto e para os lados como uma alucinada e tudo que conseguiu fazer foi recuar e fugir empurrando às pressas o carrinho de volta pelo caminho.
Por que aquela sensação? Aquilo era um assombro que durou eternos segundos, e era muito maior que ela. E olha que naquele momento ela ainda não sabia... Ela realmente não imaginava. Mas, talvez, ao seu coração, a mensagem já estivesse dada.
O que viria?
Viria o mal congênito,
o medo,
a dúvida,
a luta,
a dor,
os vômitos,
os olhares de pena,
os exames,
as febres,
os cavalos,
os aparelhos,
os parabéns em meio a lágrimas,
a esperança
e a morte*.
Mas naquele dia, naquela esquina, no meio da fumaça, ela ainda não sabia.
Depois da morte veio o trabalho, o trabalho e o trabalho. E a obrigação auto-imposta de consolar os outros. Ela não podia esmorecer. Não podia fraquejar. Porque, se ela caísse, nada sobraria atrás de si, acreditava.
E ela continuou. Não parou nunca. Nem outra filha, maior dádiva, a fez parar. Tudo tem que estar certo, no seu lugar, contas em dia, geladeira cheia, casa limpa, sem respirar, não olhar pros lados, continuar. A perfeição é a meta sem que se saiba.
Não há poesia, não há música, não há leveza, nem amargor, apenas o que há e o que tem que se cumprir. Até com uma certa alegria, arremedo de felicidade.
*A dor do amor-negado é tão forte quanto a dor da morte.
quinta-feira, outubro 26, 2006
quarta-feira, outubro 25, 2006
Viagem na Copa do Mundo
O garoto se achava o máximo. Carrão novo, shorts, camiseta, naquele junho com sol de rachar como quase sempre ocorre no inverno paulistano. Tudo é sem sentido, esquisito mesmo, até o tempo.
Jogo do Brasil na Copa do Mundo. Ele passa na casa do amigo, lá na Mooca ó meu, e avisa que a galera vai se encontrar num clube lá na Zona Sul, ou na Zona Norte, não importa, mas tem telão, tá calor e eu tô com o carro que o meu pai me deu.
O rapaz segue com um amigo pela avenida do Estado. Em outro carro, vai o outro amigo com uma namorada. Todos querem chegar rápido. Domingão, solzão, jogo e eu quero mais é beber.
Mas o garotão também adora correr. O selo símbolo de rachas diz pro bom entendedor de que praia ele é. E ele acelera.
Emparelhado com o carro de um estranho, só pra provocar, ele continua. Mas não percebe a curva. E a curva suave de repente fecha mais. Ele perde o controle.
O carro atravessa uma, duas, todas as faixas e bate na mureta branquinha, recentemente caiada. Capota. Se arrasta por mais uns cem metros de ponta cabeça até parar por falta de mais impulso.
O carona, amarrado com o cinto, fica firme no banco e tem só escoriações. É levado pelo resgate. O garotão de shorts e camiseta, que nunca acreditou no fim da vida, tem a cabeça esfregada no asfalto junto com a lataria do carro. Não há lugar sem sangue no exíguo espaço da máquina de quatro rodas.
Carro, corpo, rosto, tudo é irreconhecível. Então o corpo, que não serve mais pra nada, fica lá no meio fio. Depois, assim como a lataria do que era o carro, é arrastado pra calçada, porque o trânsito tem que fluir.
Quando chego, ainda afastada, percebo a mãe sendo retirada da cena. Melhor assim. Não preciso falar com ela. A mulher quis ir lá, não acreditaria se não visse com os próprios olhos. É o início do fim de sua própria vida que está jogado naquela calçada toda quebrada e suja.
Meu motorista logo dá um grito: o que meu sobrinho está fazendo ali? É o amigo que estava no outro carro com a namorada. Tio, eu vinha logo atrás, não era racha, não sei o que aconteceu. Seu moleque, podia ser você, seu irresponsável! Cadê seu pai? Eu vou chamar sua mãe e quero ver você pegar o carro de novo!
O muro quebrado continua lá. Já são mais de quatro anos. Já passou a outra Copa. O Brasil não foi campeão. Mas o muro, do mesmo jeito, ainda está lá. Uma marca de triângulo mal feito na minha memória.
segunda-feira, outubro 23, 2006
Transparente
Eu devo estar cinza mesmo.
Mas o meu coração está verde e meus olhos estão vermelhos.
Minha gargarta está roxa, meu fígado amarelo e minha língua está turquesa.
Estou toda colorida, de tons berrantes e, dependendo do olhar, até sinistros.
É que às vezes eu sou assim: só vejo o escuro do poço na minha frente!
São breves estes momentos.
Esse é o defeito da minha personalidade.
Minha alma ainda é translúcida, quase sempre totalmente transparente.
Pena!
Devia ser negra.
E intransponível.
quinta-feira, outubro 12, 2006
Eu aceito
Serei uma mãe precoce, você sabe, mas, no futuro, a gente poderá, sim, ir juntas para algumas baladas. Só não vou me drogar tanto, mas talvez você, em algum dia, tenha que me carregar pra casa. Prepara-se.
Nos primeiros dias da gestação, não se entristeça, mas eu vou chorar muito de desespero. Se tivesse 30 já choraria, imagine, então, aos 14?
Mas, enquanto a barriga crescer, eu vou colocar uma música legal pra você escutar e já ir se acostumando com os sons de qualidade. Talvez alguma canção de ninar, talvez algo de Toquinho, sei lá, ainda vou escolher, mas você terá uma música pra não se esquecer.
Vou me surpreender e bordar lembrancinhas em ponto-cruz e um quadro com o seu nome pra colocar na porta do quarto do hospital. Tentarei por insistência ter um parto normal, mas depois cederei aos apelos do médico, dizendo que você corre riscos, e permitirei a cesariana
Depois que nascer, vou te amamentar até os 2 pra você não correr riscos. Vou sempre te fazer ninar no colo, tenha certeza, cantando baixinho aquela mesma canção que escolhi lá atrás.
Mas, não pense que sua vida será só moleza. Você não terá tudo o que quiser e nem na hora que quiser. Quanto mais espernear, e mais se jogar no chão, mais dura será sua vida ao meu lado. Vamos brigar a partir do momento em que você começar a andar, mas nunca vamos dormir sem nos falar, sem trocar beijos, sem uma história contada na cama.
Também não vai comer só tranqueiras. Não sei como farei isso, porque também quero me entupir de doces, mas juro que resistirei.
Quando entrar na escola, estarei ao seu lado na hora das lições de casa, irei nas reuniões chatas de pais e mestres e babarei nas festinhas de final de ano, com você fantasiada de flor, de borboleta, de coelho, dançando muito sem jeito.
Construiremos uma certa cumplicidade, eu sei, mas acho que na adolescência vou me atrapalhar com você. Como não brigar, como não querer que você faça o que eu acho certo, como confiar no mundo e te deixar seguir o seu caminho? Como evitar que você caia nas mesmas ciladas em que eu caí?
É! Não vai ter jeito.
Na idade adulta você vai ter que me perdoar por todas as discussões feias que teremos durante a sua adolescência, eu sei. Mas vou preferir pagar o seu terapeuta, com quem no futuro você vai falar sobre nossa tumultuada relação, do que te perder para sempre.
sábado, outubro 07, 2006
A boa amante
Nas madrugadas, em silêncio
Por vezes cinza, fria e úmida
Outras cheia de lua
Mas sempre a me envolver
Seus espaços são espaços que eu percorro como um quintal
...conhecido quintal
Vejo em cada ponto uma história
Procuro em cada esquina um alguém
Meu exemplo de paraíso
Sem flores
Sem mar
Nem areia
Meu esconderijo, meu porto
Velejo até aqui e ancoro meu corpo desenganado
Às vezes realizado
Destroçado
Às vezes aliviado
Outras arquejado
As ruas dessa cidade me conhecem, me amparam e não me abandonam
Sou eu aqui, e aqui me reconheço
domingo, outubro 01, 2006
Sem convicção nem humor
Desabafo feito, vamos lá encarar os tucanos da minha seção eleitoral. Mas, surpresa boa: não tinha fila. E, no final, votar no meu antigo colégio, no meu antigo bairro, sempre é divertido, meio nostálgico. Logo de cara, encontro o velho vizinho, mais velho do que nunca, agora falando dos netos. Depois, o mesário é colega de infância: "Você não é irmã do Gerson? Eu sou o irmão do Osmar?". Papo de xarope, o mesmo estado meu.
Me animo: até que terminei o voto mais cedo do que calculei e sigo pro jornal tentando desviar o dial da CBN, já que de notícia eu estou farta e vou me fartar ainda mais durante este dia. Mas sigo com aquela sensação esquisita logo depois traduzida pelo João Ubaldo: o voto este ano está sem entusiasmo, sem convicção, sem esperança. Todo mundo que conheço está assim: voto pelo hábito, com raiva, meio por obrigação, no menos ruim. Antes do apertar o sim verde, xinguei a foto do infeliz, esperando que ele escute e páre de fazer bobagens.
Mas suspeito que hoje e os próximos 4 anos vão ser bem amargos.
sexta-feira, setembro 29, 2006
É essa
Vértice
by Elisa Lucinda
Parece desperdício
parece que me amas escondido
parece orgulho
parece castigo.
Gritos calados revolvem a terra de dentro.
São patas fazendo poeira e dor.
Coitado do amor, logo ele que é filho do encontro,
está sozinho no ponto.
Desencontrou.Será que um dia eu consigo escrever assim, com tanto coração?
quinta-feira, setembro 28, 2006
Batalha
Um beijo bem alto
No meio daquele silêncio da redação
A outra olha, se horroriza
Eu olho, me assusto, mas me divirto
Não me importo
Ele diz: gooostosa
E eu gargalho
Só dou risada
É engraçado
Então vem, me encara
Se aproxima, toca na cintura
Ameaça um bacio, um amasso
E eu olho, e espero
Não me viro
Vem devagar, olho no olho, e
Na hora H, do meu lábio, ele desvia
Não tem coragem?
Eu provoco
E a gente ri
Do estalo
terça-feira, setembro 26, 2006
Dos pés ao tronco
Como se eu fosse uma criança
Como se você fosse meu grande urso
Não me afaste
Nem se vire.
Só me permita ficar assim, grudada em você
Acompanhando dos pés ao tronco as suas curvas
Assim eu adormeço
E te protejo
Mês Nove
Não têm aniversários, não têm data marcada no calendário pra comemorar nada; são só setembros.
Geralmente no início deles há muita dor, mas conforme vão passando eles mudam minha vida de ponta cabeça. Termino novelas e começo histórias.
No seu percurso, inicio fases inesquecíveis, que muitas vezes coincidem com o fim de temporadas já insustentáveis.
Deve ser por isso que adoro setembros: eles têm o dom de virar as minhas páginas.
Sempre em setembro tudo melhora, porque expurga. É o pus que vai embora.
Neles já me expus, perdi, superei, enterrei o ser mais amado, matei saudades, tirei a limpo um mal entendido de quase décadas, mudei de casa, gritei da mais profunda dor e me senti extremamente feliz com o mais simples dos prazeres: um abraço. O trivial.
São tantos acontecimentos em setembros que não há apenas um dia deles que seja mais importante. Não para mim.
E, às vezes, até esqueço que estou nele, em um setembro.
Quando tudo está por ruir, também me esqueço de pensar que ele chegará. Serviria pra me alimentar de esperança. Mas, na minha cabeça dramática, é como se o mundo fosse parar lá, sei lá, em fevereiro, abril ou julho.
Só me dou conta da importância de setembro quando percebo, meio no susto, como as coisas estão se movimentando e, de novo, a minha vida, se transformando. Chegou setembro.
Foi assim neste que estamos. E que, que pena!, já está acabando.
(Não me lembro de ter terminado um setembro sequer de minha vida infeliz. Triste às vezes. Mas nunca, nunca infeliz)
segunda-feira, setembro 25, 2006
Noite de Domingo
O dia começou e eu não estava nem aí. Minha alma havia pulado mais que o meu corpo, e ele, cansado (engraçado!) foi obrigado a acompanhá-la. Um verdadeiro escravo.
De manhã, o coitado estava acabado, destruído, jogado no colchão.
Mas ela, ela passou o dia leve, sapeca, num desbunde total, com aquele ar infantil no olhar.
Queria te contar isso (uma bobagem), porque ontem (já passou da meia-noite), enquanto minha alma dava um baile no meu corpo, e a minha voz cantava alucinada com a multidão, era com você que eu estava.
O corpo lá, mas a alma, a alma não. Tem dias (sabe?) sou pura intuição.
quarta-feira, setembro 20, 2006
Noite em Paris
Nada de morte em Paris! Não me faça chorar com essa história.
Viver aos 22 também é uma grande coincidência (quando tinha 7 falava que casaria aos 22, idade redonda perfeita pra matrimônios, eu achava. Mas nunca casei de verdade. Sou solteira por natureza). Quando fiz 22 de fato sai da vida. E hoje a vida me chama de volta, pra acertar as contas com ela. Deixei dívidas no passado e esse passado me cobra os dividendos. Pra você ver que não adianta nada planejar a vida como um arquiteto bem formado.
Não morra nunca. Não me fale mais em morte. Mesmo se existir mil reencarnações, não me fale em morte! Ela não virá assim, porque você a imagina. Ela virá naturalmente, quando o corpo se desmatentelar pela idade. A idade de Maria, quando tudo o que era possível aconteceu e nada mais importa.
O amor que hoje senti por vocês foi descomunal. Ficaria a noite inteira nesse sonho. Delírio? Não.
E me comove o empenho de vocês. Vamos nos divertir nessa cidade e criar uma história pra psicanálise traduzir no futuro. A psicanálise de Paris vale mais a pena que a de Viena. É mais leve que Freud.
Amo vocês!
domingo, setembro 17, 2006
Versos em Sonhos
Versos com rimas ricas, sem rimas pobres
E, sonhando, tenho certeza que vou acordar
E escrever o que pensei, elaborei
Mas, se acordo, não sei mais nada
As rimas fogem, as palavras se apagam
Hoje à noite sonhei “amor” e “muito mais”
No coração, só fiquei com o “amor”
O “muito mais” virou resto
Perdido num sonho esquecido
Sem sentido, nem memória
Pena que os sonhos são tão surreais
quarta-feira, setembro 13, 2006
As Quatro do Fusca
E lá fomos nós. Eu ao volante do Fusca, párei naquela praça escura do 2º subdistrito. Do lado de fora, a tempestade; do lado de dentro, vidros embaçados, respiração oprimida, nós nas gargantas.
O objetivo: falar umas às outras o que significava aquele homem para cada uma. Falar abertamente. Ouvir sem rancores.
Minto se afirmar saber exatamente o que dissemos, quais as palavras. Tenho reminiscências.
Com certeza eu fui a primeira a falar. Falei de envolvimento, de não saber bem o porquê ele exercia sobre mim tanta atração, de não conseguir dizer não. Tinha um pouco de vergonha das outras três. Como se, me envolver com ele, fosse um grande erro, uma traição, como se elas não tivessem idéia, como se eu desse a elas a certeza que queriam ter, mas que a partir dali me condenaria a seus olhos para sempre.
Outra falou de transas, sim, mas sem importância. Ela se entregava por passatempo, para ela era mais um, não queria incomodar ninguém, e só curtia se ele estivesse disponível. Não entendia as nossas angústias.
Mais uma confessou uma atração desconhecida, meio platônica, meio paternal, que a assustou em princípio porque já tinha listado seus defeitos e já o tinha rotulado como pessoa perigosa. Até conversara com ele sobre o assunto e ele a surpreendeu.
Por último, a que sempre a meus olhos pareceu a mais frágil de nós, aquela por quem eu devia me preocupar, falou da sedução, do medo, do saber ser inconseqüente, da curiosidade, do querer provar algo que outras já haviam provado.
Como já disse, não sei ao certo o que falamos, com quais palavras. Devo hoje misturar o relato de uma com o de outra. Mas sei bem do que não falamos.
Não falamos de amor ou de paixão. Acho que não porque não quiséssemos, mas simplesmente porque não sabíamos traduzir em palavras tais sentimentos, se é que é possível traduzí-los.
Falo do amor da mulher pelo homem, aquele que não tem dúvida, aquele que não tem culpa, aquele que simplesmente é, sem artifícios.
E também não falamos de sexo. Do bom, do natutal, daquele em que os dois aprendem a se conhecer, sem restrições. Não falamos porque sexo, entre nós, naquela época, ainda era tabu, apesar de sermos próximas.
Não falamos também de cada uma de nós, ou como cada uma se sentia em relação à outra naquele momento.
Acredito, portanto, que não falamos tudo o que devíamos falar. Parece que terminamos a conversa aliviadas, mas naquele carro pairava uma névoa estranha, dolorida, obscura mesmo. Durante anos acreditei que aquilo tinha nos unido, mas hoje sei que isso não é verdade. Só amadurecemos um pouco com aquele encontro.
Mais do que ser envolvente, com pesar, concluímos que ele nos manipulava. Concluímos, juntas, que o melhor que faríamos era nos afastar dele, deixá-lo.
terça-feira, setembro 05, 2006
O outro caminho
E me exponho cada vez mais
Sem medo de exagerar
Ou errar
Enquanto você se afasta, eu sigo meu outro caminho
E tropeço
E vacilo
Mas não ouso parar
Enquanto você me persegue com o canto do seu olhar
Eu te encaro e te digo
Não se aproxime
Me deixe
Porque dessa vez eu vou sem você
sexta-feira, setembro 01, 2006
quinta-feira, agosto 31, 2006
Centro da minha palma
A astrologia ultimamente anda me batendo. Bate e assopra, a danada. Diz que não posso ser preguiçosa, que a hora do ócio não chegou, que tenho que, por Júpiter ou Marte, banir todo o mal que minha alma mesmo construiu.... Uau!! Isso não parece nada animador.
Acho que preciso mesmo é encontrar uma boa quiromante. Tem uma linha na minha mão esquerda que não existia antes. Ela apareceu curta, perdida. Às vezes está muito forte, às vezes muito fraca. Agora apareceu outra, quase que uma irmã da primeira, próxima ao pulso. Parece que as duas querem se encontrar bem no centro da minha palma. Isso deve ter algum significado urgente.
Minha amiga me disse hoje que eu sou uma romântica. Quase me ofendi. Mas, que nada. Me senti lisonjeada. Prefiro ser diferente nesse mundo onde quase a totalidade quer se convencer que o amor não tem graça. E quando falo de amor falo de tudo o que ele envolve: prazeres, dores, certezas absolutas, dúvidas eternas, encontros, desencontros, taças de vinho, etc, etc, etc....
So... Quero mais é ser romântica. Sou mais romântica agora do que quando tinha 20. Acho que é pura virtude ficar romântica aos 40. Duro é mulher que fica amarga aos 40 (o que, aliás, é muito mais comum). Desse mal eu não morro.
sábado, agosto 26, 2006
Quatro Pares
Se conheceram no trabalho
Se amaram sem saber
Se afastaram pelos outros
Se reencontraram numa festa
Se uniram na alegria
Sob mil promessas
...uma família
Se conheceram na escola
Se amaram na infância
Se afastaram pela bronca
Se reencontraram num sonho
Se uniram por esperança
Sob muita dor
...um filho
Se conheceram num palco
Se amaram pelos gestos
Se afastaram pela vida
Se reencontraram na solidão
Se uniram para sempre
Sob as estrelas
...uma casa
Se conheceram numa esquina
Se amaram às escondidas
Se afastaram em silêncio
Se reencontraram numa busca
Se uniram por impulso
Sob o eterno
...um amor
quinta-feira, agosto 17, 2006
O monstro
Ele queria a nossa energia para sobreviver, sobrepujar e, por fim, nos esmagar.
No início, ele era um pequeno verme. Mas algumas de nós lhe demos crédito, confiança, respeito.
E ele cresceu e se transformou num ser abominável, que soltava faíscas de ódio e fogo de ressentimento pelos olhos.
Só seu hálito era capaz de nos derrubar.
E, assim, fomos caindo, uma a uma:
A primeira, perdeu o ânimo.
A segunda, o juízo.
A terceira, a paciência.
E eu, a última, a esperança.
quinta-feira, agosto 10, 2006
Vida astral
"Sua vida espiritual tem sido um grande objeto de estudo com a Lua em Áries. Isto facilita a junção de partes separadas de sua personalidade, em torno de um ser maior dentro de você."
E volta o tema das duas partes querendo se unir. Justo agora que começo a achar que o melhor é ficar assim, dividida, entre o estável e instável, entre o sério e o escracho, entre o amor e a dúvida, entre o ideal e o real, entre o reter e o deixar partir.
terça-feira, agosto 08, 2006
Feliz Ano Novo, Vivi
So, estou louca pra pular as sete ondinhas e jogar uma flor no mar pra Iemenjá. E pronta pra fazer as promessas de começo de ano que todos sempre fazem (e pouquíssimos cumprem).
Então, vou escrever pra não esquecer.
1. Ler mais (livros têm enchido minha alma)
2. Escrever mais (é o melhor alívio)
3. Beijar mais a Bia (retorno imediato)
4. Sair mais com minhas amigas (elas seguram as pontas)
5. Beber menos (sou louca sem isso)
6. Comer menos açúcar (só dá tonturas)
7. Andar mais (a solidão da caminhada me estimula)
8. Ir mais ao cinema (fui ver Elsa & Fred no fim de semana; é tão maravilhoso que me questiono como posso ficar meses sem ver algo na telona)
9. Pensar menos no que passou (é o mais difícil)
10. Planejar menos o futuro (nunca funciona)
11. E não esquecer. Mas transformar
sexta-feira, agosto 04, 2006
Penumbra
É como olhar para um tempo que eu conheci,
mas para o qual eu nunca mais vou voltar.
sexta-feira, julho 28, 2006
O trapo
E Maria se transformou num trapo humano.
Sua pele como que se descolou dos seus ossos.
Se escuta, não escuta.
Parece que escolhe o que escutar.
Ou prefere fingir que ninguém fala
para também não precisar falar.
Nada mais lhe pertence,
mas também não se pertence mais.
Roupas largas,
peças desconexas,
nos pés só chinelos.
Me pergunto onde está Helena?
Que um dia foi a temida,
que um dia foi a raivosa,
que um dia foi a querida.
Ninguém quer mais Maria.
Mas ninguém pode querê-la mais.
Vários tentaram. Ela não deixou.
Agora ela é só.
E, só, se esbofeteia,
faz seus olhos ficarem roxos,
pontos na testa,
desequilíbrio,
tropeções incalculáveis.
Às vezes foge,
talvez porque também tenha um lampejo e procure por Helena.
Talvez...
Em qual momento da vida de Maria Helena a deixou?
Helena,
a das pernas belas,
a da bicicleta,
a da prancha,
a da praia,
a dos cabelos sempre pretos.
Olhos parados,
corpo parado,
boca caída.
Sua imagem.
Um trapo essa Maria.
Deserto
Sobra tempo nas nossas vidas de lá.
Lugar onde o dia leva um mês para passar e o tempo de um dia é uma hora eterna.
Onde a vida parece outra e me transforma em outra.
Lá eu nem sei o que sou.
Alguém que não sabe onde está. Alguém que não tem o que o fazer.
Alguém que é muito, mas não o que o olho alheio vê.
Lá é um lugar que não se move, um lugar adorável que me paralisa.
Onde as crianças estão para brincar e os velhos para morrer?
Não. É o lugar onde as crianças e os velhos estão para viver.
Viver como não poderiam em nenhum outro lugar. Lá estão em paz.
Mas tristemente é um lugar onde os jovens estão para desprezar e as mulheres maduras para lamentar. Os homens maduros? Eles nem existem lá. São fantasmas ou exceções.
É um lugar que está fora do mapa, que se esconde do mundo.
Um lugar quente como o inferno e silencioso como o alto mar.
Aliás, não deveria existir um lugar tão quente tão longe do mar.
sexta-feira, julho 14, 2006
Os pés de Flora
De todas as histórias que já ouvi sobre dormir de meias a mais curiosa foi a de Flora. Minha amiga conta que dorme de meias desde os 20 e poucos por causa de um amor, talvez o único de sua vida. Ela se ilumina quando conta que o amava perdidamente. Que o sexo era ótimo, mas que, depois do rompimento, o que nunca conseguiu esquecer foi daquela sensação dos pés do outro nos seus pés. "Era como se quatro pés fosse um único pé", diz.
Se peço pra ela contar, fecha os olhos e parece até que entra em transe. Ao lembrar, diz que sente imediatamente o volume e o frio dos pés do outro, a aspereza dos seus calcanhares masculinos, o toque das unhas mal aparadas e até o roçar dos pelos que ele tinha sobre o peito do pés. E, já aos prantos, diz que só deseja que ele também suspire com a lembrança de seus próprios pezinhos delicados, número 34.
E foi por isso, diz, que passou a dormir de meias. A cada namorado, a cada amante, mais que sexo bom, o que procura é a mesma sensação nos pés. Por isso no primeiro encontro nunca usa as meias. É a esperança de reencontrar o que alimenta a sua loucura. Mas, a partir do segundo encontro, colocá-las é inevitável. É como um impulso que Flora não consegue evitar.
E é por isso, diz, que sempre está só. Os homens com quem sai nunca conseguem satisfazê-la. Acham a meia brega. E não usar meias lhe dá náuseas.
Mas, penso, eles até devem ter razão! Imagina só, no meio da empolgação, nua em pêlo, a mulher sempre pára tudo, abre bolsa, cata um par de soquetes e veste. Sem dar explicação.
quarta-feira, julho 12, 2006
A machadinha
Hilda tinha uma machadinha. Ganhou de presente do Doca. Mas não foi um presente qualquer.
Não que ganhar uma machadinha de presente do marido seja coisa comum. Mas poderia ser um presente digamos... terno, carinhoso ou até exótico se o marido tivesse ido até uma loja, olhado cada objeto com atenção e escolhido o que mais refletia o amor que sentia pela mulher.
Mas não foi assim. Hilda foi quem pediu a machadinha. Pediu não: exigiu.
Quis a machadinha quando descobriu que Doca a traia. Pois ele de birra foi à loja, escolheu um belo exemplar, de cabo vermelho, amolou bem amolado e levou para a mulher. Ela recebeu, não agradeceu, enrolou em um pano de pratos e guardou no meio de suas calcinhas. "Eu ainda te mato com essa machadinha!", declarou.
A traição foi assim: o casal e dois filhos viviam numa cidadezinha da Paraíba. Já tinham passado por São Paulo, guardado algum dinheiro e como boa parte dos migrantes resolvido voltar pra terrinha. Depois de um tempo, o calor, o ócio e a falta de dinheiro voltaram a apertar e eles decidiram apostar de novo no Sul.
Diferente da maioria dos casais, foi a mulher quem voltou pra São Paulo. Tinha contatos, antigas patroas e, avaliou, podia conseguir um emprego primeiro e preparar o retorno da família.
Mas a solidão é um osso difícil de roer para o homem que adora dizer que é macho. Dois meses sem uma mulher foi o limite para Doca: arrumou uma amante, mulher de um vigia noturno. Tinham encontros todas as noite, na casa dela. Ele esperava as crianças dormirem e, pra não fazer barulho e correr o risco de acordar alguém, saia e chegava em casa empurrando a moto.
Grande idéia essa do Doca! O plano era perfeito, as crianças tinham sono pesado, mas (olha aí o imponderável!) a família tinha uma vizinha (sempre há uma vizinha pra atrapalhar ou salvar a nossa vida). E ela ligou para Hilda.
A mulher enfurecida voltou no dia seguinte pra sua cidade, sem contar pra ninguém (só a vizinha sabia). Até comprou uma passagem de avião à prestação. Passou o dia todo na vizinha, escondida. Ouviu o marido brigando para os meninos irem logo pra cama. Viu as luzes do quarto dos garotos se apagarem. Viu seu marido empurrando a moto da garagem sorrateiramente. E estava lá, na sala, quando ele voltou de madrugada, quase amanhecendo. Foi um Deus nos acuda!
Pra encurtar a história, até levar a mulher pra conhecer a amante ele foi obrigado. Depois da fúria, Hilda, de verdade, se divertia com a covardia do marido. E aí veio a idéia da machadinha.
Por isso que Hilda mantém até hoje a bichinha guardada, embrulhada no pano de pratos, no meio de suas calcinhas. Quando a coisa aperta, ela só fala: "Olha, Doca, que um dia eu ainda vou usar essa machadinha!"
segunda-feira, julho 10, 2006
Se encolhendo
Ele acordou naquela manhã e não quis levantar da cama. Dormir já tinha sido um sacrifício. O barulho da chuva... Ele sempre adorou dormir com o barulho da chuva, trovões ao longe, o cobertor quente. Porém, daquela vez, ouvir a chuva batendo na sua calha foi como ouvir marteladas que o impediam de relaxar. Onde ela estava?
A chuva insistente tinha decidido não parar e ele dormiu com seus pesadelos de sempre. Monstros que o alcançavam. Corrida por um mundo escuro e negro onde ele sempre escorregava. E, no final, a solidão doendo na alma. Mesmo quando estava acompanhado, ele sentia que acordava solitário, transpiração fria, respiração ofegante. Aquilo sempre se repetia.
Naquela manhã só incomum por causa da chuva que não parava, ele se encolheu ainda mais debaixo do cobertor, apertou seu travesseiro e quis voltar a ser criança. Criança, achou, não pensaria nela. Mas não conseguia ser criança. Sentia como homem que era. Pensar naquela mulher era parte da sua rotina. Acordar com ela todo dia, dirigir a ela seu primeiro pensamento era o seu tormento. Tormento que ele adorava e cultivava. Porque era tudo o que lhe tinha sobrado dela.
Com a chuva, porém, tudo era mais doloroso. Ele suportava a lembrança na rotina, mas a chuva lhe trazia um desejo por algo que não se completou. Uma culpa sem sentido já que nada acontece fora de sua época. Mas era como se ele já a tivesse perdido. Onde estaria aquela mulher?
sábado, julho 08, 2006
Não se assuste com o que escrevo
Nunca se assuste com o que eu escrevo
Eu não escrevo para te impressionar
Escrevo pra desabafar
Escrevo pra não esquecer
Escrevo o que já vi e muito do que já ouvi
Escrevo o que invento
Escrevo o que sinto
Não escrevo pra irritar
Não escrevo pra provocar
Não escrevo pra te expor
Não escrevo pra me auto-afirmar
Talvez escreva pra te alertar
Talvez escreva pra me alertar
Porque quando coloco as letras na tela muito do que sai é o que eu também preciso saber
Outro dia disseram algo como "baixa a bola, oh poço de sabedoria!"
Não me ofendi, mas não tenho a intenção de saber mais que ninguém
Só escrevo o que percebo e o que a minha intuição me diz
E, daí, escorregar isso da ponta dos dedos pro papel parece inevitável
Necessário até
Impossível de brecar
Comecei. Não consigo e não quero mais parar
sexta-feira, julho 07, 2006
Pasta suspensa
Como tua secretária
Eu te coloquei num envelope pardo
E te arquivei
Te depositei naquele arquivo cinza
Móvel enorme de aço, de gavetas gigantes
Emperradas e barulhentas
Te pus numa pasta suspensa
Mas não te inventei um título
E nem te lacrei
Quem sabe um dia
Te consulto de novo
E te desarquivo de vez
terça-feira, julho 04, 2006
Descobrindo a roda
Seu sorriso maroto me acorda todas as manhãs
O cheiro incomoda, mas não importa. Ele desaparece
Encolhe suas pernas e encaixa seus joelhos no meu ventre
Enrolamos mãos e braços e tentamos não misturar nossos hálitos
Cochilamos, acordamos, cochilamos de novo
Isso tudo é como uma brincadeira
Você é a parte mais importante de mim
É a melhor coisa que tenho
É o calor que não quero perder
Chora de manha, me olha de lado, finge dores e problemas
Fala verdades absolutas
Descobre a roda todo dia
É personagem de histórias fantásticas
Você é minha vida
Te beijo sem parar e você ri de dar gosto
Pede cócegas, manda em tudo, desorganiza o mundo
Me beija escondido enquanto finjo que durmo
Me leva até o carro e faz setas para eu estacionar
Estou a seus pés, mas sei que te controlo
Está em meu colo, mas sei que um dia partirá
Mas estaremos juntas até a vida
Sabemos porque não cabemos dentro nós
Somos maior que nós mesmas e ninguém, ninguém, nos poupará
segunda-feira, julho 03, 2006
Vamos reinventar
É possível reinventar o amor? Estou convencida que sim.
Ainda não sei de que forma, de que jeito, com qual técnica, mas me custa o ceticismo. Não sei ser incrédula. O otimismo é a minha marca.
A vida sem paixão não me basta mais.
Por isso, prefiro apostar na reinvenção do sentimento para não perdê-lo.
Hoje li Carpinejar. Talvez por isso tenha me convencido de vez. A dúvida que ainda pairava no ar se esvaneceu. Ele escreve sobre o amor:
"É uma encruzilhada colocar a casa para fora da boca. Abrir-se. Expor-se de tal modo que não se pode retornar ao que julgávamos nossa vida, ao que acreditávamos nosso lar, ao que confiávamos como nossas convicções e nossa ordem. Como confessar uma paixão e depois fingir que isso não mexeu com a gente e retomar o trabalho e a disciplina dos dias como se fosse comum?"
É impossível fingir. Por isso, só resta reinventar. Aceitar que a mudança é definitiva e continuar. Usar essa energia mágica que esquenta e esfria o coração a cada décimo de segundo e trabalhar.
Saber que o amor não nos pertence, mas também não pertence ao outro. Portanto, não pode ficar enclausurado no peito da gente, sem destino, sufocado. Tem que vazar, mostrar sua alegria, mostrar sua forma de ser.
É essa a minha disposição.
E também é a minha esperança. Esperança que também tinha de ser sua.
Talvez, reinventado, o sentimento possa também se reencontrar. Em outro lugar
domingo, julho 02, 2006
Número alto ou número baixo
Tenho saudades do seu Benê. Motorista do Diário do Grande ABC, conhecia tudo na periférica Mauá. Qualquer rua, de qualquer bairro. Tinha sido motorista da Eletropaulo, levava a equipe para instalar os postes de iluminação nos confins da região. "Vocês querem ir na rua em número alto ou número baixo?" Era a pergunta clássica que fazia pra gente, a reduzida equipe móvel da sucursal, no início dos 90: eu, Chico e Anahi. Ele queria saber por qual ponta da rua devia chegar. Pra gente era o máximo: nos bairros de Mauá as ruas eram todas tortas, tinham normalmente surgido de um loteamento clandestino, sem planejamento... Como o cara sabia só pelo nome por qual lado devia chegar???!!!
É que ele conhecida tudo por lá. Quando a gente estava de saco cheio, era só falar: "Seu Benê, vamos passear". Ele nos mostrava os lugares mais bucólicos de Mauá, pedaços com cara de sítio, serra, lindo mesmo. Era difícil acreditar porque estávamos em Mauá.
Seu Benê era um cara incomum. Meio sábio, meio pai, companheiro acima de tudo. Sempre contava com algum constrangimento que já tinha sido "muito errado nesta vida". Nada demais, na verdade: tomou porres homéricos, chegou de quatro em casa várias vezes, fez a mãe chorar um bocado, quebrou corações. Mas era um cara "redimido". Era um homem apaixonado. A mulher dele, acho que chamava-se Lídia, era o seu grande amor. A mulher que o tirou "daquela vida". Tinha filhos que pareciam seus netos e era mesmo um homem feliz.
Não sei ao certo em que ano seu Bebê ficou doente. Acho que teve gota. Já não estava mais no Diário. Fui visitá-lo no hospital, ele havia perdido uma perna e chorava. "Como eu vou fazer Vivi? Meu filho está com vergonha!" O moleque tinha uns 12 anos. Mas não estava com vergonha. Estava arrasado com a doença do pai. Dias depois seu Benê morreu. Grande perda, seu Benê. Bons tempos, seu Benê.